14 de Março, 2018 - 11:10 ( Brasília )

Geopolítica

Um linha-dura à frente da diplomacia americana

Atual diretor da CIA, Mike Pompeo é homem de confiança de Trump, com quem compartilha posições em relação à política externa. Ligado ao movimento Tea Party, ele defende, por exemplo, que "waterboarding" não é tortura.

Ao optar por Mike Pompeo para a chefia do Departamento de Estado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escolheu um homem em quem confia e com quem compartilha diversas posições sobre a política externa – bem ao contrário do secretário cessante, Rex Tillerson.

Até aqui, Pompeo chefiava a CIA e costumava informar pessoalmente o presidente sobre os assuntos de inteligência. Foi assim que ele conquistou a confiança de Trump, que encontrou no subordinado uma pessoa de posições semelhantes às suas. Isso pesou na decisão anunciada nesta terça-feira (13/03).

"Com Mike Pompeo tenho uma forma de pensar similar. Ele tem uma tremenda energia, um tremendo intelecto. Sempre estamos na mesma onda", afirmou Trump, ao comentar a decisão, que fora sumariamente comunicada pelo Twitter, horas antes. "A nossa relação é realmente boa", acrescentou o presidente.

Por outro lado, Trump reconheceu ter uma "mentalidade diferente" da de Tillerson, demitido de maneira fulminante pelo presidente no mesmo tuíte que colocou Pompeo no comando da diplomacia americana. Os dois divergiram publicamente em vários temas, incluindo a maneira de lidar com a Coreia do Norte.

Um funcionário da Casa Branca disse à agência de notícias AP que Trump queria ter uma nova equipe para as iminentes negociações com a Coreia do Norte. Mas analistas afirmam que trocar o comando da diplomacia americana de uma hora para a outra, poucas semanas antes do programado encontro com o líder Kim Jong-un, envia um mau sinal aos norte-coreanos.

Risco de isolamento

Se confirmado no novo posto pelo Senado, Pompeo, de 54 anos, vai se converter na primeira pessoa a comandar a principal agência de inteligência e a ocupar o principal cargo da diplomacia americana. O chefe indicado do Departamento de Estado é um republicano ultraconservador e um "falcão" tido como extremamente leal ao presidente e que costuma defendê-lo de críticas.

Pompeo é um cético do clima, como Trump, e já defendeu várias vezes romper o acordo nuclear com o Irã, em linha com a posição do presidente. Além disso, sempre favoreceu a linha dura no tratamento com a Coreia do Norte, defendendo que fosse considerada a opção militar. Ao longo dos seus 14 meses à frente da CIA, Pompeo funcionou como um apaziguador das tumultuadas relações entre a agência e o presidente.

No novo cargo, tem como pontos a favor a confiança do presidente, sua experiência dentro da administração e também o conhecimento sobre o funcionamento do Congresso e as boas relações com alguns congressistas. Mas críticos afirmam que, com ele no lugar de Tillerson, os EUA vão se afastar ainda mais de aliados, isolando-se.

Além disso, funcionários da CIA acusam Pompeo de selecionar a inteligência que repassava a Trump, por exemplo diminuindo a importância das informações sobre a interferência da Rússia na eleição de 2016 – ou seja, dizendo ao presidente aquilo que ele gostaria de ouvir. "Pompeo foi o diretor da CIA mais político de que me lembro", afirmou um funcionário da administração americana à agência de notícias Reuters, em condição de anonimato.

Do Congresso à CIA

Pompeo estudou engenharia na Academia Militar de West Point, serviu por cinco anos como oficial do Exército e, em seguida, estudou Direito na Universidade de Harvard. Mais tarde fundou uma empresa de engenharia no Kansas, financiado pelos irmãos Koch, milionários do setor petrolífero.

Os Koch, com elevada influência no Partido Republicano, deram apoio a Pompeo nas eleições para o Congresso em 2010, e ele foi eleito para a Câmara dos Representantes pelo estado do Kansas. Pompeo logo integrou o Comitê dos Serviços de Inteligência do Senado, no qual teve acesso a segredos de Estado.

Em 2012 fez parte do comitê republicano que investigou o assassinato de um embaixador americano e de três outros compatriotas em Benghazi, na Líbia. Nesse papel, Pompeo tornou-se numa das vozes mais críticas à então candidata democrata, Hillary Clinton, na eleição presidencial de 2016, culpando-a destas mortes, ocorridas durante o seu período como secretária de Estado.

