17 de Abril, 2018 - 10:55 ( Brasília )

Geopolítica

Europa vive "guerra civil" entre democracia e autoritarismo, diz Macron

Em discurso no Parlamento Europeu, presidente francês alerta contra avanço do "nacionalismo egoísta" na União Europeia. "Não quero fazer parte de uma geração de sonâmbulos que se esqueceu do próprio passado."

O presidente da França, Emmanuel Macron, lançou nesta terça-feira (17/04) um alerta à Europa contra o autoritarismo dentro e fora da União Europeia (UE). Em seu primeiro discurso ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, o líder francês pediu que a Europa não retroceda rumo ao nacionalismo, mas que trabalhe para se tornar um bastião da democracia liberal.

Após as vitórias expressivas de eurocéticos populistas na Hungria e na Itália e em meio ao contínuo embate entre a UE e o governo de direitista da Polônia, Macron disse que há uma atmosfera de "guerra civil europeia" e que um "nacionalismo egoísta" está ganhando terreno. Ele convocou os demais países do bloco a sair em defesa da democracia.

"Não quero fazer parte de uma geração de sonâmbulos, não quero pertencer a uma geração que se esqueceu do próprio passado", disse o presidente ao delinear sua visão para o futuro da Europa.

"Quero pertencer a uma geração que defende a soberania europeia, porque lutamos para conquistá-la. Não cederei a nenhuma forma de obsessão pelo autoritarismo", acrescentou.

"Frente ao autoritarismo, a resposta não é a democracia autoritária, mas sim a autoridade da democracia", disse o francês, numa clara referência ao governo do primeiro-ministro Viktor Orbán, recém-reeleito na Hungria, e ao partido governista da Polônia, o populista de direita Lei e Justiça (PiS).

Perspectiva europeia pós-Brexit

Macron foi o quarto chefe de Estado ou de governo da UE a participar de um ciclo de debates sobre o futuro da Europa no Parlamento Europeu, que passará por uma renovação após as eleições europeias em maio de 2019.

O francês acredita que muito ainda pode ser feito até o final da legislatura atual, especialmente no que diz respeito ao orçamento do bloco. O próximo quadro financeiro plurianual pós-2020 será o primeiro após a saída da UE de um dos principais contribuintes dos cofres europeus, o Reino Unido.

Ele defendeu a criação de novos recursos próprios, em especial, um imposto digital sobre as grandes multinacionais da internet, que considera essencial para "aumentar os recursos para o próximo orçamento".

O presidente ainda defendeu um maior apoio aos refugiados, o reforço da cooperação na área da defesa e o avanço da reforma da União Econômica e Monetária (UEM), com a finalidade de "estabelecer uma capacidade orçamental que favoreça a estabilidade e a convergência na zona euro".

A volta da "verdadeira França" 

Para tal convergência, dos maiores desafios de Macron será convencer seus aliados, incluindo a Alemanha, onde os conservadores pressionam contra a concessão de maiores poderes à Bruxelas, a qual poderia prejudicar os contribuintes alemães.

A União Democrata Cristã (CDU), da chanceler federal alemã, Angela Merkel, recuou nesta segunda-feira nos planos para o aprofundamento da integração econômica na zona do euro. Na próxima semana, Macron se reunirá com Merkel em Berlim para tentar convencê-la a apoiar seus planos para o futuro do bloco.

Após a fala de Macron no Parlamento Europeu, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, alertou contra o grande foco na parceria franco-alemã como o "motor" da Europa, lembrando que após a saída do Reino Unido do bloco europeu, ainda serão 27 os Estados-membros.

Juncker, porém declarou seu entusiasmo pela forma como Macron, após derrotar os populistas  de direita nas eleições presidenciais francesas no ano passado, se esforça para colocar a UE como uma prioridade na política de seu país, após uma aparente perda de influência nos anos anteriores.

"A verdadeira França está de volta", comemorou Juncker. "A história de amanhã está sendo escrita hoje."

Macron, o novo líder da Europa


Foi ele próprio quem convenceu pessoalmente seu homólogo americano, Donald Trump, a retaliar o ataque com gás tóxico em Duma, assegurou o chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, em sua segunda grande entrevista numa semana memorável.

