07 de Setembro, 2011 - 10:04 ( Brasília )

Geopolítica

Morte de Bin Laden disparou tensão entre EUA e Paquistão


Soldados americanos mataram Osama bin Laden em maio deste ano no Paquistão, onde se escondia uma década depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, o que disparou a tensão entre os Estados Unidos e o país asiático. O inimigo público número um de Washington se escondia em uma casa da cidade de Abbottabad, a apenas três horas em carro da capital Islamabad e que abriga a principal academia de cadetes do Exército paquistanês.

Essa localização levantou imediatamente a suspeita de que o líder da Al-Qaeda contava em algum grau com cúmplices no Exército ou nos serviços secretos do Paquistão (ISI). A operação aconteceu em uma noite de lua nova, no dia 2 de maio, quando 23 Seals da Marinha americana entraram no espaço aéreo paquistanês a bordo de dois helicópteros vindos do Afeganistão, sem que fossem detectados pelos radares paquistaneses.

Os soldados chegaram a Abbottabad, desceram das aeronaves e mataram o chefe da Al-Qaeda, cujo corpo foi jogado no mar, segundo a versão oficial americana. O Exército paquistanês, humilhado por não ter sido informado da operação e por considerá-la uma violação de sua soberania, reagiu reduzindo sua cooperação antiterrorista com os EUA, que por sua vez bloqueou parte de sua ajuda militar para este país.

A morte de Bin Laden parecia abrir uma nova etapa e uma janela para o diálogo com os talibãs no Afeganistão, para o qual a participação do Paquistão é fundamental. Porém, fontes de segurança e inteligência consultadas pela Agência Efe acreditam que o Paquistão é mais reticente que nunca em colaborar com os EUA tanto no desenrolar da guerra afegã como para lidar com os grupos insurgentes nos dois lados da fronteira.

Assim se encerrou uma década na qual o Paquistão, de estado pária, foi conduzido pelo ditador Pervez Musharraf ao status de aliado imprescindível de Washington na luta contra a Al-Qaeda. A descoberta de que Bin Laden vivia tranquilamente em solo paquistanês colocou o país, no entanto, no papel de parceiro infiel, apesar de ter pagado um alto preço na luta contra o terrorismo. A casa de três andares em Abbottabad foi testemunha da busca pelo líder da Al-Qaeda, que escapou dos americanos no deserto de Tora Bora, no leste do Afeganistão, poucos meses depois dos atentados.

Em todo este tempo, o Paquistão disse ter perdido cerca de cinco mil membros das forças de segurança e cerca de 30 mil civis, seja em atentados terroristas, confrontos armados ou operações contra a insurgência talibã. "Um dos países mais afetados pelo 11 de Setembro foi o Paquistão. O extremismo e o radicalismo se multiplicaram", resumiu em declarações o tenente-general reformado Talat Massoud.

Apenas em 2010, um total de 2.913 pessoas morreu em 2.113 ataques insurgentes ou terroristas, mas o número de vítimas sobe para 10 mil se forem incluídos os combates, operações militares e ataques de aviões-espiões dos EUA. Os números são ainda mais alarmantes quando se leva em conta que, em 2006, apenas 907 pessoas morreram neste tipo de episódios violentos, segundo o Instituto do Paquistão para Estudos de Paz.

Uma das vítimas do fundamentalismo islâmico foi a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, assassinada em um atentado após um comício na cidade de Rawalpindi no dia 27 de dezembro de 2007. O então recém-formado movimento talibã paquistanês (TTP, na sigla em urdu) reivindicou o atentado, e desde então ficou na vanguarda do terrorismo, organizando ataques suicidas e ousados assaltos a instalações militares.

"Os EUA apoiaram Musharraf porque pensavam que seria bom usar o poder militar contra os insurgentes, mas foi um erro", afirmou Mahsud. O desmoronamento do regime de Musharraf (1999-2007), que em 2008 deu lugar a um governo civil liderado pelo Partido Popular (PPP) do viúvo de Benazir, Asif Ali Zardari, sob estreita vigilância do Exército, abriu a caixa de Pandora.

Os ataques suicidas, há alguns anos pouco frequentes, se multiplicaram e tiveram como alvos tanto as forças de segurança como mesquitas, locais de culto e hotéis. "A ascensão do TTP é produto da negligência paquistanesa na hora de lidar com o radicalismo, especialmente no noroeste, e também da instabilidade no Afeganistão", disse o tenente-general reformado.

Como se isso não fosse suficiente, após os anos de crescimento da era Musharraf, a economia, dependente da ajuda estrangeira, está afundando, e a inflação e a escassez de recursos energéticos afetam uma população ameaçada pela insegurança.