02 de Agosto, 2015 - 15:20 ( Brasília )

Geopolítica

Brasil - Grande estratégia e política externa


Diego Bonomo

 
Todo país precisa de uma grande estratégia, em particular aquele que é ou tem vocação para tomar-se potência. Essa estratégia reflete os interesses de longo prazo da nação, independe do governo no poder e expressa a visão geopolítica do país. Nesse contexto, a política extrema é a execução da estratégia por meio da perseguição a dois objetivos: assegurar a existência e autonomia do Estado e ampliar o seu poder e influência na ordem internacional.
 
No caso do Brasil não é diferente. O País, por sua geografia, economia, cultura e valores, possui, à exceção do poder militar, os principais elementos para tornar-se uma grande potência. No entanto, falta ao Brasil uma grande estratégia e, como consequência, uma política externa que transcenda governos e disputas partidárias. Hoje, a política internacional brasileira está amparada em pelo menos duas premissas que são implícitas e pouco discutidas. Cabe analisá-las para debater qual estratégia é a melhor para o País.
 
A primeira premissa é que a área de influência "natural" do Brasil é a América do Sul e que, portanto, o País deve buscar tornar-se líder ou poder inconteste na região. Em alguns casos, essa premissa abrange toda a América Latina (e, portanto, a América Central, o Caribe e o México), e, em outros, até o Atlântico Sul e a costa ocidental da África.
 
Essa premissa é válida, sobretudo, em razão da geografia brasileira. A questão, no entanto, é que não há clareza sobre a forma e a substância da política extrema para a região. Como consequência, o País oscila. Centra as suas ações em eliminar a influência dos Estados Unidos; mas ignora ou se descuida dos efeitos da geopolítica da China no continente.

Do mesmo modo, ora age com base em cálculos de poder em relação aos vizinhos, ora com base em valores. Por fim, em alguns casos faz uso de sua condição de potência para impor sua vontade, mas, em outros, aceita com "paciência estratégica" a imposição das vontades dos vizinhos.
 
A segunda premissa é que um mundo multipolar, no qual os Estados Unidos não sejam a "nação indispensável", é melhor para o Brasil do que um mundo com outro arranjo de poder. A consequência dessa premissa é que interessa ao País unir-se a outras potências, como os Brics, que buscam modificar a ordem internacional vigente.
 
Essa premissa é válida do ponto de vista do passado, em razão das limitações que o poder americano impôs, historicamente, ao Brasil. No entanto, sua validade futura não é certa. O problema dessa premissa é que ela assume que um mundo multipolar com centros de poder como a China e a Rússia é mais estável do que o mundo de hoje, um híbrido que conta com diversos polos de poder econômico, mas com o inquestionável poder militar dos Estados Unidos.

Além disso, ela também assume que a transição da ordem atual para a ordem
desejada será feita de forma gradual, por meio da reforma das instituições internacionais — o que é, no mínimo, uma aposta arriscada, já que os últimos cinco séculos mostram que quase toda transição de ordem resulta em guerras e desorganização econômica.

Por fim, ela parece ignorar o fato de que o Brasil é um País Ocidental, democrático e majoritariamente cristão e que, portanto, seus valores não serão compatíveis com uma ordem internacional que reflita os valores de governos e sociedades autoritárias, por exemplo.
 
Diante dessa realidade, falta um debate consistente sobre a grande estratégia brasileira. Parece natural que a política externa seja objeto de diferentes visões e de disputa partidária, mas a ausência de discussão até no interior do seu establishment é um alerta.
 
Já é hora de o Brasil assumir a responsabilidade de buscar uma política internacional consistente e que abarque a realidade de um mundo mais instável, no campo político, e mais competitivo, no campo econômico. O futuro da inserção brasileira depende da realização dessa tarefa.