12 de Fevereiro, 2015 - 11:10 ( Brasília )

Geopolítica

Ucrânia tem armas suficientes, mas precisa de estratégia melhor

Siemon Wezeman, do Sipri, questiona necessidade do polêmico fornecimento de armas. Derrotar os rebeldes não é questão de equipamento, mas de uma estratégia melhor.

Desde que começou, em abril de 2014, o conflito no leste da Ucrânia, entre o Exército nacional e os separatistas pró-Rússia, já custou cerca de 5.400 vidas. Há meses o governo em Kiev vem pedindo aos Estados Unidos e aos países da União Europeia que forneçam armas para a luta contra os rebeldes, supostamente munidos de equipamento altamente moderno, disponibilizado pela Rússia.

No entanto, baseados em dados e estimativas, tanto o Armament Research Services (Ares), da Austrália, quanto o Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo (Sipri) questionam a necessidade desse fornecimento.

A DW entrevistou o historiógrafo holandês Siemon Wezeman, especialista em armamentos convencionais do Sipri. Esse instituto financiado pelo Parlamento sueco investiga as exportações de armas e gastos militares em todo o mundo.

DW: O senhor se dedica, entre outros temas, à pesquisa do arsenal das Forças Armadas ucranianas. Que lado está atualmente mais bem equipado, os rebeldes pró-Rússia ou as Forças Armadas da Ucrânia? Quem dispõe de quê?

Siemon Wezeman: As Forças Armadas ucranianas estão mais bem armadas. Um exército regular tem sempre mais equipamento do que rebeldes. Ele dispõe das Forças Aéreas, de armas mais pesadas, ao contrário dos insurgentes, e tem uma organização muito maior. Há, de fato, um grande número de rebeldes, mas eles não são tão fortes quanto as forças nacionais.

No entanto, afirma-se que os separatistas recebem armas russas ultramodernas, melhores do que as de que dispõem as Forças Armadas da Ucrânia. Essas informações procedem?

Não, isso não é o que eu constato. Os rebeldes empregam uma quantidade de equipamento bélico que saquearam. Uma parte vem de fora da Ucrânia, mas não é um arsenal muito avançado: é moderno, mas não supermoderno. E não é nada que o lado ucraniano também não tenha.

A Ucrânia era uma grande exportadora de armamento, sua indústria abastecia a Rússia e, antes, a União Soviética. Então, por que as Forças Armadas ucranianas não estão melhor equipadas?

Há dois problemas. Um é dinheiro: o orçamento de defesa da Ucrânia não é especialmente grande, considerando-se o tamanho das forças de combate do país. Portanto a modernização avançou muito lentamente, e quase não há verba para aquisições. O segundo problema: o pouco dinheiro disponível foi empregado sobretudo na revisão ou modernização de sistemas antigos, herdados da antiga União Soviética.

Consta que Kiev pediu armamento antitanques. A seu ver, a Ucrânia precisa mesmo desses sistemas?

Não, eu me surpreenderia se esse fosse o caso. Os rebeldes não empregam tantos tanques de combate; os que possuem são do mesmo tipo que usa o Exército nacional. A Ucrânia tem muitos tanques capazes de combater outros tanques; há uma grande quantidade de armas antitanques da época soviética ou de produção ucraniana mais recente. Eu acredito que a Ucrânia esteja mais interessada em aparelhos de visão noturna, equipamentos de reconhecimento militar e drones.

Os Estados Unidos e alguns países europeus consideram fornecer armas à Ucrânia. Isso realmente ajudaria? O Exército saberia operar esses sistemas totalmente diferentes?

Depende do que exatamente seria entregue. Armas antitanques são relativamente fáceis de operar: pode-se aprender, pois provavelmente são muito semelhantes aos sistemas existentes. Quando se trata de sistemas mais complexos, como um tanque ou um avião, é preciso tempo, sobretudo se forem muito diversos dos usados até então. Também no tocante a sistemas computadorizados, é preciso algum tempo até dominá-los, mas eles podem ser de grande efeito. Talvez por isso se queira adquiri-los.

Por que as Forças Armadas ucranianas não são capazes de dar conta dos rebeldes, de derrotá-los? Afinal, seu contingente é maior do que as tropas separatistas. Qual é o problema?

Não estou muito seguro. Geralmente tem-se um exército grande e um grupo rebelde relativamente pequeno, que combate na própria terra natal, em parte apoiado pela população. Neste caso, a zona de combate fica, ainda, numa fronteira [com a Rússia], para além da qual os rebeldes podem recuar, se necessário, mas que as forças ucranianas não podem ultrapassar.

A questão é, sempre, como combater rebeldes que não são muito bem organizados. Por vezes, não há um front definido, e o adversário trava uma guerra de guerrilha. Contra rebeldes é necessário muito mais contingente do que contra um exército regular.

