04 de Julho, 2011 - 09:31 ( Brasília )

Geopolítica

Chávez busca apoio militar para ficar no cargo durante tratamento em Cuba

Em cerimônia discreta em Caracas, governo promove 300 altos oficiais das Forças Armadas para garantir sustentação do Exército no momento em que oposição pressiona para que o presidente retorne ao país após completar um mês ausente

Roberto Lameirinhas - O Estado de S.Paulo

Sem Hugo Chávez, que se recupera em Cuba de um câncer, líderes do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) abriram ontem a série de festividades públicas para celebrar os 200 anos da independência do país. Na véspera, numa cerimônia discreta no Forte Tiúna, em Caracas, o vice-presidente Elías Jaua anunciou a promoção de mais de 300 altos oficiais das Forças Armadas.

Com a oposição questionando a legalidade de Chávez - que hoje completa um mês fora da Venezuela - seguir governando enquanto se recupera em Havana, a promoção dos oficiais foi vista como um gesto para assegurar o respaldo dos quartéis.

"A proximidade do governo com Cuba tem causado um certo incômodo entre os oficiais de média patente", disse ao Estado uma fonte diplomática em Caracas sob a condição de anonimato. "Chávez já havia movido peças no comando militar para evitar descontentamento. Agora, mais do que antes, precisa ter a total lealdade do Exército."

A cerimônia militar se deu três dias após o governador de Barinas, Adán Chávez, irmão do presidente, ter declarado que "a via armada poderia ser uma alternativa à via eleitoral de 2012 para assegurar a revolução".

De acordo com Ángel Álvarez, analista do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Central da Venezuela, a declaração de Adán tem como objetivo mobilizar as fileiras mais radicais do chavismo. Para Álvarez, "Chávez criou um sultanato e governa sozinho".

Sua ausência, segundo ele, favorece manifestações como a de Adán e compromete ainda mais a imagem do chavismo. "Com Chávez fora do país, abre-se uma crise, porque não há instituições capazes de ativar os mecanismos constitucionais e conter as disputas internas no PSUV", disse Álvarez.

Afastamento.
Ao mesmo tempo em que milhares de simpatizantes de Chávez lotavam as praças de Caracas, convertendo em manifestação de apoio os eventos comemorativos dos 200 anos da independência do país, o movimento opositor 2D - Democracia y Libertad publicava anúncio de página inteira nos principais jornais de Caracas reivindicando o afastamento temporário do presidente e a transmissão dos poderes ao vice.

Pela Constituição, Chávez poderia pedir o afastamento por 90 dias e prorrogar a ausência por outros 90 dias. Chávez usa como base uma autorização concedida a ele pela Assembleia Nacional - de maioria chavista - para seguir governando de fora dos limites do território venezuelano.

Jaua, por seu lado, em entrevista concedida ao jornal de Caracas El Universal, reiterou que não pretende assumir as funções de presidente. "Neste tempo histórico, a liderança de Hugo Chávez é determinante para a continuidade da revolução bolivariana", disse, rejeitando a possibilidade de o presidente baixar o tom das expropriações e estabelecer um diálogo com a oposição.

Agenda pendente.
"Para nós, a unidade nacional não passa pelos velhos pactos e acordos com as elites da velha política. Isso seria a morte da revolução bolivariana. Essas velhas imagens de (o governo) sentar-se com as elites políticas e econômicas não voltarão a se verificar na Venezuela."

A rede de TVs estatais da Venezuela exibia ontem, em meio às imagens das paradas alusivas ao bicentenário, imagens de Chávez caminhando - mais magro, mas mostrando bom ânimo - nos jardins da clínica onde se recupera em Cuba. No entanto, a oposição vem sustentando que o líder não tem como enfrentar, à distância, os graves problemas vinculados principalmente à infraestrutura do país.

Apesar dos US$ 6 bilhões aportados ao setor elétrico nos últimos cinco anos, a Venezuela está às portas de uma crise como a do final de 2009, quando o governo teve de adotar medidas de racionamento e apagões programados para evitar o colapso do sistema.

A inflação dos últimos 12 meses deve ficar entre 23% e 25%. A dívida pública se aproxima de 50% do PIB e o desemprego atinge 1,1 milhão de venezuelanos.

Para o diretor do instituto Datanálisis, Luis Vicente León, a ausência de Chávez deve ampliar os problemas econômicos, principalmente no que diz respeito ao endividamento. "É certo que as decisões de caráter macroeconômico continuarão recaindo sobre Chávez", diz León.

"O governo tratará de fazer com que mudanças sejam feitas da forma mais imperceptível possível. Terão de evitar a todo custo que se notem variáveis significativas em temas cotidianos da população, como a inflação e o abastecimento."

Popularidade. León prevê um aumento do gasto público, para causar uma impressão de crescimento. Também deve se acelerar o programa "Missão Moradia" - que determina a construção de 2 milhões de casas em sete anos. Até agora, foram construídas 153 mil.

Há dois meses, a popularidade do presidente se fixou perto da faixa dos 50% - um patamar perigoso, levando-se em conta a relativa proximidade das eleições de 2012.

TODOS OS HOMENS DE CHÁVEZ

Elías Jaua

Ex-ministro de Agricultura, foi nomeado vice-presidente em 2010. É considerado um dos "caciques" do PSUV e sua lealdade a Chávez tem se mostrado inquestionável. Antes de entrar para o governo, pertencia ao grupo "ideológico" do chavismo.

Carlos Mata Figueroa
Ministro da Defesa, o general foi comandante do Exército até 2010. Pertence à linha dura do chavismo nos quartéis. Com frequência, adverte que o Exército venezuelano exerce o papel de avalista da revolução bolivariana de Chávez.

Henry Rangel Silva
Comandante do Exército e ex-ministro da Defesa. Em 2008, o general foi acusado pelo governo dos EUA de vínculos com atividades de narcotráfico da guerrilha colombiana Farc. Costuma dizer que as Forças Armadas estão "casadas" com a revolução bolivariana

Nicolás Maduro
Ministro das Relações Exteriores. Chegou à carreira política como sindicalista. Conduz a diplomacia chavista com base na retórica do "anti-imperialismo". Com a presença de Chávez em Havana, passou a ser o ministro mais próximo do presidente.

Alí Rodríguez
Ex-secretário-geral da Opep, ex-chanceler, ex-ministro de Minas e Energia e ex-presidente da estatal petrolífera PDVSA. Desgastou-se com a crise energética de 2009, mas continua sendo um dos principais interlocutores de Chávez. Atualmente, é secretário rotatório da Unasul