Com certeza ele não queria fazer o mesmo papel que seu antecessor, François Hollande, que em 2013 preparou tudo para entrar na guerra junto com os americanos – já na época o regime do presidente Bashar al-Assad aterrorizava a Síria com seus ataques com gás. No entanto, no último segundo, o então presidente Barack Obama voltou atrás. O francês se sentiu traído.

Macron conseguiu evitar essa impressão. Ele tampouco repetiu o erro de Obama, de traçar uma "linha vermelha" e depois não agir quando ela é ultrapassada.

Permanece em aberto se essa é a maneira correta para melhorar a situação na Síria, mas claro está: o presidente da França agora posa de estadista de ação, que faz o que promete. Mas também ele vai constatar que a posição de lobo-alfa da União Europeia – sobretudo em questões de guerra e paz – logo pode se tornar terrivelmente solitária.

Na declaração dos ministros do Exterior divulgada nesta segunda-feira (16/04) leem-se muitas sugestões conhecidas: acesso humanitário, cessar-fogo, solução política. Só faltou a reivindicação de uma zona de exclusão aérea. Aí se poderia dizer que os europeus retomaram todos os tópicos que já há anos estão sobre a mesa, no conflito armado da Síria.

Mas há muito tempo já está claro: isso tudo pode soar pacifista e construtivo, mas para a população da Síria não faz a menor diferença. O Ocidente fracassou, e Macron sabe disso. Contudo, ele quer no mínimo dar a impressão de que, aqui na Europa, há alguém que tenta ao menos fazer alguma coisa, e para isso se utiliza de todos os palcos disponíveis.

Além das duas entrevistas de várias horas dos últimos dias, na terça-feira Macron fará um discurso no Parlamento Europeu sobre o futuro da UE. Dois dias mais tarde ele vai se encontrar em Berlim com a chanceler federal alemã, Angela Merkel, pois não quer deixá-la de fora.

O que não é assim tão simples: o francês está tão presente, em todos os canais, que por vezes precisa se esforçar para preservar a impressão de uma estreita cooperação franco-alemã. Já foi assim durante a inusitadamente longa formação de governo em Berlim.

Porém, quando se trata de questões militares, a Alemanha já está quase automaticamente de fora. Isso vale, aliás, para a maior parte dos Estados da UE. Apesar de todos os planos de uma política interna e externa conjunta para o bloco, em termos de ataque e defesa cada país está à própria sorte. Isso ficou confirmado no pronunciamento conjunto dos ministros europeus do Exterior: o apoio aos ataques aéreos na Síria é ostensivamente contido.

É a história de sempre: a França e o Reino Unido se encarregam do trabalho sujo militar, e nenhum dos demais países possui nem a vontade nem as possibilidades técnicas para executar ofensivas aéreas como as de sábado passado. Muitos podem achar isso bom, mas não é a melhor maneira de ser levado a sério no palco internacional.

Além do impulso para agir, do carisma e dos amplos poderes, o presidente francês é um dos poucos na Europa que também dispõe da potência militar para se fazer ouvir no mundo. Não há dúvida: as ações da Alemanha são de alta importância quando se trata de questões econômicas. No conflito da Síria, porém, visto de fora, o país não tem nenhuma relevância.

Tal divisão de papéis pode funcionar para a União Europeia como um todo, mas para a estrutura interna de poder, entre Paris e Berlim, ela tem consequências. Macron mostrou que leva tremendamente a sério os próprios compromissos. Lançar mísseis é bem diferente de reivindicar um ministro europeu das Finanças.

Com essa ação, Macron deixou definitivamente de lado aquela leveza juvenil que lhe valeu a vitória eleitoral em 2017. A União Europeia e o mundo veem agora um novo presidente da França: desencantado, mais sério, mais decidido; Macron, a autoridade, o comandante supremo.

Desse modo, ele também passa a ser o chefe de governo para quem os colegas da UE primeiro voltam os olhos. Talvez não em todas as questões, mas certamente em muitas, e acima de tudo nas de política externa. Isso não traz só vantagens para Macron: um líder é alguém que muitos querem seguir, mas também atrás de quem muitos preferem se esconder.