26 de Fevereiro, 2015 - 10:00 ( Brasília )

Geopolítica

A intersecção de três crises

A Grécia ameaçando deixar a zona do Euro, o frágil cessar-fogo na Ucrânia e a nova rodada de negociações sobre o programa nuclear do Irã são peças de um complexo quebra-cabeça

Por Reva Bhalla – Texto do Stratfor
Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel

Nas últimas duas semas, foi formado em Bruxelas um acordo temporário para manter a Grécia na zona do Euro, foi traçado em Minsk um mapa para o cessar-fogo na Ucrânia, e negociadores iranianos avançaram quanto a um possível acordo nuclear em Genebra. Esquadrões de diplomatas contiveram uma crise geopolítica atrás da outra.

Ainda assim, seria prematuro, ou mesmo irresponsável, presumir que as fronteiras que definem essas questões estão estabilizadas. Entender como essas crises estão ligadas de forma intrincada é o primeiro passo na direção de antecipar quando e onde é provável que apareça o próximo foco de tensão.

Alemanha e a crise na zona do Euro

Novamente a Alemanha se tornou vítima do próprio poder. Como maior credor da Europa, o país tem influência política considerável sobre nações devedoras como a Grécia, cuja renda agora depende totalmente de a chanceler Angela Merkel estar disposta a liberar mais recursos. Não nos esqueçamos de que Berlim exporta o equivalente a cerca de metade de seu PIB, e que essas exportações são consumidas dentro do próprio continente. Assim, as instituições das quais a Alemanha depende para proteger seus mercados são exatamente as mesmas que o país precisa enfrentar para proteger a integridade econômica nacional.

Muitos descrevem o acordo recente em Bruxelas como uma vitória de Berlim sobre Atenas, já que ministros das finanças das nações do Euro – incluíndo Portugal, Espanha e França – apoiaram a Alamanha em recusar à Grécia o direito de contornar suas obrigações em termos de dívidas. Mas Merkel também não vai apostar recursos ilimitados dos contribuintes alemães nas promessas do governo grego de cortar gastos e impor reformas estruturais sobre uma população que, por enquanto, ainda vê o partido Syriza no poder como a salvação contra a austeridade.

Daqui a quatro meses, Berlim e Atenas voltarão ao tema da dívida, e a Grécia provavelmente ainda não terá o selo de austeridade necessário para que a Alemanha convença seus próprios céticos de que que tem a autoridade institucional e credibilidade para impor a mesquinharia germânica ao resto da Europa. Quanto mais a Alemanha tenta ganhar tempo, mais inflexíves sua posição e a da Grécia podem ficar, e comerciantes, emrpesários e políticos terão que levar cada vez mais a sério a possibilidade do êxodo grego – o primeiro episódio em uma corrente que pode estilhaçar a zona do Euro.

Onde fica a questão da Ucrânia

Para conduzir a Alemanha por essa crise do Euro que toma proporções cada vez maiores, Merkel precisa acalmar seu front leste. Então não é surpresa que ela tenha investido muitas noites sem dormir e uma escala de viagens incessantes para firmar outro acordo, dessa vez com a Rússia em Minsk. O trato era falho desde o começo porque evitava reconhecer as tentativas recorrentes de separatistas apioados por Moscou de “reforçar” a linha de demarcação ao trazer o bolsão de Debaltseve para sua zona de controle.

Após mais vários dias de discussão, a parte alemã (novamente lançando mão da carta de maior credora, e dessa vez contra a Ucrânia) discretamente forçou o presidente Petro Poroshenko a aceitar a realidade do campo de batalha e ir em frente com os termos do cessar-fogo. Mas mesmo se a Berlim de um lado e Moscou do outro fossem capazes de trazer alguma paz ao leste ucraniano, no fim seria muito pouco para aplacar a tensão crescente entre Estados Unidos e Rússia.

Conectando Kiev e Teerã

Ao contrário da opinião popular no Ocidente, o presidente russo Vladimir Putin não é movido por ambições territoriais insanas. Eles está olhando para o mapa, assim como seus antecessores fizeram por séculos, e lidando com a tarefa de proteger a fronteira sensível da nação contra um país que agora está sob a asa de uma potência militar ocidental muito mais capaz.

Conforme os Estados Unidos vêm relembrando a Moscou nos últimos dias, a Casa Branca tem a opção de enviar apoio letal à Ucrânia. Com equipamento mais pesado, vêm as tropas para treinar os combatentes locais – isso significa mais homens em terra.

