04 de Fevereiro, 2015 - 12:00 ( Brasília )

Geopolítica

A névoa da paz: por que é difícil prever o poder militar

Nossa obsessão pela tecnologia pode ser um problema na hora de fazer boas análises

Por Franz-Stefan Gady– texto do The Diplomat
Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel


Enquanto elaboro meu post mais recente sobre o mito da contra-intervenção chinesa (“O Único Artigo Necessário Sobre estratégia Naval Chinesa em 2015”), gostaria de propor uma discussão mais ampla sobre a dificuldade em geral de viasualizar como os conflitos futuros serão combatidos.

Uma vez, Sir Michael Howard, autoridade em História militar, comparou tentar prever a forma das próximas guerras a um navio preso em uma “neblina de paz”, e que, consequentemente, tem que navegar às cegas.

Nas palavras de Howard: “você tem a “terra firma” da guerra passada e está extrapolando os limites da experiência dessa guerra. Quanto maior a distância em relação ao último conflito, maiores os erros nessa projeção... Em grande parte, você precisa navegar em meio a uma neblina de paz até o último momento. E então, provavelmente quando for tarde demais, a névoa se dissipa e lá está a terra logo adiante... E aí você descobre... Se os seus cálculos estavam corretos ou não”.

Nesse sentido, não devemos esquecer nunca que a maior parte da análise de defesa além do aspecto técnico geralmente é um jogo de adivinhação. Só a guerra em si pode atestar o quão bem uma força militar e seus armamentos vão se comportar no campo de batalha.

A análise de guerra naval é especialmente problemática já que temos poucos casos recentes de combate real (por exemplo as Falkland) dos quais extrair lições.

Já as os ensinamentos dados pela História também têm seus problemas e podem impedir que serviçoes de inteligência levantem informações frescas sobre as forças de oponentes por conta de posturas cognitivas enraizadas no passado.

É claro que sempre podemos tirar certas conclusões com base em nossos dados sobre tamanho, equipamento, treinamento, moral, liderança e apoio logístico de uma força, mas ainda assim, essas variáveis estão sujeitas à natureza dialética da guerra, a quem é o adversário e onde o inimigo será combatido.

Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, os governos da França e do Reino Unido insistiram em superestimar a capacidade de combate da República Checa, da Polônia e da Itália. Além disso, franceses e britânicos estavam profundamente preocupados com o suposto crescimento da Marinha italiana.

O resultado foi que essas estimativas infladas tiveram impacto negativo tanto na formulação de políticas quanto de estratégias militares. Parte desse desvio foi pelo uso errado de analogias históricas, interpretação incorreta da cultura militar e uma classe militar dogmática de oficiais franceses e britânicos que carregavam as cicatrizes da Primeira Guerra.

O fator cultural é algo que deve ser especialmente considerado. No atual mundo obsecado com tecnologia, onde muitos de nós enxergam os gadjets como resposta para praticamente tudo no mundo, analistas da área de defesa tendem a superestimar o impacto das mudanças tecnológicas e inovações introduzidas no campo de batalha.

O debate em torno do arsenal anti-acesso/anti-negação (A2/AD) da China – os mísseis DF-21D e YJ-82, embarcações da classe Houbei (Tipo 22), submarinos da classe Yuan – é um bom estudo de caso. A fixação com o tamanho e as capacidades técnicas do Exército de Libertação Popular (e sua Marinha) frequentemente turvam nossas reflexões sobre os conceitos operacionais e o pensamento estratégico por trás das máquinas de guerra da China.

Porém, só tecnologias novas, sem conceitos operacionais e estruturas organizacionais também modernas, não são capazes de influenciar o resultado de um confronto militar.

Então devíamos começar a prestar mais atenção a faotres além de novos armamentos e sua aquisição e venda, para que possamos melhorar nossa compreensão da real natureza da competição com a República Popular da China e outras nações.

Pois, conforme o chefe do Estado Maior do Reichswehr, Generaloberst Hans von Seeckt, apontou nos anos entre as Guerras Mundiais: “contra um aparato técnico de ataque, o mesmo conceito técnico sempre conseguiu encontrar uma defesa”.