15 de Setembro, 2011 - 18:00 ( Brasília )

Geopolítica

Suíça - Academia militar completa 100 anos

Para o coronel Daniel Lätsch, diretor da centenária Academia Militar (MILAK, na sigla em alemão), um exército profissional é impensável para a Suíça.

Jean-Michel Berthoud, swissinfo.ch
Adaptação: Alexander Thoele


O povo sabe que o Exército suíço é um elemento de estabilidade, não um Estado dentro do Estado, pois os soldados são ao mesmo tempo cidadãos".
 
Muitas pessoas não sabem que a Suíça dispõe de uma academia militar, apesar dela poder festejar em 2011 seus cem anos de existência.
 
Para o diretor da Academia Militar, integrada à Escola Politécnica Federal de Zurique (ETHZ), e coronel Daniel Lätsch, a razão está no fato do Exército suíço ser um exército de milícia.
 
"Do efetivo de 120 mil soldados na ativa, apenas 800 são oficiais profissionais. Isso significa que apenas uma minoria dos oficiais passa pela Academia Militar", explica.
 
"Porém entre os meios militares e de pesquisa de assuntos ligados à defesa, a Academia Militar tem seu lugar garantido. Isso, pois podemos apresentar excelentes trabalhos científicos nessas áreas e também oferecer uma formação muito próxima da prática", completa o coronel.
 
O curso de três anos, no qual a ETHZ oferece a parte ligada às ciências sociais e humanas e a MILAK a parte militar, além do estágio, permite a obtenção de um diploma acadêmico reconhecido pelo sistema europeu de ensino "Bologna". "A MILAK também tem um braço científico integrado à ETHZ e um braço militar dentro do Exército suíço", completa Lätsch.

Influência da Guerra Fria 

O Exército suíço foi influenciado durante décadas pela Guerra Fria. Apesar da posição de neutralidade do país, ele estava próximo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e mais oposto ao bloco contrário do Pacto de Varsóvia, a aliança militar formada em 14 de Maio de 1955 pelos países socialistas do Leste Europeu e pela União Soviética. Essa realidade se espelhava dentro da Academia Militar, inclusive do ponto de vista ideológico.
 
O coronel Lätsch lembra que assim como o Exército suíço, também a Academia Militar estava comprometida com a neutralidade do país. "Porém não é segredo o fato de que as forças armadas dos países da Europa do Leste durante a Guerra Fria eram vistas como uma ameaça. Nossa definição de inimigo era praticamente uma descrição das forças soviéticas."
 
Os exércitos também teriam se orientado na época para riscos e ameaças potenciais. "O foco anterior sobre os exércitos soviéticos tinha, portanto, mais a ver com ideologia do que com a ameaça."
 
Garantia de estabilidade para a paz 

Após o colapso do comunismo nos países do Bloco Oriental no final dos anos 1980, a Suíça viveu na questão das suas forças armadas uma transição no conceito da defesa nacional para manutenção da paz.
 
"A importância da defesa nacional caiu obviamente. Mas hoje as nossas forças armadas precisam estar em condições de proteger nosso país e o povo. A manutenção da paz começa aqui mesmo. Um exército capaz de garantir a estabilidade permite servir melhor às aspirações de paz", declara o diretor da MILAK.
 
Operações no exterior 

Atualmente uma das principais funções da academia é de formar oficiais profissionais para funções de liderança e formação no país e também no exterior. "Por isso eles necessitam de uma sólida formação militar científica e também de conhecimentos gerais", reforça Lätsch.
 
Dessa forma, a formação não se limita somente a um curso básico, mas se estende durante toda a carreira. As áreas de ensino vão de relações internacionais, direito constitucional, política de defesa até estratégia, sociologia militar, psicologia militar e história militar, passando também por liderança, tática e métodos de ensino.
 
"Também nos ocupamos intensamente de liderança de pessoal, desenvolvimento pessoal e gestão da diversidade. No geral oferecemos também um estudo ambicioso, que também poderiam servir a qualquer executivo ou diplomata."

Conhecimento de idiomas 

As ações de paz também são um tema tratado na MILAK, "mas que não fazem o grosso do plano letivo", diz o coronel. "Tanto nos modernos conceitos de defesa, assim como em ações de paz, os oficiais precisam  atuar em condições difíceis."
 
Essas ações exigem também um bom conhecimento de inglês e de saber lidar de forma aberta e construtiva com outras culturas. "São áreas onde atuamos também", acrescenta Lätsch.
 
Sem chances para exército profissional 

Para a academia seria possível pensar ou até preferir um exército profissional? "Um exército profissional não seria algo praticável para a Suíça", responde o coronel. "Não poderíamos engajar mais do que dez mil soldados, pois felizmente o desemprego na Suíça é muito baixo, além do fato do nível salarial e educacional ser muito alto."
 
"O sistema de exército de milícia tem a vantagem de permitir que executivos da economia privada possam trazer suas experiências de liderança ao Exército. Ao mesmo tempo, as empresas aproveitam-se da formação e experiência de liderança obtidas pelos seus executivos durante o período de serviço militar", afirma Daniel Lätsch.
 
"O Estado e o povo precisam saber que o Exército suíço é um elemento estabilizador, não um Estado dentro do Estado, pois os soldados são, ao mesmo tempo, cidadãos.