16 de Setembro, 2016 - 11:00 ( Brasília )

Geopolítica

Clima de discórdia paira sobre cúpula da União Europeia

No primeiro encontro de líderes europeus após a votação que decidiu pelo Brexit, a saída do Reino Unido do bloco, falta consenso em relação a temas como refugiados e políticas econômicas.

O primeiro encontro de líderes da União Europeia (UE) após o referendo sobre o Brexit – no qual eleitores britânicos decidiram pela saída do Reino Unido do bloco – é realizado em Bratislava nesta sexta-feira (16/09). O objetivo é definir um novo senso de direção para a UE, mas a falta de consenso e união entre os chefes de Estado e de governo preocupa.

Antes da reunião, o presidente da Comissão Europeia, Donald Tusk, anunciou que apresentará uma iniciativa chamada "roteiro de Bratislava". Esta deve traçar um caminho para tirar a UE da estagnação, o que dá a entender que Tusk se preparou para um clima não muito amigável durante a cúpula.

A chanceler federal alemã, Angela Merkel, afirmou que a Europa vive um momento crucial. Após uma reunião preparatória nesta quinta-feira com o presidente francês, François Hollande, os dois líderes fizeram um apelo aos demais para que adotem um "plano realista" para o futuro da UE, que reflita as "preocupações, esperanças e desejos" do bloco.

Merkel pediu aos Estados-membros que trabalhem com maior rapidez e eficiência – o que também se aplica à Alemanha e à França. Os dois países concordam em alguns temas, como uma estratégia para a crise na Ucrânia. Mas, não há muito consenso entre as duas nações em diversas questões.

A chanceler tenta levar adiante projetos concretos para mostrar aos cidadãos europeus os benefícios da UE. Ela quer melhorar a cooperação entre os governos, cortar gastos e dinamizar estratégias europeias de defesa.

"Temos que demonstrar com nossas ações que podemos ser melhores", disse Merkel. Ela ressaltou que os líderes devem se esforçar para obter progressos "nas áreas de segurança interna e externa, na luta contra o terrorismo e no campo da defesa", além das questões referentes ao crescimento econômico e à criação de empregos.

"Contrarrevolução cultural"

No entanto, as visitas recentes da líder alemã a países do Leste Europeu demonstraram que será difícil obter o apoio desses Estados em algumas questões. O tema dos refugiados, em especial, continua a enfrentar forte resistência dos governos da região, que não demonstram sinais de solidariedade diante do problema.

Polônia, República Tcheca, Eslováquia e Hungria – nações que integram o chamado grupo Visegrad – irão à Bratislava com sua própria estratégia de "contrarrevolução cultural" para a Europa. Eles se opõem fortemente à imigração de países muçulmanos e veem o cristianismo como o único conjunto de valores comuns na UE.

Um dos protagonistas dessa iniciativa é o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, que juntamente com sua homóloga polonesa, Beata Szydlo, defende maior autonomia aos governos dos países membros da UE.

Varsóvia deverá defender em Bratislava mudanças em leis e regulamentações europeias, ao mesmo tempo em que visa assegurar que os pagamentos de Bruxelas continuem a fluir para os cofres dos países do leste.

Até mesmo a Grécia – que recebeu injeções de capital da UE para lidar com a crise econômica que devastou o país durante anos – convocou os países do Mediterrâneo a se unirem contra Bruxelas, na esperança de ganhar a adesão de Itália, Portugal e Espanha nos questionamentos ao pacto de estabilidade financeira.

Brexit como tema onipresente

O grande ausente da cúpula em Bratislava será o Reino Unido. A primeira-ministra britânica, Theresa May, não foi convidada para a reunião, mas o tema do Brexit estará onipresente durante todo o encontro. Tusk disse que iria analisar friamente as razões por trás do Brexit.

O resultado do referendo no qual os eleitores britânicos optaram pela saída do país da UE, no último dia 23 de junho, gerou uma crise no continente. Mas enquanto Londres não acionar o Artigo 50 do Tratado de Lisboa – que inicia o processo de negociação de dois anos sobre os termos da saída do país do bloco europeu – ainda permanecerão diversas incertezas sobre o futuro da União.

Merkel e Hollande pedem "plano realista" para futuro da UE

A chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente da França, François Hollande, fizeram um apelo aos líderes europeus nesta quinta-feira (15/09) para que adotem um "plano realista" para a União Europeia (UE), que reflita as "preocupações, esperanças e desejos" do bloco.

Merkel e Hollande se reuniram em Paris nesta quinta-feira, um dia antes do encontro entre 27 líderes da UE em Bratislava, sem o Reino Unido, com o objetivo de delinear o futuro do bloco após o Brexit.

Em pronunciamento à imprensa ao lado da chanceler alemã, o presidente francês afirmou que a decisão dos britânicos de deixar a União Europeia inflamou uma crise que ameaça a própria existência do bloco, e destacou a importância de se estabelecer um calendário e um roteiro para as reformas.

"Queremos, em Bratislava, dar aos europeus uma visão clara do seu futuro", disse Hollande. "A Europa se encontra num momento decisivo. Agora se trata de implementar uma ordem de trabalhos que deixe claro que estamos determinados a reagir juntos a essas fraquezas", reforçou Merkel.

Os dois líderes concordaram que a reunião desta sexta-feira na capital eslovaca deve se concentrar em três pontos-chave. "A primeira prioridade é a segurança", afirmou o presidente francês, destacando a defesa nas fronteiras contra ameaças externas. "Precisamos proteger os europeus."

Após uma série de atentados terroristas contra a Europa nos últimos meses, Alemanha e França já haviam anunciado a intenção conjunta de reforçar o papel militar na UE, criando, por exemplo, um quartel-general para as missões do bloco.

A segunda prioridade, segundo os líderes, é apostar nas novas tecnologias e na transição energética como fontes de crescimento econômico e de emprego. "Necessitamos de uma agenda clara para a transição digital", disse Merkel, destacando que, até 2020, "redes wi-fi devem estar disponíveis em todos os lugares".

Por fim, o terceiro ponto-chave elencado é trabalhar para dar esperanças de futuro à população, em particular, aos jovens. "É preciso haver promessas de emprego e prosperidade à juventude", frisou a chanceler.