02 de Março, 2015 - 08:50 ( Brasília )

Geopolítica

Opinião: Ecos de Donbass nas ruas de Moscou

O opositor russo Boris Nemtsov foi assassinado em Moscou. O receio agora é que essa morte, assim como tantas outras com motivações políticas, não seja investigada, opina Ingo Mannteufel, chefe da redação Europa da DW.

O assassinato do político liberal russo Boris Nemtsov a céu aberto em Moscou tem indicações claras de que se trata de um atentado. Todos os indícios até o momento apontam para isso. O fato: Nemtsov levou quatro tiros nas costas. O momento: um protesto marcado para a manhã deste domingo (01/03) em Marino, nos arredores de Moscou, sob o tema "Primavera" e contra a política russa com relação à Ucrânia. A vítima: Boris Nemtsov, que há anos era uma das principais lideranças opositoras a Putin e ajudou ativamente a organizar o protesto de domingo.
 
Especulações e teorias da conspiração
 
Seguramente ainda é muito cedo e muito especulativo indicar as consequências políticas deste atentado. Importante agora é realizar uma investigação intensa e conhecer as motivações do crime, embora diante da atual realidade russa isso seja algo difícil de se imaginar.
 
Como há anos na Rússia a troca de informações objetivas e baseadas em fatos nos meios políticos e também na imprensa é cada vez menos cultivada, é de se esperar que, em breve, todos os tipos de conjecturas e teorias da conspiração sobre a morte de Nemtsov deverão ser veiculadas: teorias de que se trata de um atentado por conta de algum interesse empresarial de Nemtsov.
 
Ou assassinato, porque Nemtsov criticou ferrenhamente, durante anos, tanto o Kremlin quanto o presidente Vladimir Putin. Ou o resultado de uma contenda violenta dentro da oposição russa; ou ainda uma ação de nacionalistas russos, autores de um atentado em 2009 contra o advogado de direitos humanos Stanislav Markelov e a jornalista Anastassia Baburova.
 
Há o receio de que também este assassinato, assim como tantas outras ações de motivação política, não seja completamente esclarecido.
 
Com um protesto planejado para domingo contra a política do Kremlin para a Ucrânia, faz sentido que as motivações do atentado também entrem neste contexto. Conforme colegas de oposição de Nemstov agora relatam, o ex-vice-primeiro-ministro queria publicar fatos e documentos sobre a participação russa no conflito ucraniano e sobre a presença de tropas russas em Donbass.
 
Extremistas de direita russos, ligados ao movimento "Nova Rússia" em Donbass, já celebram nas redes sociais a morte de Boris Nemtsov.
 
Atentado fortalece erros políticos em Moscou
 
Certo é que o brutal assassinato de um líder da oposição russa deverá esquentar ainda mais o clima político no país. O ódio a dissidentes e críticos da gestão russa, semeados pela mídia e pelos políticos, alcançou níveis intoleráveis há anos.
 
Retratos de Nemtsov e de outros críticos russos a Putin estamparam, durante anos, alvos em acampamentos de jovens organizados pelo Kremlin. Por isso, o presidente Putin e o Kremlin são culpados por essa atmosfera política envenenada.

Milhares vão às ruas de Moscou em memória de Nemtsov

Dezenas de milhares de pessoas participaram de uma marcha pelo centro de Moscou neste domingo (01/03) em memória do líder da oposição Boris Nemtsov, assassinado com quatro tiros em uma rua da capital russa na sexta-feira. A polícia estima que cerca de 16 mil pessoas estiveram presentes na manifestação, enquanto os organizadores falam em 70 mil.
 
Logo pela manhã, uma multidão se concentrou sobre a ponte Bolshoi Moskvoretsky, próxima ao Kremlin, onde o ex-vice-primeiro-ministro foi alvejado quando voltava de um restaurante. Os manifestantes seguiram na marcha segurando flores e bandeiras da Rússia com fitas pretas, em sinal de luto. Algumas carregavam fotos de Nemtsov e traziam placas com mensagens como "Lutou por uma Rússia livre", "Morreu pelo futuro da Rússia" e "Não tenho medo".
 
Morte filmada
 
O canal estatal de televisão russo TWZ divulgou neste domingo um vídeo gravado por uma câmera de vigilância que mostra o momento do crime. Gravadas a uma longa distância, as imagens trazem um caminhão de limpeza de rua passando em baixa velocidade ao lado de duas pessoas, que seriam o político e a mulher que o acompanhava na hora do assassinato.
No momento em que o veículo passa o casal – 23h31, segundo horário gravado pela câmera – apenas um pedestre permanece de pé. O suposto atirador então corre para a pista, onde um carro em movimento freia para que a pessoa entre e, em seguida, segue em alta velocidade.
 
Investigadores não fizeram comentários sobre o vídeo. O Comitê de Investigação russo havia sugerido no sábado que Nemtsov poderia ter sido morto por membros da oposição, interessados em "desestabilizar o país".
 
O órgão máximo de investigação do país afirmou ainda trabalhar com outras motivações, como extremismo islâmico, pois Nemstov criticou os atentados em Paris no mês passado. Outras hipóteses seriam radicais do conflito na Ucrânia insatisfeitos com os comentários do político russo e até mesmo a vida pessoal da vítima.
 
"Todo o possível"
 
Diante da consternação no país com a morte e da pressão internacional pela condução de investigações isentas e transparentes, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, prometeu fazer "todo o possível" para levar à Justiça os responsáveis pelo assassinato de um de seus maiores opositores.
 
Em telegrama enviado à mãe de Nemtsov, Dina Eidman, e publicado no site do Kremlin, Putin garantiu que "tudo será feito para que os organizadores e autores de um assassinato vil e cínico recebam o castigo que merecem". Ele afirmou ainda que o opositor "deixou sua marca na história, na política e na vida pública da Rússia" e que a morte dele é uma "perda irreparável".
 
Nemtsov era um crítico contundente de Putin e frequentemente se manifestava contra a corrupção no governo, a anexação da Crimeia pela Rússia e o envolvimento do país no conflito no leste da Ucrânia. Ele era vice-presidente da coligação entre o Partido Republicano da Rússia e Partido da Liberdade Popular (RPR-PARNAS).
 
Nemtsov lançou carreira política como governador da região de Níjni Novgorod, na Rússia central, e se tornou vice-primeiro-ministro do país no final da década de 1990, sob a presidência de Boris Ieltsin. Ele e é considerado um dos arquitetos da reforma econômica liberal russa. Depois de deixar o Parlamento, em 2003, Nemtsov ajudou a criar e liderar diversos partidos e grupos de oposição.