Em 2017, no início do governo Trump, foi para a CIA. O Senado o aprovou para o cargo com 66 votos a favor e 32 contra. Ele é visto como uma pessoa engajada, mas também agressiva com seus subordinados, e foi contra classificar o polêmico método waterboarding como tortura. Pompeo é também um forte apoiador do uso de ferramentas de vigilância em massa.

Demissão de Tillerson isola ainda mais os EUA


Uma demissão pelo Twitter! A forma como o presidente dos Estados Unidos demitiu seu ministro do Exterioré um tapa na cara desse antigo empresário de ponta. Foi desrespeitoso e humilhante. Há meses que se especulava quando Rex Tillerson partiria. Que tenha sido justamente agora vai prejudicar os Estados Unidos.

Como diplomata, Tillerson era inexperiente e não tinha muitos amigos dentro do próprio Departamento de Estado, mas ele conquistou respeito internacional. Suas posições moderadas e suas declarações contrárias às do presidente – por exemplo sobre a Coreia do Norte ou o Irã – costumavam irritar Trump.

Volta e meia o presidente deixa entrever que, com um "gênio" como ele na Casa Branca, os Estados Unidos nem mesmo precisam de um governo. Só as posições dele é que contam. Megalomania e ingenuidade andam de mãos dadas com esse presidente!

Com Mike Pompeo, Trump coloca um linha-dura no Departamento de Estado, alguém que é visto como agente do presidente e sua política America First. Tillerson era contra abandonar o Acordo do Clima de Paris, já Pompeo nem mesmo acredita nas mudanças climáticas. Assim como Trump.

Tillerson argumentava que era do interesse dos Estados Unidos não renunciar completamente ao acordo nuclear com o Irã. Já Pompeo preferiria romper hoje mesmo com o esse "acordo desastroso", como ele diz. Assim como Trump.

E isso pode ocorrer em breve. Recentemente o presidente reclamou que as negociações para uma revisão do acordo não avançam. Ele disse que poderá usar o próximo deadline, em maio, para transformar suas ameaças em ações. As consequências seriam devastadoras para o Oriente Médio - e também para os Estados Unidos e a Europa.

Se isso ocorrer, como a comunidade internacional pretenderá frear o programa nuclear iraniano? E que argumentos poderão ser utilizados para levar o regime norte-coreano a negociações sérias? Com a possibilidade de um acordo que, mesmo se cumprido, poderá ser cancelado a bel prazer pelo presidente americano que estiver no cargo?

Trump e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, querem se encontrar já em maio. Justamente por isso teria sido aconselhável apostar em continuidade no Departamento de Estado. Tillerson foi, desde o início, uma voz sensata na crise coreana, uma voz que se pronunciou a favor da diplomacia e contra as ameaças de guerra de Trump.

Só que Trump não é um estrategista. Ele xinga e se enfurece quando se sente encurralado por questões de política interna. E gera danos na política externa. Sua agenda isola cada vez mais os Estados Unidos e faz com que europeus e outros aliados não vejam mais os americanos como parceiros confiáveis. A demissão de Tillerson só piora isso.

Ex-empresário, novo secretário de Estado dos EUA tentou vender equipamentos à Petrobras¹


Apontado nesta terça-feira para o maior cargo da diplomacia dos Estados Unidos, o advogado Mike Pompeo tentou se aproximar do Brasil nos anos 2000, quando era presidente de uma empresa de equipamentos para exploração de petróleo. Sob a liderança de Pompeo, a Sentry International firmou contrato com uma empresa de consultoria e representação comercial de Salvador, entre 2006 e 2007, na tentativa de ganhar espaço no mercado brasileiro de exploração de óleo em terra firme.

O objetivo era fornecer equipamentos mecânicos conhecidos como "bombas cavalo de pau", usadas para realizar bombeamento mecânico de petróleo, e torres de perfuração, ambas compradas pela Petrobras e suas empresas coligadas de fornecedores terceirizados.

O brasileiro Gerson Torres Ferreira é sócio da GTF, empresa que representou os negócios de Pompeo no Brasil.

"O contato principal era o diretor comercial, mas uma vez me encontrei com Pompeo na OTC (feira internacional da indústria petroquímica), em Houston (Texas)", disse Ferreira à BBC Brasil.

"Nos apresentamos e conversamos bastante sobre oportunidades de negócio. Ele queria desenvolver as vendas da empresa por aqui."

As tentativas duraram aproximadamente um ano - período em que durou o contrato entre Pompeo e a firma brasileira -, mas não tiveram final feliz.

"Havia uma refratariedade muito grande na Petrobras para a contratação de novos fornecedores", diz Ferreira. "Tinha muito potencial, mas era muito difícil furar esse bloqueio na Petrobras."

