06 de Março, 2015 - 08:00 ( Brasília )

Geopolítica

Oposição a Maduro quer denunciar prisão

Plano é levar chanceleres, incluindo o do Brasil, a Ramo Verde, onde estão detidos principais adversários do governo Itamaraty confirma ida de Mauro Vieira a Caracas, mas não se manifesta sobre convite para visitar cadeia

SAMY ADGHIRNI DE CARACAS – Texto da Folha de S. Paulo


Os chanceleres de Brasil, Equador e Colômbia, que estarão em Caracas nesta sexta-feira (6) em busca de uma saída à crise na Venezuela, serão convidados pela oposição a visitar na cadeia dois líderes direitistas presos por envolvimento num suposto golpe de Estado.

O plano é levar os ministros à prisão militar de Ramo Verde, onde se encontram o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, e o ex-prefeito do município Chacao (oeste da capital) Leopoldo López na manhã de domingo.

Foi o que disse à Folha Jesus Torrealba, secretário-geral da Mesa da Unidade Democrática, coalizão de oposição ao presidente Nicolás Maduro.

 "Queremos que a troika veja com os próprios olhos em que estado a democracia se encontra na Venezuela", disse, por telefone.

O Itamaraty confirmou a viagem do chanceler Mauro Vieira à Venezuela, mas não se pronunciou sobre uma possível ida a Ramo Verde.

Mesmo que os chanceleres aceitem o convite da oposição, não está claro se o acesso aos presos será permitido.

Os ministros viajam sob mandato da Unasul, órgão político fundado em 2008 por impulso de Venezuela e Brasil e que reúne os 12 países da América do Sul. O secretário-geral da organização, Ernesto Samper, encabeçará a delegação.

Segundo a Folha apurou, Maduro havia pedido aos chanceleres que não se encontrassem com a oposição. Os três governos, porém, insistiram na necessidade de dialogar com todos os envolvidos.

A viagem a Caracas foi decidida depois que o serviço de inteligência da Venezuela deteve, há duas semanas, o prefeito Ledezma por atos de conspiração.

A detenção do prefeito foi vista como divisor de águas numa escalada entre governo e setores radicais da oposição iniciada com os protestos estudantis do primeiro semestre do ano passado, que deixaram 43 mortos.

À época, o governo se disse vítima de um complô patrocinado pelos EUA e ordenou a prisão de López, acusado de instigar o caos para favorecer um golpe. Também foi cassado o mandato da deputada Maria Corina Machado.

LENIÊNCIA

Em março de 2014, a Unasul enviou delegação a Caracas, que, segundo analistas, havia contribuído para reduzir tensões entre governo e oposição.

Desde então, o diálogo foi rompido, e a oposição passou a acusar a Unasul de leniência com Maduro. "Esperamos que desta vez os países demonstrem compromisso real com a democracia na Venezuela", disse Torrealba.

Nesta quarta-feira, um tribunal condenou a oito anos de prisão o estudante Raul Emilio Baduel por participar dos protestos de 2014. O jovem é filho do general Raul Isaías Baduel, que havia sido ministro da Defesa do então presidente Hugo Chávez (1999-2008), mas acabou preso por corrupção em 2009, após tornar-se crítico do chavismo.