25 de Agosto, 2011 - 09:58 ( Brasília )

Geopolítica

Fenômeno El Niño duplica risco de guerra civil, diz estudo


O fenômeno climático El Niño, que espalha ar seco e quente pelo planeta a cada quatro anos, em média, duplica o risco de guerras civis em 90 países tropicais, disseram pesquisadores nesta quarta-feira.

E como os padrões do El Niño podem ser previstos com até dois anos de antecedência, os cientistas sugeriram que suas descobertas poderiam ser usadas para ajudar na preparação para alguns conflitos e crises humanitárias causados por essa alteração no clima.

Historiadores e especialistas no assunto observaram sinais de que mudanças no clima foram a causa de conflitos e do declínio de sociedades no passado, mas este é o primeiro estudo a quantificar a ligação entre o calor do El Niño, as secas que provoca e levantes em países mais afetados por ele.

Cientistas disseram à revista Nature que entre 1950 e 2004 um de cada cinco conflitos civis foram influenciados pelo El Niño.

O fenômeno começa como uma grande extensão de água quente na parte tropical do Pacífico e influencia o clima mundial e o tempo na África, Oriente Médio, Índia, Sudeste da Ásia, Austrália e Américas.

Segundo um dos autores do estudo, Kyle Meng, da Universidade de Columbia, nos EUA, o fenômeno pode causar grandes perdas nas lavouras e o aumento de desastres naturais, como furacões, e da disseminação de doenças infecciosas.

"Esses fatos podem resultar em aumento na desigualdade de renda... e efeitos no mercado de trabalho", disse Meng, em contato telefônico. "Isso provoca crescente desemprego, o que torna um pouco mais atraentes as oportunidades de combater."

Normalmente também fica mais difícil para os governos imporem a lei durante graves problemas climáticos, disse ele. Os pesquisadores constataram notável relação entre os padrões do El Niño e agitações civis no Peru, em 1982, e no Sudão, em 1963, 1976 e 1983.

Entre outros países onde se verificou forte conexão entre violência e El Niño estão El Salvador, Filipinas e Uganda, em 1972; Angola, Haiti e Mianmar em 1991; e Congo, Eritreia e Ruanda em 1997.

Os pesquisadores tomaram como referência guerras civis porque depois de 1950 elas representaram de 80 a 90 por cento de todos os conflitos.

Cerca de 40 por cento dos conflitos registrados iriam provavelmente ocorrer de qualquer maneira, mas os rigores do El Niño tornaram mais provável a irrupção de violência e, algumas vezes, fizeram com que emergisse mais cedo. Os países mais pobres foram os mais propensos aos problemas.

Os cientistas fizeram correlações entre os padrões do El Niño de 1950 a 2004 e confrontos civis que mataram mais de 25 pessoas em determinados anos, num total de 175 países e 234 conflitos, dos quais metade causaram mais de mil mortes.

Nações com o clima afetado pelo ciclo do El Niño tiveram 6 por cento de probabilidade de guerra civil quando o clima se tornava seco e quente. Quando o fenômeno mais frio e úmido do fenômeno La Niña prevalecia, o porcentual de risco caía pela metade (3%), disseram os cientistas.