Sob essa perspectiva, Putin já consegue ver os EUA avançando além das fronteiras da OTAN para recrutar e garantir aliados na periferia da Rússia. Ainda que tréguas curtas tenham sido estabelecidas no leste da Ucrânia, não há nada que impeça a infiltração mais profunda de Washington na região. É esse o pressuposto que irá guiar as ações russas nos próximos meses enquanto Putin revê suas opções militares, que incluem estabelecer uma ponte por terra com a Cirmeia (manobra que, na prática, ainda deixaria a fronteira com a Ucrânia exposta), e uma ofensiva mais ambiciosa em direção ao oeste até o rio Dnieper, além de sondar as nações do Báltico para testar a credibilidade da OTAN.

Os Estados unidos não têm o luxo de evitar nenhuma dessas possibilidades, então precisam se preparar adequadamente. Mas se concentrar no teatro eurasiano exije primeiro amarrar as pontas soltas no Oriente Médio – a começar pelo Irã. E então chegamos em Genebra, onde o secretário de Estado americano, John Kerry, e o ministro das relações exteriores iraniano, Javad Zarif, se encontraram novamente no último dia 22 para acertar os últimos pontos de um acordo nuclear antes do dia 31 de março – prazo final para que o presidente Barack Obama demonstre progresso suficiente nas negociações para impedir o Congresso americano de impor mais sanções ao Irã.

Se os EUA conjecturarem de forma realista cenários em que seuas forças enfrentam a Rússia em solo europeu, é necessário ser capaz de rrealocar rapidamente os contingentes que passaram os últimos 12 anos apagando os incêndios causados por jihadistas unidos em emirados e se preparando para um conflito no Golfo. Para diminuir a pressão no Oriente Médio, Washington voltará sua atenção às potencias regionais com interesses fixos e conflitantes, para que elas assumam parte do fardo.

Um entendimento entre Washington e Teerã vai muito além de quanto urânio o país árabe pode enriquecer e armazenar e quantas sansções serão aliviadas caso o programa nuclear seja restrito. Trata-se de estabelecer os contornos regionais de uma esfera de influência iraniana que permitirá que Washington e Teerã cooperem em áreas nas quais seus interesses convergem. Já podemos ver essa lógica aplicada à questão do Iraque e da Síria, onde a ameaça do Estado Islâmico forçou as duas nações a coordenar esforços para conter a ambição dos jihadistas.

Ainda que s EUA venham a ser mais cautelosos em suas declarações públicas para aplacar a ansiedade de Israel, autoridades americanas já teriam feito comentários posítivos acerca do papel do Hezbollah em combater o terrorismo – as declarações teriam sido feitas em reuniões recentes com interlocutores libaneses. Isso pode parecer um detalhe menor, mas o Irã vê uma reaproximação com os EUA como uma oportunidade de buscar reconhecimento para o hezbollah como agente político legítimo.

A reaproximação entre os dois países não vai acontecer até março, junho ou nenhum prazo que Washington determine para este ano. Estruturas de acordos e suspensão de bloqueios serão, necessariamente, implementados em etapas para prologar as negociações ao longo de 2016, quando o Congresso americano poderia permitir que o conjunto de sanções mais cruciais contra o Irã expire após vários meses testando a obediência iraniana e após o país árabe passar pelas prévias eleitorais.

Percalços também podem surgir ao longo do processo, como a morte do líder supremo, aiatolá, Ali Khamenei, mas esses obstáculos não impedirão a Casa Branca de traçar um rumo na direção de normalizar as relações com o Irã. Mesmo que um acordo nuclear lance as bases de um entendimento entre Washington e Teerã, os EUA vão confiar nas potências do Oriente Médio, como Turquia e Arábia Saudita, para corroer as bordas da esfera de influência iraniana, encorajando rivais naturais ma região a moldar um equilíbrio relativo de poder ao longo do tempo.

Fechando o ciclo

A Alemanha precisa de um acordo com a Rússia para poder administrar a crise existencial da zona do Euro. A Rússia precisa de um acordo com os Estados Unidos para limitar a infiltração americana em sua área de influência. E os EUA precisam de um acordo com o Irã para enfim voltar sua atenção para a Rússia. Nenhum conflito é isolado do outro, ainda que eles estejam em escalas distintas.

Berlim e Moscou podem encontrar formas de acertar suas diferenças, assim como Teerã e Washington, mas uma crise prolongada na região do Euro não pode ser evitada, assim como a desconfiança cada vez maior da Rússia em relação às intenções americanas em suas fronteiras.

Ambas as questões trazem os Estados Unidos de volta à Eurásia. Uma Alemanha distraída força Washington a ir além dos limites da OTAN para cercar a Rússia. Mas não se preocupem, Moscou – mesmo sob estresse econômico grave – encontrará meios de reagir.