26 de Janeiro, 2015 - 17:45 ( Brasília )

Geopolítica

Análise - Se os americanos se interessassem pela guerra tanto quanto se iteressam por filmes de guerra

As tropas americanas estão combatendo em uma guerra, ou várias. Mas os Estados Unidos, como nação, não estão

Por Gayle Tzemach Lemmon  - Texto do Defense One

Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel


Seria tão bom se a América se interessasse pelos homens e mulheres que realmente vestem o uniforme e vão para o combate tanto quanto se interessa pelos filmes que mostram os atos heroicos dessas pessoas.

A produção “Sniper Americano”, sobre o SEAL da Marinha e francoatirador Chris Kyle, foi sucesso de bilheteria durante as festas de fim de ano, arrecadando um milhão de dólares em cinco dias de exibição. A temporada de prêmios de Holywood pode estar só esquentando, mas Sniper Americano já teve a melhor estreia em lançamento limitado após ser exibido em apenas 10 salas em todo o território americano entre o fim de dezembro e começo de janeiro. O filme estreou oficialmente no último dia 16.

Porém, na lista do USA Today de reportagens mais lidas em 2014 nada era sobre a guerra no Afeganistão ou o conflito que começa a ferver no Iraque – para onde as tropas americanas devem voltar. O mesmo se repetiu na lista de textos mais procurados no Yahoo. Nada de Afeganistão ou Iraque.

Conversando com soldados, marinheiros, aviadores, fuzileiros e suas famílias, a história é a mesma: eles percebem que poucas e preciosas pessoas no país sentem que estamos em guerra. Parte do motivo pra isso e que, oficialmente, não estamos. O presidente Barack Obama encerrou a campanha no Iraque quando as tropas se retiraram em 2011. Três anos dpois, em 28 de dezembro de 2014, a campanha no Afeganistão terminou oficialmente. “Graças aos sacrifícios extraordinários dos nossos homens e mulheres fardados, nossa missão de combate do Afeganistão está no fim, e a guerra mais longa na História americana chega a uma conclusão coerente”, discursou o presidente.

Ainda assim, mais de 10 mil militares permanecem em solo afegão e o número de tropas de volta ao Iraque está prestes a subir para 3 mil.

Ambas as campanhas continuarão junto com o que líderes militares temem ser a divisão interna entre os que combatem nas guerras americanas e o restante do público.

Esse vácuo de compreensão é relevante, em parte, pelo que está em jogo: as autoridades em Washington querem escolhas em termos de como podem resolver um problema urgente de segurança, enquanto as lideranças militares comoçam já buscando o objetivo. Enquanto conflitos em todo o globo clamam por atenção e apoio dos EUA, a importância de falar a mesma língua acerca do que se pode fazer e quem vai executar os planos é cada vez mais urgente.

O chefe do Estado Maior das Forças Armadas americanas, General Martin Dampsey, abordou essa questão em novembro passado no Center for a New American Security, quando falou sobre encontrar formas de “vencer o abismo entre essas duas culturas tão diferentes, e também ajudar a educar nossos jovens oficiais, a próxima geração de generais e almirantes, porque pode ser uma frustração enorme quando falamos e não conseguimos nos entender sobre se começamos estabelecendo as opções ou os objetivos”.

E há também o custo humano. É quase que inconcebível, mas até certo ponto verdade, que durante o recesso do governo em 2013 os benefícios para as famílias dos mortos em combate a serviço dos Estados Unidos também foram suspensos. A solução surgiu do escândalo gerado na mídia. Mas isso não mudou o fato de que o governo americano fechou para balanço enquanto a nação estava em guerra. Isso foi possível, em certa medida, porque muito poucas pessoas sentiam realmente a pressão e as consequências diárias do conflito.

Conforme o Almirante Mike Mullen, antigo chefe do Estado Maior, apontou em seu discurso inaugural em West Point em 2011, “nós que vestimos a farda não temos mais o luxo de achar que nossos companheiros civis entendem” os sacrifícios que o trabalho militar exige.

