01 de Junho, 2015 - 11:05 ( Brasília )

Geopolítica

Le Monde e Libération analisam política externa de François Hollande


Os jornais deste sábado (30) trazem abordagens variadas dos principais assuntos do dia. Se olharmos as capas do Libération e do vespertino Le Monde, podemos imaginar que os dois analisam profundamente as três vendas relâmpago de caças Rafale que o Eliseu realizou nos últimos meses, para Egito, Qatar e Índia.

As fotos têm os mesmos personagens, mas em contextos diferentes, que dão o tom preciso das matérias que trazem os diários. Enquanto na capa do Libé, o presidente francês François Hollande e o emir do Qatar, Tamim Al-Thani, aparecem ao ar livre, olhando do alto a bela paisagem de Dubai, na do Monde, os dois conversam fora de foco, ao fundo. No primeiro plano, estão os ministros da Defesa dos dois países.

Le Monde traz um texto longo, com uma análise detalhada dos bastidores das vendas dos caças, que estavam "encalhados", depois que falhou a negociação com o Brasil. De acordo com o vespertino, houve dois grandes responsáveis por tirar os Rafale da prateleira: o primeiro foi o presidente do Egito, o marechal Abdel Fatah Al-Sissi, que negociou pessoalmente os preços dos aparelhos - fechado em 5 bilhões de euros por 24 aviões e uma fragata. Al-Sissi convocou os fabricantes franceses para bater o martelo da mais rápida venda de armamentos da história da França. Isso acelerou também a negociação com os qataris, que já se arrastava por 14 anos.

Graças a Obama

O outro responsável, como ironiza um alto diplomata ouvido pelo jornal, foi Barack Obama. Em 31 de agosto de 2013, Washington e Paris orquestravam um bombardeio conjunto contra instalações químicas de Bashar al-Assad na Síria. Mas, o presidente americano desistiu do ataque na última hora, enfraquecendo a posição americana frente aos aliados do Golfo pérsico.

Os Rafale já haviam sido testados com sucesso na Líbia, em 2011, e no Mali, em 2013 - onde seis mísseis atingiram seis alvos simultaneamente. Somado a isso o fato de os americanos trazerem na bagagem o já ultrapassado F-15, tudo conspirou para desencalhar o Rafale.

Hiper-pragmatismo

O tom do Libération é menos ufanista. Em editorial, o diário progressista se pergunta: o que aconteceu com a diplomacia de esquerda? Se manter uma política externa de esquerda é "priorizar os direitos humanos, ser intransigente quanto à venda de armas a ditaduras e se orientar pela ajuda aos países em desenvolvimento, François Hollande não faz uma política externa de esquerda".

De acordo com o jornal, o presidente francês é ultrapragmático e dirige uma política oportunista. "Há Rafales para vender e portanto empregos para criar e manter? Ele topa, tanto faz a natureza do regime comprador". O jornal lembra ainda que o Eliseu passou perto de se abster na aceitação da Palestina como Estado observador da ONU, uma postura que fez aumentarem as críticas de que Washington teria a França numa coleira.

O jornal usa o exemplo sueco para rechaçar os argumentos de que o mundo é hoje multifacetado demais para que se possa ter uma política internacional de esquerda. A ministra das Relações Exteriores, Margot Wallström, escolheu o feminismo como linha de atuação e igualdade como o parâmetro básico para as relações diplomáticas. Uma postura que fez Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes chamarem de volta seus embaixadores em Estocolmo. Todos já voltaram à capital sueca.