02 de Setembro, 2011 - 10:32 ( Brasília )

Geopolítica

Rússia e Estados Unidos exploram juntos petróleo do Ártico

A norte-americana Exxon e a russa Rosneft assinaram um acordo para explorar uma das maiores reservas intocadas de petróleo do mundo. Derretimento das geleiras devido ao aquecimento global tornou a extração possível.

Estados Unidos e Rússia se uniram para expandir a fronteira petrolífera para o Polo Norte. A gigante norte-americana Exxon e a estatal russa Rosnef assinaram um contrato para exploração de três campos de petróleo no nordeste da Rússia, que se expandem por 126 mil quilômetros quadrados – área equivalente a três vezes o estado do Rio de Janeiro.

As reservas de petróleo e gás sob o gelo do Ártico estão entre as maiores do mundo, equivalendo a 22% do potencial mundial inexplorado, segundo estimativas norte-americanas. E como a massa de gelo está diminuindo por causa do aquecimento global, os poços agora podem ser alcançados. Um negócio bilionário que nem Estados Unidos nem Rússia querem perder.

O acordo prevê um investimento inicial de 3,2 bilhões de dólares para a exploração de campos de petróleo no Mar de Kara, no Ártico, e também no Mar Negro. Mas esse é só o começo.

"Os investimentos diretos no projeto são da ordem de 300 bilhões de dólares. Se considerarmos a infraestrutura, podem chegar a 500 bilhões", anunciou o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, durante a assinatura do contrato nesta quarta-feira (31/08).

Para a Rússia, a cooperação com a Exxon não é um passo apenas importante, mas também necessário, já que a exploração de petróleo no Ártico é extremamente cara e complexa. Os campos no Mar de Kara já pertencem à Rosneft, mas os russos não têm tecnologia para perfurar os poços a 350 metros de profundidade. Os americanos fornecem o know-how e, em troca, ganham acesso a uma das últimas reservas de petróleo e gás inexploradas do mundo.

De acordo com estimativas da Rosnef, os campos no Mar de Kara, ao norte da Sibéria, têm potencial para extração de 36 bilhões de barris de petróleo. Avalia-se que a região abrigue um volume total equivalente a 110 bilhões de barris – quatro vezes mais do que as atuais reservas da Exxon em todo o mundo. As reservas do Mar Negro são estimadas em nove bilhões de barris de petróleo. As primeiras perfurações devem começar em 2015.

Ganha-ganha

O acordo agrada a russos e a americanos. "Novos horizontes estão se abrindo", disse Putin. O presidente da Exxon também se emocionou: "Com esse acordo, nossa parceria atinge um novo patamar. Ele vai criar valor substancial para ambas as empresas." Os russos ficam com a maior parte da exploração – dois terços para a Rosneft, um terço para a Exxon.

Ao fechar o acordo, a Exxon passou para trás seus concorrentes europeus. Quem negociava com os russos até então era o grupo britânico BP. Mas, devido a desentendimentos internos entre os acionistas majoritários, o negócio foi cancelado. Até o grupo anglo-holandês Shell estava em tratativas com a Rosneft.

Esta não é a primeira experiência da Exxon com a Rosneft. Desde meados dos anos 1990, a petrolífera norte-americana explora campos de petróleo com a Rosneft ao redor de Sachalin, ilha russa no Oceano Pacífico. Diferente das negociações com a BP, o contrato da Exxon com a Rosneft não prevê intercâmbio de ações.

Mesmo assim, ele envolve riscos: por enquanto, é impossível dizer ao certo quanto dinheiro será preciso investir nas águas profundas do Ártico, ou quando os investimentos serão recuperados. "Para que se tenha uma visão geral sobre as perspectivas dos campos de petróleo no Ártico serão necessários ainda de cinco a sete anos", avalia o analista do Banco Moskwy, Denis Borisow.

Falta tecnologia para lidar com catástrofes

Ambientalistas vêem a corrida para exploração de petróleo no Ártico com grande preocupação. O ecossistema do Polo Norte é especialmente vulnerável, e não existe qualquer infraestrutura para lidar com o derramamento de petróleo no gelo, de acordo com um relatório publicado pela organização ambientalista WWF.

"O WWF tem chamado a atenção repetidamente para o fato de que não existem tecnologias eficazes para combater o derramamento de petróleo em geleiras. Mas a pressa em explorar os recursos do Ártico ofusca qualquer argumento racional ou apelo para que se aprendam lições com catástrofes como a do navio Exxon Valdez (1989) ou da plataforma Deepwater Horizon (2010)", critica o chefe do programa de petróleo e gás no Ártico do WWF, Mikhail Babenko.

A organização assinou esta semana um acordo com a Rosneft e a Exxon que prevê o desenvolvimento conjunto de três locais de teste no Mar de Kara, onde as empresas terão que trabalhar sob duras condições climáticas.

FF/dw/rtr/dpa
Revisão: Roselaine Wandscheer