20 de Março, 2015 - 09:30 ( Brasília )

Geopolítica

OTAN na mira da Rússia em exercícios militares

Manobras surpresa mandam recado à aliança do Atlântico Norte e testam a capacidade real das forças russas

Texto do Stratfor

Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel

Resumo

A série mais recente de exercícios militares realizados pela Rússia tomou uma postura cada vez mais ameaçadora. Ainda que não sejam as maiores manobras já conduzidas, as áreas parecem ter sido escolhidas deliberadamente para mandar um recado à OTAN: as atividades em si parecem simular um confronto amplo e total com a Organização através do emprego de submarinos nucleares de ataque em posições avançadas, mísseis balísticos e bombardeiros estratégicos. Armamentos estratégicos, incluíndo itens do arsenal nuclear russo, foram deslocados para locais próximos às fronteiras com nações da OTAN.

Análise

Segundo delcarações oficiais do governo russo, as manobras surpresa – que não foram anunciadas até começarem no dia 16 de março, durarão cinco dias e envolverão cerca de 45 mil combatentes e 3 mil veículos, mais de 40 navios de superfície, 15 submarinos e 110 aeronaves. O armamento envolvido que mais desperta atenção são os mísseis balísticos móveis Iskander e os aviões de caça deslocados para Kaliningrado. Bombardeiros de longo alcance Tu-22M3 foram deslocados para a Crimeia, e submarinos com ICBMs foram lançados ao mar com escoltas.

O comunicado inicial acerca das manobras enfatizava no papel da Frota do Norte da Marinha russa, afirmando que o propósito das atividades era testar o tempo de deslocamento nas posições em Novaya Zemlya e terra de Franz Josef. A Rússia já reforçou sua presença militar na região do Ártico. Essa parte dos exercícios parece se desenrolar de forma objetiva: forças do país estão sendo transportadas por aviões até as bases no Ártico e diversos exercícios navais estão acontecendo, incluíndo operações antissubmarino e procedimentos de contraminagem que normalmente antecedem as incursões surpresa de submarinos de ataque em situações de conflito.

Ações falam mais que palavras

Porém, apesar de Moscou ter dado mais foco às operações na região polar, as atividades se expandiram até a fronteira com a Finlândia, além do envio de armamentos estratégicos para Kaliningrado e para a Crimeira, posicionamentos das Frotas do Báltico e Mar Negro, e atividades nos distritos militares no oeste e sul do território. Essa combinação eleva os exercícios de um simples deslocamento de forças terrestres e manobras navais no Ártico para uma narrativa atômica.

O deslocamento avançado dos Iskander e dos bombardeiros são indicadores provocativos de uma possível ação preemptiva contra a OTAN no Leste Europeu. Dados os desdobramentos militares da Ucrânia, a possibilidade, por menor que seja, de que o país expanda a área de operações não pode ser descartada. Por isso, e por Moscou ter concebido essas manobras para simular uma guerra com a Europa, as ações geraram desconforto no continente.

Ao empregar os Tu-22M3, a Rússia também invocou abertamente a ameaça de confronto nuclear. Considerando as declarações de Moscou sobre o possível uso de armas atômicas na Crimeia, o país está claramente conectando a crise ucraniana e suas intensões no Ártico aos agentes nucleares de dissuação em seu arsenal.

Extensão geográfica é o fator novidade

A vastidão geográfica das atividades russas vai contra o padrão de outros exercícios surpresa conduzidos pela Rússia. Além de colocar as forças do país nas mesmas regiões em que a OTAN vem realizando suas próprias manobras, incluíndo os Balcãs, e próximo à Romênia e à Hungria. As ações mais notáveis da Organização foram conduzidas sob liderança dos Estados Unidos. A operação Atlantic Resolve, que teve a rotação de um contingente do Exército americano do tamanho de uma brigada, além da chegada de blindados e helicópteros para apoiar o desembarque das tropas. Moscou também percebeu o aumento dos voos de vigilância americanos sobre os Bálcãs e reforço no controle de espaço aéreo que a OTAN já exercia na região.

Exercícios que mobilizam contingents russos das Frotas do Norte, Báltico e Mar Negro, além das zonas oeste e sul do país são notáveis. Moscou já realizou ações maiores nopassado. Porém, elas costumavam se concentrar em um distrito militar ou frota específica, ou combinação de unidades militares próximas. Orquestrar essa única ação em uma área que vai da Noruega aos Bálcãs passando pela Polônia e chegando à Crimeia é um recado claramente direcionado à OTAN e seus membros no Leste Europeu.

Considerando as tensões militares cercando a crise ucraniana e o frágil cessar-fogo, as manobras das forças russas são um sinal agressivo, em especial porque acontecem logo após o sumiço de Vladimir Putin na semana passada.  Moscou tem interesse em exibir sua força para lembrar a todos do quanto pode causar tumulto e dissuadir qualquer adversário de atitudes radicais em relação à Ucrânia. Os Estados Unidos vem sendo cautelosos com Kiev, chegando até mesmo a atrasar o envio de 300 soldados para o oeste do país como parte de um exercício militar. Porém, os EUA mantém que as tropas serão enviadas mesmo assim, no começo de abril.

Além de Kiev em particular a Rússia também está reagindo militar à dinâmica das manobras no Leste Europeu em geral, onde a crise ucraniana repercutiu. Um aumento geral no ritmo das atividades militares russas (tanto em termos de voos estratégicos de longo alcance quanto manobras de larga escala). Os resultados foram aumento na presença da OTAN e mais atividades no leste da Europa – um cabo de guerra com demonstrações de força que lembram a época da Guerra Fria.

Nesse contexto, os exercícios militares conduzidos pela Rússia este mês representam uma ameaça às forças opositoras, demonstram capacidades e deixam claras quais as intenções de Moscou. As atividades também são um elemento importante para as Forças Armadas do país. Para manter a prontidão, realizar efetivamente operações e deslocamentos através dessas manobras é fundamental. Além disso, os estrategistas russos precisam de um entendimento realista das capacidades bélicas nacionais. Não há forma melhor de ter esse entendimento do que deixar que as tropas passem por operações, ou parte delas, para determinar os parâmetros básicos do que é realmente possível fazer.

Enquanto a Rússia testa seus próprios meios, também mostra ao mundo o tipo de operações e que locais considera importantes em seu planejamento estratégico.