Entre outros clientes, a GTF ainda atua como representante comercial no Brasil de um braço das Indústrias Koch, gigante do setor de energia americano.

Os donos da Koch estão entre os principais doadores do partido Republicano - inclusive da campanha de Pompeo à Câmara dos Representantes (equivalente a Câmara dos Deputados no Brasil), onde representou o Estado de Kansas entre 2011 e 2017.

Dança das cadeiras

Pompeo foi indicado por Trump como novo secretário de Estado (o equivalente ao Ministro de Relações Exteriores, no Brasil) nesta terça-feira - a nomeação ainda depende de aprovação do Senado dos EUA, que deve sabatiná-lo em abril.

Colega de Trump no partido Republicano, Pompeo faz parte do Tea Party - tradicional ala mais conservadora do partido.

Para assumir o Departamento de Estado, ele deixará sua cadeira de diretor da CIA, a agência federal de investigação dos EUA, onde está desde o início do mandato de Trump.

"Mike Pompeo, diretor da CIA, se tornará nosso novo Secretário de Estado. Ele fará um trabalho fantástico! Obrigado a Rex Tillerson por seu serviço! Gina Haspel se tornará a nova diretora da CIA e a primeira mulher à frente da agência. Parabéns a todos!", disse Trump pelo Twitter, pegando jornalistas e membros de sua equipe de surpresa.

Pompeo é descrito como aliado fiel de Trump - diferente de Rex Tillerson, recém-demitido da Departamento de Estado, com quem o presidente americano teve uma série de desentendimentos públicos nos últimos meses.

O afastamento entre Tillerson e Trump - que discordavam sobre a permanência dos EUA no Acordo de Paris e sobre o acordo nuclear feito por Obama com o Irã - ficou mais evidente na semana passada, quando Trump anunciou que aceitava se encontrar com o líder norte-coreano Kim Jong-un, para surpresa do então secretário de Estado.

Em comunicado à imprensa, nesta terça, um porta-voz do departamento de Estado disse que Tillerson não falou diretamente com Trump sobre a demissão.

"O secretário tinha intenção de permanecer por conta do intenso progresso feito na segurança nacional e em outras áreas", disse Steve Goldstein, subsecretário de diplomacia pública do Departamento de Estado. "O Secretário não conversou com o presidente e não teve conhecimento das razões.

Minutos depois do comunicado, em nova reviravolta, a administração de Trump decidiu demitir também Goldstein, que deixa a subsecretaria nesta terça-feira.

Trump comentou brevemente a relação com Mike Pompeo e Rex Tillerson em conversa com jornalistas, nesta manhã, na Casa Branca.

"Eu me dei bem com Rex, mas realmente temos uma mentalidade diferente, um pensamento diferente", disse Trump. "Quando você olha para o acordo do Irã, acho que é terrível. Acho que ele achou que estava tudo bem. Então, nós pensamos diferente. Com Mike, Mike Pompeo, temos um processo de pensamento muito parecido. Eu acho que será muito bom."

Durante o anúncio, Trump também classificou Pompeo como alguém com "tremenda energia e tremendo intelecto".

Congressista

Antes de se graduar em direito pela universidade de Harvard, em 1994, Pompeo foi oficial do exército americano.

Após quase duas décadas no setor privado, incluindo a temporada na Sentry, quando tentou negócios no Brasil, Pompeo se elegeu membro da Câmara dos Representantes (equivalente americano da Câmara dos Deputados brasileira), onde representou o estado de Kansas entre 2011 e 2017.

Na Casa, ele participou do Comitê de Energia e Comércio, com foco justamente nas áreas em que atuava durante sua temporada no mercado.

"Estou profundamente grato ao Presidente Trump por me permitir indicar como Diretor da Agência Central de Inteligência e por esta oportunidade de servir como Secretário de Estado", disse Pompeo em comunicado.

"Sua liderança tornou a América mais segura e espero representar o presidente e o povo americano frente ao resto do mundo para promover a prosperidade da América. Servir ao lado dos grandes homens e mulheres da CIA, os funcionários públicos mais dedicados e talentosos que encontrei, foi uma das grandes honras da minha vida", continuou.

Em nota enviada pela Casa Branca, Trump dosse que está "confiante de que Pompeo é a pessoa certa para o trabalho nesta conjuntura crítica".

"Ele continuará nosso programa de restauração da posição dos Estados Unidos no mundo, fortalecendo nossas alianças, confrontando nossos adversários e buscando a desnuclearização da península coreana", disse Trump.

¹com agência Thomson Reuters