23 de Junho, 2017 - 10:55 ( Brasília )

Geopolítica

Países árabes exigem que Catar feche a Al Jazeera

Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos e Bahrein apresentam lista de exigências para acabar com isolamento do pequeno país árabe, incluindo fechamento da emissora de TV e redução das relações diplomáticas com Irã.

A Arábia Saudita, o Egito, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, que há algumas semanas cortaram relações com o Catar, apresentaram nesta quinta-feira (22/06) uma lista de exigências para pôr fim à crise diplomática.

Numa lista de 13 pontos – apresentada ao Catar pelo Kuwait, que está ajudando a mediar a crise – os quatro países árabes exigem o fechamento da emissora de televisão Al Jazeera e de uma base militar da Turquia no Catar, além da redução das relações diplomáticas do pequeno país árabe com o Irã.

Os quatro signatários exigem ainda que o Catar corte quaisquer contatos com a Irmandade Muçulmana e outros grupos fundamentalistas islâmicos, como o xiita Hisbolá, a Al Qaeda e o "Estado Islâmico".

Os quatro países deram dez dias para o cumprimento das exigências apresentadas, que incluem ainda uma soma não especificada em compensações. De acordo com a lista, Doha deve recusar a naturalização de cidadãos daqueles quatro países e expulsar os que se encontram no Catar.

A medida foi descrita como um esforço para impedir Doha de interferir nos assuntos internos desses países. O Catar deve ainda entregar todos os indivíduos procurados por terrorismo pelos quatro países, cortar o financiamento de qualquer movimento extremista designado como grupo terrorista pelos Estados Unidos e fornecer informações pormenorizadas sobre membros da oposição financiados por Doha, nomeadamente na Arábia Saudita.

Em 5 de junho, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos e Bahrein anunciaram o corte nas relações diplomáticas e econômicas com o Catar, que acusaram de apoiar o terrorismo, na mais grave crise regional desde a Guerra do Golfo, de 1991.

O governo do Catar ainda não reagiu à lista de exigências. Na segunda-feira, o ministro do Exterior, o xeque Mohammed bin Abdulrahman al-Thani, havia dito que seu país não negociaria com as quatro nações árabes enquanto forem mantidas as medidas contra Doha.

Ele também negou que haja apoio ao terrorismo. Se o Catar aceitar as exigências, o documento estabelece inspeções mensais no primeiro ano e por trimestre no segundo ano. Nos dez anos seguintes, o Catar será monitorado anualmente.

O ministro da defesa da Turquia, Fikri Isik, rejeitou a exigência pelo fechamento da base militar do país no Catar, afirmando que ela representaria uma interferência nas relações entre Ancara e Doha. Isik sugeriu ainda que a presença militar turca no país deve ser reforçada, considerando que seria "um avanço positivo em termos da segurança do Golfo". "A reavaliação do acordo com o Catar sobre a base não está na nossa agenda", assegurou.

Por que o pequeno Catar incomoda tanto?

O Catar é um dos menores países do mundo, com uma área de apenas 12 mil quilômetros quadrados, e também um dos mais ricos, com um PIB per capita anual de 68 mil dólares, graças às suas grandes reservas de gás e petróleo. Seu território é uma península, tendo como única fronteira terrestre a Arábia Saudita.

Uma monarquia absolutista hereditária desde a sua independência do Reino Unido, em 1971, o emirado está nas mãos da Casa de Thani, uma dinastia que ha séculos domina essa pequena região da Península Arábica. O islã é a religião oficial, e a sharia é a base da legislação nacional.

Logo após a independência, este emirado árabe passou por uma fase de grande expansão econômica devido ao gás e ao petróleo. Ainda em 1971 foi descoberto no Catar o maior campo de gás natural do mundo, o North Gas Field.

Com a riqueza do gás e do petróleo, o país atraiu milhares de trabalhadores do exterior e experimentou um vertiginoso crescimento populacional, saltando de 50 mil habitantes em 1950 para 2,5 milhões em 2016. Cerca de 90% da população do Catar é composta por estrangeiros, vindos, por exemplo, da Índia, do Paquistão ou do Egito para trabalhar na indústria do petróleo ou na construção civil. Apenas 250 mil habitantes são cidadãos cataris.

Boa parte das centenas de bilhões de dólares obtidos com as exportações de gás e petróleo foram depositadas num fundo de investimentos, o Qatar Investment Authority (QIA). O dinheiro é investido no exterior, de forma diversificada. O Qatar tem participações, por exemplo, na Porsche/Volkswagen e no Deutsche Bank.

O Catar é também o primeiro país árabe escolhido para sediar uma Copa do Mundo, a de 2022. O evento integra os esforços do governo para fortalecer o turismo na região. Além disso, a Qatar Airways se tornou uma forte concorrente das empresas aéreas europeias nos últimos anos, e o aeroporto internacional de Doha, um importante hub.

Influência diplomática

Mesmo minúsculo, o Catar desempenha um importante papel no Oriente Médio devido não só à sua riqueza, mas também por abrigar a maior base militar dos Estados Unidos na região, com mais de 10 mil militares, e por ser a sede da emissora de televisão Al Jazeera, de enorme influência no mundo árabe, principalmente com seu canal em árabe.

As grandes potências sunitas da região, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, acusam o Catar de apoiar grupos como a Irmandade Muçulmana e o Hamas, classificados por elas de terroristas, e de manter estreitas relações com o Irã, a grande potência xiita e arquirrival da Arábia Saudita na disputa pela hegemonia regional.

De fato, o Catar é um dos principais financiadores da Faixa de Gaza, governada pelo Hamas, e abriga um dos líderes do grupo no exílio, Khalid Meshal, desde 2012.

A Al Jazeera tem sido frequentemente acusada por outros países árabes de ingerência em assuntos internos e de apoiar grupos islamistas, como a Irmandade Muçulmana no Egito, principalmente durante a chamada Primavera Árabe.

Já da base de Al-Udayd partem os voos americanos que atacam postos do grupo jihadista "Estado Islâmico" na Síria e no Iraque. A base é um dos principais trunfos diplomáticos do Catar.