22 de Setembro, 2017 - 12:15 ( Brasília )

Geopolítica

Irã anuncia reforço de programa de mísseis

Em desfile militar, Forças Armadas iranianas apresentam míssil balístico com alcance de dois mil quilômetros. "Não precisamos da permissão de ninguém para defender a nossa pátria", diz presidente.

As Forças Armadas do Irã exibiram, nesta sexta-feira (22/09), um novo míssil balístico com um alcance de dois mil quilômetros durante um desfile militar em Teerã, apesar das advertências dos Estados Unidos contra o programa armamentista do país.

O míssil, nomeado Jorramshahr, é capaz de transportar múltiplas ogivas, de acordo com o general de brigada, Amir Ali Hajizadeh, citado pela televisão estatal. Hajizadeh, comandante da divisão aeroespacial da Guarda Revolucionária, explicou que o míssil é de "um tamanho menor e mais tático e estará operacional num futuro próximo".

Este novo avanço militar ocorre, apesar da recente imposição de Washington, em meio a várias rodadas de sanções contra entidades e indivíduos iranianos ligados ao programa de mísseis de Teerã.

O presidente iraniano, Hassan Rohani, afirmou que seu país aumentará sua capacidade militar e reforçará seus programas armamentistas, incluindo o de mísseis. "Queiram ou não, vamos reforças nossas capacidades militares, necessárias em termos de dissuasão.

Não precisamos da permissão de ninguém para defender a nossa pátria", disse Rohani, durante um desfile militar em Teerã em comemoração ao início da guerra entre Irã e Iraque, em 1980. "Vamos desenvolver os nossos mísseis e também as nossas forças aérea, terrestre e marítima."

O Irã desenvolveu um vasto programa balístico nos últimos anos, o que levou os Estados Unidos, mas também a Arábia Saudita – principal rival na região – e alguns países europeus, como França, e também Israel a manifestarem suas preocupações.

O Irã sempre defendeu que seu programa militar é apenas defensivo. A tensão entre Teerã e Washington ficou evidente nesta semana, na Assembleia Geral da ONU, na qual o presidente americano, Donald Trump, fez duras críticas contra os programas militares da República Islâmica e o acordo nuclear assinado em 2015 entre Irã e seis grandes potências mundiais.

O presidente americano chamou de vergonhoso o acordo nuclear e disse que seu governo pode abandoná-lo se suspeitar que ele "proporciona cobertura para uma eventual construção de um programa nuclear". "Francamente, esse acordo é uma vergonha para os EUA, e não acredito que os senhores tenham ouvido a minha última palavra a respeito", disse Trump, que definiu o Irã como uma "ditadura corrupta" que tenta desestabilizar o Oriente Médio.

Ele pediu ao governo em Teerã para que pare de "financiar o terrorismo". Na quarta-feira, o presidente do Irã usou seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas para rebater as críticas de Trump. "Seria uma grande pena se esse acordo [nuclear] fosse destruído por corruptos recém-chegados ao mundo político. O mundo perderia uma grande oportunidade", afirmou.

"Ao violar seus compromissos internacionais, a nova gestão americana só destrói sua própria credibilidade e mina a confiança internacional em negociar com o país ou aceitar sua palavra ou promessa", conclui Rohani.

O que Trump vê de errado no acordo com Irã?



"O pior negócio da história." É assim que o presidente dos EUA, Donald Trump, descreve o acordo nuclear do Irã, de 2015. Ele repetidamente sinalizou que os Estados Unidos vão se retirar ou revisar o pacto – uma ameaça reiterada durante o discurso de terça-feira (19/09) na Assembleia Geral da ONU.

Tanto o Departamento de Estado americano quanto a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmaram que o Irã cumpriu sua parte. Especialistas em não proliferação nuclear e outros poderes internacionais que negociaram o acordo estão pressionando a Casa Branca para que ela não mude de ideia.

Por que então o governo Trump é contra o acordo nuclear? A resposta está nas fraquezas alegadas do acordo e, igualmente importantes, em questões não relacionadas à energia nuclear, que o governo Trump agora gostaria de trazer para a mesa de negociação, como o programa de mísseis balísticos do Irã e a crescente influência da república islâmica no Oriente Médio. No âmbito do acordo de 2015 negociado entre o Irã e o P5 + 1 (EUA, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha), Teerã concordou em desmantelar seu programa nuclear em troca do fim de uma série de pesadas sanções internacionais e do descongelamento de bilhões de dólares em ativos iranianos.

Pelo acordo, o Irã tem permissão para desempenhar pequenas atividades nucleares e manter estoques de urânio para fins de pesquisa e medicina. Essas quantidades de urânio estão muito abaixo do necessário para o desenvolvimento rápido e sem aviso prévio de armas nucleares. Com efeito, ao Irã é permitido a pesquisa nuclear pacífica, assim como qualquer outro país.

