04 de Agosto, 2011 - 10:22 ( Brasília )

Geopolítica

Após 6 meses, ‘Primavera Árabe’ vive de violência e incertezas


Mais de seis meses após seu início, a “Primavera Árabe”, onda de levantes populares que começou na Tunísia e se espalhou por vários países da região, se encontra em um impasse de violência, mortes, frustrações e dúvidas quanto a mudanças práticas.

No início do ano, com as atenções da mídia internacional voltadas para o fenômeno, os protestos eram vistos como uma onda pacífica de mudanças rumo a reformas, democracia e destituição de governos no poder havia décadas.

Transformações aconteceram na Tunísia e Egito, onde os presidentes desses países renunciaram devido às pressões populares.

Mas a Líbia passa por uma guerra civil, enquanto que as manifestações na Síria e Iêmen são reprimidas com extrema violência e não há sinais de que os governantes vão renunciar.

Já no Bahrein, as manifestações pró-democracia foram reprimidas e extintas pelo governo, e ativistas e membros da oposição foram presos.

“Em pleno verão no Oriente Médio, a Primavera Árabe gera apenas dúvidas e suspeitas. Ninguém sabe o que realmente vai produzir, nem mesmo na Tunísia e no Egito, onde houve relativas mudanças e sucesso em tirar do poder os ditadores”, diz o analista Rami Khoury, diretor do Instituto Fares, da Universidade Americana de Beirute.

Segundo ele, as mudanças acontecem de forma lenta e passarão por “diversas fases de correções”. “É difícil prever um futuro para a região, mas cada país terá uma realidade diferente, desafios e resultados diferentes”, completou Khoury.

Leia nos anexos uma compilação da situação em cada um dos principais países que foram palco dos protestos populares da Primavera Árabe.

Tunísia

A Primavera Árabe começou neste pequeno país do norte da África. Descontentamentos da classe média e pobre com desemprego, corrupção, pobreza e falta de liberdades políticas levou a levantes populares contra o então presidente Zine El Abidine Ben Ali, que estava no poder havia 23 anos.

Após a renúncia de Ben Ali, no dia 14 de janeiro, um governo provisório foi nomeado e uma série de reformas políticas e econômicas anunciadas, incluindo eleições para uma Assembléia Constituinte para julho deste ano.

Mas o governo adiou o pleito para outubro, alegando a necessidade de mais tempo para organizar a votação e a necessidade de um maior diálogo nacional.

Jornais árabes falam que, de todos os outros países em processo de mudanças, a Tunísia é o que vem levando sua revolução de forma mais coesa, com uma variedade de partidos com ideologias diversificadas atuando sem conflitos extremos, incluindo liberais seculares e islamistas.

Mas as reformas econômicas têm sido lentas, de acordo com jornais tunisianos, e a população reclama da demora no julgamento de pessoas ligadas ao antigo regime, embora Ben Ali tenha sido julgado à revelia.

Junto a isso, os grupos sociais mais secularizados começam a temer a força cada vez maior dos partidos de ideologia mais islamista, gerando dúvidas quanto ao futuro do secularismo no país.

Egito

Foram 18 dias de protestos inspirados na revolução na Tunísia, e ao menos 850 mortos, após forças de segurança abrirem fogo contra manifestações pacíficas nas ruas da capital, Cairo, e outras cidades do país considerado o mais importante e influente do mundo árabe.

A pressão popular e interna entre os militares obrigou o presidente Hosni Mubarak a renunciar, encerrando 30 anos no poder. O Egito é governando por um governo provisório liderado por um conselho militar das Forças Armadas.

Mas a euforia por mudanças deu lugar a divergências sobre o caminho a seguir sobre reformas entre os diversos grupos políticos e movimentos que se uniram nos protestos em massa contra Mubarak.

Reformas vêm sendo supervisionadas pelos militares, entre elas um referendo polêmico que foi aprovado pela população prevendo emendas à atual Constituição e eleições para uma Assembléia Constituinte, que deverá elaborar uma nova Carta a ser aprovada também por um referendo.

Grupos de jovens ativistas, que lideraram os protestos, se mostram receosos e frustrados com a lentidão das reformas e do julgamento de membros do antigo regime e com o poder dos partidos islâmicos, cuja agenda política gera desconfianças dos seculares.

Mesmo com o julgamento do ex-presidente Mubarak, que teve início nesta quarta-feira, a população começa a desconfiar dos militares, até então respeitados pela maioria dos egípcios, e temem que reformas econômicas e políticas só acontecerão para atender as elites e manter os privilégios dos militares.

“Além de tudo isso, temos também uma luta de grupos variados, de islamistas a seculares, de feministas a jovens liberais. As tensões vêm aumentando e ninguém sabe aonde o Egito vai parar”, disse Paul Salem, diretor do Centro Carnegie para o Oriente Médio em Beirute, e que esteve recentemente no Egito para um conferência sobre o futuro eleitoral do país.

Segundo ele, os recentes conflitos religiosos entre muçulmanos e cristãos coptas no país só elevaram o medo de seculares.

“Qualquer sucesso da experiência democrática no mundo árabe passa pelo Egito. Se fracassar neste país, aumentam as chances de fracasso nos outros países da região”, salientou Salem.

Líbia

Em poucas semanas, a população Líbia tomou as ruas e exigiu reformas e a queda do líder Muamar Khadafi, que desde 1969 está no comando do país. Em uma questão de dias, cidades do leste e do oeste foram tomadas pelos manifestantes.

