04 de Março, 2015 - 09:00 ( Brasília )

Geopolítica

Eis o que Benjamin Netanyahu disse ao Congresso americano

O primeiro ministro israelense implorou a uma seção conjunta, alegando que “era melhor para eles” não firmar um acordo nuclear com o Irã

Por Marina Koren – Texto do National Journal

Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel


Benjamin Netanyahu sabia o que todos em Washington pensavam na manhã de ontem (03).
 “Eu sei que meu discurso foi motivo de muita controvérsia”, disse o primeiro ministro de Israel se diriginto à seção conjunta do Congresso americano na última terça-feira (03). “Eu lamento profundamente que alguns tenham entendido minha presença aqui como um ato político. Essa nunca foi minha intenção. Eu quero agradecer a vocês, Democratas e Republicanos, por seu apoio a Israel ano após ano, década após década”.

Netanyahu recebeu boas-vindas calorosas no Congresso, e foi aplaudido de pé antes de começar a falar. Ele elogiou o presidente Barack Obama por seu apoio ao Estado israelense, e agradeceu aos EUA “por tudo o que fizeram por Israel”.

E logo depois começou a falar sobre o Irã.

 “Estou aqui, em Washington D.C., e a diferença é enorme,”, disse. “Os documentos fundadores da América prometem vida, liberdade e a busca da felicidade. Os documentos que sustentam as bases do Irã pregam morte, tirania e a busca da guerra santa, e nações estão em colapso por todo o Oriente Médio”.

Como era de se esperar, Netanyahu deu um aviso incisivo contra o acordo nuclear que está tomando forma entre autoridades americanas e iranianas na Suíça. “Meus amigos, por mais de um ano ouvimos que trato nenhum é melhor que um trato ruim. Bom, esse é um trato ruim. Muito ruim”, afirmou. “Ficaríamos melhores sem ele”

O acordo surgindo das negociações lideradas por Washington, diz o premiê israelense, faz duas concessões significativas: deixa Teerã com instalações para enriquecimento de combustível que permitiriam a contrução de uma arma atômica no futuro. E os inspetores internacionais previstos no arranjo podem até detectar violações nos procedimentos, mas não serão capazes de impedi-las.

“Por isso esse arranjo é tão ruim. Ele não bloqueia o caminho do Irã em direção à bomba, e sim pavimenta esse caminho”, continuou Netanyahu. “Então por que alguém faria esse trato? Porque esse alguém espera que Teerã mude para a melhor nos próximos anos. Ou porque esse alguém acredita que a alternativa a esse acordo é pior. Bem, eu discordo. Não creio que o regime radical iraniano irá mudar para a melhor após esse acordo”.

Para o primeiro ministro, oferecer a suspensão de sanções americanas ao país também não é o caminho a seguir. “Se o Irã quiser ser tratado como um país normal”, disse “deixe que aja como um país normal”.

Todas as partes envolvidas nas negociações querem impedir Teerã de conseguir fabricar sua própria arma atômica. Netanyahu expressou seu ceticismo quanto às conversas antes, dizendo que esse diálogo ameaçava a segurança de Israel, mas esses comentários receberam bem mais atenção por conta da repercussão política que tiveram tanto em Washington quanto em Tel Aviv.

Ontem, o primeiro ministro israelense parecia sugerir que só diplomacia, que o governo Obama acredita ser a o caminho para abafar o programa nuclear iraniano, não está funcionando. “Em um momento em que muitos esperam que o Irã se una a uma comunidade de nações, o país está ocupado engolindo essas nações”, argumentou. “Precisamos nos unir para deter a marcha iraniana de conquista, subjugação e terror”.

Netanyahu disse ainda que Teerã representa uma ameaça mais urgente que o grupo terrorista Estado islâmico (EI ou ISIS). “A diferença é que o ISIS está armado com facas, armas roubadas e YouTube”, explicou. “Já o Irã pode, em breve, estar armado com mísseis balísticos intercontinentais e bombas atômicas. Precisamos nos lembrar sempre – eu direi mais uma vez – o maior perigo para o nosso mundo é a união entre extremismo islâmico militante e armas nucleares. Derrotar o ISIS mas deixar que Teerã tenha armas atômicas é vencer a batalha mas perder a guerra”, completou.

Em janeiro passado, o porta-voz do Congresso, John Boehner, pegou a Casa Branca de surpresa quando, sem consultar o governo, convidou o premiê israelense para discursar no Capitólio. A visita logo tomou caráter partidário e quase 60 parlamentares democratas do Congresso e do Senado não compareceram ao discurso de Netanyahu ontem como protesto pelo que eles acreditam ser um ataque ao presidente Obama por parte dos congressistas republicanos.

Na última segunda-feira (02), o secretário de Estado, John Kerry, durante entrevista para repórteres em Genebra, avisou indiretamente o ministro israelense para que não compartilhasse durante seu discurso informações sobre o estado das negociações em andamento na Suíça.

Em Israel, a visita do ministro aos EUA foi percebida como uma parade em uma turnê de campanha de Netanyahu, cujo Partido Likud vai disputar a eleição nacional em 17 de março. A passagem pelo Congresso americano dá a oportunidade de construir apoio para o partido em casa, onde os eleitores começam a se perguntar se a política de Bibi em relação ao Irã está funcionando ou falhou de vez.

Obama já declarou que não se encontrará com Netanyahu nesta semana, para evitar a impressão de que poderia tentar influenciar as eleições israelenses. O secretário de imprensa da Casa Branca, Josh Earnest, disse na última segunda-feira que o presidente não assistiu ao discurso de Netanyahu na conferência para assuntos políticos da American Israel Public Affairs Committee, e provavelmente não compareceria em nenhum momento da seção do ministro no Congresso.

Muitos queriam muito presenciar discurso controverso. O escritório do porta-voz Boehner informou ao The New York Times que recebeu 10 vezes mais pedidos por assentos do que o número disponível para a seção.