“Eu temo que eles não entendam totalmente o peso do fardo que carregamos, ou o preço que pagamos quando retornamos do campo de batalha. Isso é importante, porque um povo ignorante acerca do que eles pedem que seus militares suportem é um povo inevitavelmente incapaz de compreender totalmente a abrangência das responsabilidades que a nossa Constituição coloca sobre eles”, disse Mullen. “Somos uma força pequena, voluntários, e menos de 1% da população, espalhados pelo país por conta do fechamento de bases e dos deslocamentos para missões, geralmente por longos períodos de tempo.

Finalmente, há a questão dos recursos. No ano passado, as tropas servindo no Afeganistão receberam notificações de afastamento enquanto ainda estavam em zona de combate. A culpa é do Sequestro, diz o chefe do Estado Mior do Exército, General Ray Odierno. O general falou frequentemente sobre os riscos que ele enxergava em diminuir o contingente do Exército e a capacidade de treinamento para dar espaço aos cortes sistemáticos de orçamento, ao mesmo tempo em que se exigia mais envio rotativo de tropas para o exterior.

 “Achávamos que não precisaríamos de militares na Europa como precisávamos antes, achávamos que não precisaríamos voltar ao Iraque – e estamos de volta no Iraque, cá estamos preocupados com a Rússia outra vez”, Disse Odierno no Defense One Summit em novembro passado. “Nossos compromissos na verdade cresceram no ano passado”, completa.

O general está pleiteando a revisão dos planos de diminuição do efetivo do Exército para 450 mil combatentes. Até o momento, o Congresso e o público americano ouviram o apelo, mas é difícil para a maioria dos cidadãos sentir as consequências diárias desses cortes programados.

Afinal, como aponta o Pew Research Center, “a parcela de americanos que serve atualmente nas Forças Armadas é a menor desde o período de paz entre a Primeira e a Segunda Guerra”.

Essa parcela – “menos de 1% da população” – travou 13 anos de combate em nome de 100% dos Estados Unidos e ainda assim suas guerras – as guerras da América – raramente tocam a atenção e o imaginário do público.

Mesmo durante a campanha eleitoral de 2012, pouco e precioso tempo foi dedicado a falar da guerra mais longa já travada pelos EUA, e ainda acontecendo na época. A maior menção veio do slogan que dizia “Osama bin Laden está morto, General Motors vive”. Nenhum nos lados na corrida presidencial queria falar muito sobre como a vida era para aqueles que escolheram vestir as fardas das Forças americanas par trabalhar todos os dias.

O candidato republicano não ofereceu alternativa ao rumo que Obama havia traçado na época para as campanhas no Afeganistão e Iraque. E o público americano não se interessou se havia alternativas – seguiram e seguem vivendo como de costume, e não se sentem nem um pouco como cidadãos de um país em guerra.

Exceto quando a guerra vai parar nas salas de cinema. Então a nação pára o que está fazendo e vai assistir a uma história de combate.

Mas passar horas em frente à telona não é suficiente.

É hora de abraçarmos as guerras americanas reais, e suas consequências em tempo real e de vida ou morte, com a mesma dedicação com que esperamos na fila para ver o Sniper Americano.

Sobre o filme:

Sniper Americano (American Sniper) é baseado na autobiografia do Navy SEAL Chris Kyle, American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Military History. Dirigido por Clint Eastwood e protagonizado pelo indicado ao Oscar Bradley Cooper. A data de estreia no Brasil é 19 de fevereiro.

Após 10 anos de serviço na Marinha dos Estados Unidos (1999-2009) e quatro tours na Guerra do Iraque, Chris Kyle se tornou uma lenda nas Forças Armadas e heroi nacional com o recorde de 160 mortes confirmadas. Foi morto a tiros em fevereiro de 2013 no Texas, aos 38 anos.