Renúncias de políticos locais e comandantes militares, antes aliados de Khadafi, deram um fôlego para a oposição. Alguns embaixadores líbios no exterior também anunciaram que estavam se juntando à “vontade popular”, deixando a impressão de que Khadafi não resistiria às forças das ruas.

Mas logo a resistência do líder líbio mostrou-se maior do que se imaginava. Com a maioria das Forças Armadas ao seu lado, o governo em Trípoli iniciou uma campanha militar contra grupos armados da oposição, que na mídia internacional já eram chamados de “rebeldes”.

Nem mesmo bombardeios aéreos da Otan, embora tenham enfraquecido a máquina de guerra de Khadafi, contribuíram para encerrar a guerra civil que já dura mais de cinco meses e deixou milhares de mortos e feridos na Líbia.

Analistas no Oriente Médio são unânimes em apontar o fator militar como determinante para o resultado diferente de Tunísia e Egito. Segundo eles, os militares tunisianos e egípcios, obrigados ou não, escolheram o caminho de reformas e ficaram ao lado de suas populações, já que ostentavam seu respeito e admiração.

Mas no caso da Líbia, os militares são uma extensão do regime e de Khadafi, que possui ainda uma extensa rede de milícias e esquadrões da morte que solidificavam seu poder e reprimia qualquer dissidência.

Essas milícias são comandadas por pessoas leais aos valores do regime, geralmente da mesma tribo ou do mesmo clã de Khadafi, sem qualquer comprometimento com a sociedade líbia ou o Estado.

Segundo colunistas árabes, é verdade que os rebeldes estão hoje mais bem organizados do que há cinco meses, e já fizeram vários ganhos territoriais depois de quase serem derrotados no campo de batalha, mas é arriscado dizer se ainda conseguirão derrubar o regime de Khadafi.

Síria

Protestos na Síria começaram em março de forma discreta, mas ganharam força após o governo reprimir a população usando o exército e prender milhares de pessoas através da polícia secreta.

Havia ceticismo quanto à capacidade de mobilização dos sírios, mas cidades foram aderindo às manifestações contra o presidente Bashar al-Assad, que há 10 anos comanda o país depois de suceder seu pai, Hafez al-Assad, que liderou a Síria com mão de ferro durante mais de 30 anos.

A crise na Síria levou milhares de pessoas a deixar o país na condição de refugiados na Turquia e no Líbano. Ao menos 1.500 pessoas já morreram depois que o governo enviou tanques e soldados para acabar com os protestos em diversas cidades.

Segundo analistas, a situação na Síria chegou a um impasse para ambos os lados –, governo e população estão firmes em suas decisões de não ceder ao outro lado. Enquanto os protestos vêm aumentando e ganhando adesões de cidades a cada episódio de repressão, o governo faz questão de mostrar sua força e enviar mais tropas para coibir e acabar com dissidências.

No último domingo, na cidade de Hama, ao menos 150 pessoas morreram depois de uma ofensiva militar das tropas do governo contra a cidade. O ataque gerou ainda mais protestos e a condenação internacional das potências ocidentais, incluindo uma reunIão do Conselho de Segurança da ONU.

Analistas, no entanto, não enxergam uma resolução do impasse no país, e alertam que essa situação pode durar meses, paralisando a já combalida economia da Síria e levando a um aumento da violência, que poderia fugir ao controle.

Iêmem

O Iêmen também é palco de um levante popular para tirar do poder o presidente Ali Abdullah Saleh, no cargo há 30 anos. Mas diferentemente de outros países árabes que passam por revoluções, o Iêmen tem o agravante de ter grupos militantes armados e a presença da Al Qaeda em seu território.

“Isso por si só já deixa o país em uma situação extremamente instável e delicada, com movimentos populares pedindo reformas e grupos extremistas e terroristas podendo se valer de um eventual vácuo no poder para ter ganhos e aumento de sua presença”, disse o analista independente iemenita Muhamad Ali Sultan.

Uma proposta de países do Golfo Pérsico para a saída de Saleh e uma transição de poder não foi aceita pelo governo. Os protestos aumentaram e a violência já deixou centenas de mortos, segundo grupos de defesa dos direitos humanos.

Além do levante popular, o governo enfrenta grupos armados no interior do país, que é visto por observadores estrangeiros como um candidato forte a se transformar em uma nova Somália, um Estado falho e sem leis.

“A comunidade internacional está com os olhos voltados para a Líbia e para a Síria, enquanto que o Iêmen passa por um impasse sem esperança de uma resolução a curto e médio prazo”, disse Sultan.

Bahrein

O pequeno país no Golfo Pérsico possui uma população majoritariamente xiita (cerca de 70%), mas é controlado pela família real sunita Al Khalifa. Os protestos pró-democracia tiveram a adesão de sunitas também, mas o governo acusou a oposição de realizar um levante xiita que visava um golpe à monarquia.

Após a morte de alguns manifestantes, o governo se desculpou coma população e prometeu reformas. Mas a população continuou nas ruas exigindo amplas mudanças no país e maior direito de participação na política.

Sem conseguir reprimir as manifestações, o governo recorreu à ajuda da Arábia Saudita, que enviou tropas para restabelecer a ordem e reprimir os protestos. Vários integrantes de partidos políticos de oposição e ativistas pró-democracia foram presos acusados de “conspirar contra o governo”.

Segundo analistas, os movimentos pró-democracia no Bahrein foram dominados e não há a perspectiva de um retorno aos protestos como acontece nos outros países árabes. Ainda de acordo com eles, a Arábia Saudita, receosa de que mudanças em países vizinhos possam alimentar movimentos em seu território, não permitirá uma volta de protestos no Bahrein.