17 de Março, 2015 - 08:00 ( Brasília )

Geopolítica

Análise – Há futuro para a Rússia sem Vladimir Putin?

Mesmo que o presidente russo reapareça após dias de reclusão, sua ausência já revela como seu poder está assustadoramente consolidado no país

Por Matt Schiavenza – Texto do The Atlantic

Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel

A misteriosa reclusão de Vladimir Putin da vida pública chega ao oitavo dia, e ainda não se sabe onde o presidente russo está. O Kremlin e seu porta-voz, Dimitry Peskov, têm a tarefa inglória de insistir que não há nada de errado e negar que Putin esteja incapacitado. No último sábado (14), Moscou anunciou que o presidente apareceria nesta segunda-feira (16) em São Petesburgo, onde tinha reunião marcada com o presidente do Quirguistão, Almazbek Atambaev. O encontro seria a primeira aparição pública de Putin desde o dia 5 de marçom quando esteve com o primeiro ministro italiano, Matteo Renzi.

O ressurgimento de Putin provavelmente cessará diversos rumores absurdos, para a decepção de jornalistas em todo o mundo. Porém, mesmo que o presidente retorne ao poder como sempre, seu sumiço levanta uma dúvida desconfortável – o que aconteceria com a Rússia se, hipoteticamente, Vladimir Putin morresse?

Até esta semana, analistas tinham poucos motivos pra cogitar esse cenário. Putin tem apenas 62 anos, e, conforme a propaganda política russa faz questão de mostrar regularmente, está em boa forma. Mas ninguém esperava, que Kim Jong-Il, com apenas 69 anos, morresse cedo – até que aconteceu em 2011. E há precedentes na história da Rússia. Três líderes da união Soviética, Leonid Brezhnev, Yuri Andropov e Konstantin Chernenko, morreram um após o outro entre 1982 e 1985, uma série de eventos que trouxe o reformista Mikhail Gorbachev ao poder.

Dado o tamanho do território russo, e seu arsenal nuclear, a perda de seu líder teria consequências significativas, independente de quem fosse esse líder. Mas a possível morte de Putin poderia ser especialmente desestabilizante. O atual presidente assumiu o poder na Rússia em 2000 após a saída de Boris Yeltsin, que na época havia apontado o então desconhecido primeiro ministro e ex-agente da KGB como seu sucessor alguns meses antes. Durante os últimos 15 anos, Putin centralizou o poder estatal.

Muitas instituições democráticas estabelecidas nos anos 1990 – como as eleiões populares para representantes regionais – hoje são apenas lembranças, e o único representante político para o qual a população vota diretamente é o próprio Vladimir Putin. O atual presidente controla a televisão russa, que fornece conteúdo a 90% da população, além de manter restrições severas à Internet. A oposição política na Rússia é, em grande parte, fraca e fragmentada – críticos declarados acabam presos ou mortos, uma tendência que se mostra viva com o assassinato de Boris Nemstov em Moscou no mês passado.

A Rússia contemporânea é frequentemente comparada à China, também uma potência autoritária que mantém uma relação próxima a Moscou no Conselho de Segurança da ONU. O presidente chinês, Xi Jinping, é tido como o governante mais poderoso no país em décadas. Mas Xi ainda precisa batalhar contra rivais poderosos dentro do Partido Comunista chinês. Já Putin parece enfrentar menos competição dentro de seu partido. Por conta da natureza pessoal de sua forma de governo, Vladimir Putin foi considerado o indivíduo mais poderoso no ano de 2013 pelo cientista político Ian Bremmer.

Se o líder russo morresse, na teoria o poder passaria para o primeiro ministro Dmitry Medvedev que, segundo a Constituição do país, teria três meses para organizar uma eleição presidencial. O jovial Medvedev, tecnicamente, ocupou a presidência da Rússia entre 2008 e 2012, e pode estar em posição de governar novamente – dessa vez sem Putin observando por trás de seu ombro.

O melhor cenário para a Rússia, nesse cenário, seria uma transição suave de poder em vez de uma luta política. Mesmo assim, uma Rússia pós-Putin provavelmente não desviaria muito do atual modelo e políticas autoritárias. O atual presidente permanece amplamente popular no interior do país, apesar da economia pressionada sob o peso das sanções do Ociedente e a queda vertigionsa do preço do petróleo. É pouco provável que surgisse um governo relativamente liberal e pró-Ocidente, como foi o de Boris Yeltsin.

 “Fico receoso quando o povo pede por uma Rússia sem Putin, disse Dmitry Oreshkin, analista pró-oposição e chefe do grupo de pesquisa política Mercator, baseado em Moscou, ao portal Vocativ “O que eles acham que virá depois? Algum político liberal? Não, as coisas só ficariam piores”.

Talvez seja melhor esperar que Putin apareça bem em São Petesburgo.