Objeção: atrasa, mas não impede

À época do fechamento do acordo, agências de inteligência ocidentais estimaram que o Irã só estava a um ano de produzir uma arma nuclear.

O acordo de 2015 restringiu as atividades relacionadas ao programa nuclear do Irã por 10 a 15 anos. Depois que este período expirar, o acordo precisará ser renegociado ou o Irã teoricamente poderá reiniciar o seu programa de armas atômicas. Se o Irã escolher então produzir armas nucleares, começaria a partir de um ponto de partida mais abaixo, o que poderia dar tempo à comunidade internacional.

Mas o governo Trump acha esta "cláusula de temporização" – essencialmente a data de validade do acordo – problemática porque, em sua opinião, simplesmente atrasaria o desenvolvimento de uma bomba nuclear, em vez de impedir. As preocupações da Casa Branca reverberam a posição de Israel, que argumenta que a questão nuclear não pode ser somente adiada.

Objeção: atividade nuclear secreta?

O acordo também permite que os inspetores da AIEA monitorem as instalações nucleares declaradas, as instalações de armazenamento e as cadeias de abastecimento. No entanto, o governo Trump argumenta que o acordo nuclear não fornece acesso a instalações militares restritas que poderiam ser usadas ??para um programa de de armas secreto.

O presidente exigiu que os inspetores também tenham acesso a essas instalações, algo rejeitado pelo Irã. Os apoiadores do acordo argumentam que qualquer programa secreto seria detectado por meio das normas vigentes de monitoramento das instalações e cadeias de abastecimento existentes.

Objeção: mísseis balísticos

A redação da resolução das Nações Unidas que autoriza o acordo nuclear é vaga na questão dos mísseis balísticos. O acordo "exorta", mas não exige o fim da pesquisa "relacionada a mísseis balísticos capazes de lançar armas nucleares".

O Irã diz que seus mísseis balísticos são armas convencionais que não foram projetadas para transportar ogivas nucleares, mesmo que sejam capazes disso. Como o Irã não está buscando produzir armas nucleares, argumenta Teerã, a resolução da ONU não se aplica ao seu programa de mísseis balísticos.

Mas o governo Trump argumenta que o programa de mísseis viola a natureza do acordo e constitui uma ameaça para seus aliados árabes do Golfo e Israel. Os EUA já voltaram atrás em uma série de sanções contra o Irã, fazendo com que Teerã, por sua vez, acusasse os EUA de sabotar o espírito do acordo.

Objeção: verbas para "atividades desestabilizadoras"

O acordo nuclear fez com que uma grande parcela dos ativos internacionais do Irã – um total de 100 bilhões de dólares – fosse descongelada. O governo Trump argumenta que isso foi ruim porque o dinheiro pode ser usado para financiar as "atividades desestabilizadoras do Irã" no Oriente Médio e grupos terroristas.

As queixas dos EUA incluem ainda a hostilidade do Irã em relação a Israel, o seu envolvimento na Síria e no Iraque e o amplo apoio regional da república islâmica para vários grupos radicais xiitas, incluindo o Hisbolá no Líbano e os rebeldes Houthi no Iêmen, bem como para o Hamas na Faixa de Gaza.

Além disso, Washington e Israel estão preocupados com o fato de que a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), uma organização de segurança e militar que funciona separadamente das forças armadas regulares, e o Hisbolá estejam estabelecendo bases conjuntas no sul da Síria, nas cercanias de Israel.

Quem se opõe à visão de Trump?

Internacionalmente, a visão de Trump reflete como as monarquias árabes do Golfo e o poderoso lobby israelense nos EUA enxergam o acordo. Tanto as monarquias do Golfo quanto Israel estão preocupadas com a crescente influência do Irã no Oriente Médio.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, criticou repetidamente o acordo nuclear e pressionou o governo Trump a se retirar dele. No entanto, membros da inteligência e militares israelenses disseram que, embora o acordo não seja perfeito, o Irã não cometeu nenhuma violação. Eles também afirmaram que a saída dos EUA seria contraproducente.

Nos EUA, os críticos do acordo incluem o embaixador dos EUA na ONU, Nikki Haley, o chefe da CIA, Mike Pompeo, e o assessor de política da Casa Branca Stephen Miller. O secretário de Defesa, James Mattis, o conselheiro de segurança nacional H.R. McMaster, o chefe de gabinete da Casa Branca, John Kelly, e o secretário de Estado, Rex Tillerson, defendem que os EUA permaneçam no acordo, ao mesmo tempo adotando uma posição forte contra o Irã.

Como Trump poderia rever "o negócio"?

Trump tem até 15 de outubro para informar o Congresso dos EUA se o Irã está cumprindo sua parte do acordo nuclear. Se ele não atestar isso, o Congresso pode voltar a impor sanções, efetivamente matando o pacto de 2015. No entanto, não está claro como o Congresso controlado pelos republicanos responderia a essa questão.