Não é um questão de força, tamanho ou equipamento. O Exército ucraniano é grande e forte o suficiente para derrotar, em pouco tempo, qualquer exército convencional que seja do tamanho das forças rebeldes. Mas, para derrotar rebeldes, é preciso mais do que tamanho, força ou armamento.

Portanto a questão não é de armas, mas de estratégia e tática. Como combater insurgentes que se escondem numa cidade, numa área civil?

No fundo, é justamente essa a questão. Como lutar contra uma tropa que a qualquer momento pode se dissolver, adotar novas formações e voltar a surgir? Como atacar? A qualquer momento eles podem depor armas, vestir roupa civil, e ninguém é capaz de reconhecer se se trata de militares, combatentes ou o quê. Três dias mais tarde, as mesmas pessoas reaparecem como guerrilheiros uniformizados. Isso, é justamente, tática de guerrilha, que é bem difícil de enfrentar.

Quantos soldados mobilizados a Ucrânia tem, de fato? Nos últimos anos suas Forças Armadas foram reduzidas.

Depende de como se conta. Há soldados ativos e reservistas. Caso necessário, o país pode facilmente mobilizar vários milhões – se todos vão estar adequadamente armados, é uma outra questão. Em serviço ativo, a Ucrânia pode dispor de várias centenas de milhares de soldados, sem problema.
 

Cúpula de Minsk chega a acordo sobre cessar-fogo na Ucrânia


Após uma maratona de conversas que se estenderam durante toda a madrugada desta quinta-feira (12/02) em Minsk, os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, da Ucrânia, Petro Poroshenko, da França, François Hollande e a chanceler federal alemã, Angela Merkel, além de líderes separatistas pró-Rússia, anunciaram pela manhã terem chegado a um acordo sobre a retirada de armas pesadas da fronteira da Ucrânia e para um cessar-fogo, que começará a valer na madrugada de sábado para domingo.

"Conseguimos chegar a um acordo nas questões principais", afirmou Putin, visivelmente satisfeito. "Concordamos com um cessar-fogo", declarou. O anúncio foi feito após mais de 16 horas de reunião na capital de Belarus. Segundo o presidente russo, dois acordos foram assinados: um de declaração do cessar-fogo e outro para implementá-lo.

Em uma declaração conjunta distribuída pelo Kremlin, os líderes da Ucrânia, Rússia, Alemanha e França comprometem-se a respeitar a soberania ucraniana e a integridade territorial do país. Os líderes também concordam em participar de encontros regulares para garantir que os pontos do acordo assinado nesta quinta-feira sejam cumpridos.

"O principal ponto acertado é que, de sábado para domingo, será declarado um cessar-fogo geral sem pendência de condição", declarou Poroshenko, acrescentando que o acordo não garante autonomia a nenhuma área sob controle rebelde no leste ucraniano.

O presidente francês, François Hollande, destacou que ainda há muito trabalho a ser feito, mas que agora são grandes as chances de que a situação melhore na Ucrânia. Segundo Hollande, o anúncio de cessar-fogo é visto como um "alívio" para a Europa.

"O texto do acordo, assinado pelo 'grupo de contato' e pelos separatistas, trata de todas as questões. Descentralização, controle de fronteiras e retirada de armamento pesado estão incluídos no documento", disse Hollande, ao lado de Angela Merkel.

Segundo a chanceler federal alemã, já perto do fim do encontro o presidente russo pressionou os separatistas a concordarem com um cessar-fogo no domingo, o que, segundo ela, proporcionou uma "luz de esperança" para acabar com a violência na Ucrânia.

Dúvida sobre Debaltseve

Algumas questões, porém, continuaram em aberto após a exaustiva negociação em Minsk. Segundo Putin, os rebeldes querem que as tropas leais a Kiev se rendam na estratégica Dobaltseve, cidade cuja malha ferroviária faz o transporte entre as bases rebeldes de Donetsk e Lugansk.

Segundo Poroshenko, a rendição não vai acontecer. Ele afirma ainda que as partes concordaram em ajudar a Ucrânia a retomar controle da fronteira com a Rússia, no leste.

Putin destacou que o acordo de paz contém elementos para estabelecer um status especial às regiões rebeldes e resolver questões humanitárias e relacionadas a controle de fronteira.

Armas dos EUA

Líderes europeus aumentaram os esforços para se chegar à paz na região especialmente depois que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, sob pressão interna, afirmou avaliar a possibilidade de enviar armas e munição para as Forças Armadas da Ucrânia.

A União Europeia considera que a medida agravaria ainda mais o sangrento conflito, e colocaria em risco as chances de um acordo diplomático. Pelo menos 5,3 mil pessoas já morreram nos confrontos entre rebeldes pró-Rússia e tropas aliadas a Kiev no leste da Ucrânia. E a violência aumentou nos últimos dias.