25 de Novembro, 2014 - 16:40 ( Brasília )

Geopolítica

Chuck Hagel, o bode expiatório

Se livrar do secretário de Defesa não é a cura para o que aflige a política externa de Obama – é um sintoma da doença

Por David Rothkopf – Texto do Foreign Policy

Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel

 
A caça a Chuck Hagel começou assim que ele foi nomeado secretário de Defesa. A princípio, porém, as armas pertenciam a membros irritadiços e suspeitos da assessoria de imprensa. Os rumores em Washington eram de que Hagel, apesar dos anos no Senado e do sucesso nos negócios e na carreira militar, não estava à altura da função de chefe do Pentágono. Mas agora, com a confirmação de sua saída do gabinete de Obama, muitos de seus críticos sentem que ele foi injustiçado.
 
Com o governo Obama completando dois anos instáveis de segundo mandato em termos de segurança nacional, muitos, eu inclusive, pressionaram o presidente para que fizesse como seus predecessores e desse uma sacudida em uma equipe que claramente não o estava servindo direito.
 
Já havia dois meses que circulavam boatos dentro do governo de que Hagel poderia se tornar o bode expiatório da segurança nacional. Suas relações com a Casa Banca não eram as melhores. Ele não era visto como um secretário de Defesa forte. Nas palavras de outro assessor de Obama, ele havia “se tornado nativo”, o que significa que ele atuava apenas como canal para a frustração crescente das lideranças militares no Departamento de Defesa diante das respostas estrategicamente incoerentes do presidente e sua equipe, especialmente em se tratando da ameaça crescente do Estado Islâmico espalhando caos no Iraque e na Síria.

A nomeação de Hagel pode ter sido erro de cálculo do presidente Obama e seus conselheiros. O ex-secretário não tinha o know-how da burocracia envolvida na segurança nacional como Bob Gates ou Leon Panetta, a dupla muito mais forte que serviu ao presidente no Pentágono durante o primeiro mandato. Hagel foi um sinal de como a rede de contatos do presidente é pequena no setor de Defesa – sua escolha veio do único círculo que Obama conhecia antes dos primeiros quatro anos na Casa Branca, o Senado. Hagel pode ter sido uma marca bem sucedida, mas não uma escolha correta. Mas ele estava dentro da zona de conforto, ou ao menos era o que se pensava, estando na companhia de Obama, Joe Biden e John Kerry, já que os quatro foram membros do Foreign Relations Committee do Senado.
 
Mas o ex-secretário não é o problema. Claro que ele vinha se mostrando distante, passando boa parte do tempo em viagens. Mas a questão maior é que o atual governo alienou os membros de seu próprio gabinete de forma inédita. Para ilustrar, basta lembrar do trecho escrito por Mark Landler no New York Times comentando que o secretário de Estado, John Kerry, estava tão desconectado da Casa Branca que chegava a lembrar a personagem de Sandra Bullock no filme Gravidade – solta e à deriva.

A alienação de Hagel, a tensão entre ele e a Casa Branca, e a frustração das lideranças militares com as falsos começos, meias-medidas e microgerenciamento que marcaram o tratamento das campanhas na Síria e no Iraque são sinais de problemas muito mais profundos, que estão em como o próprio presidente opera e, sob uma perspectiva de processo, em como seu Conselho de Segurança Nacional (NSC) opera.
 
Em algum momento, a maioria dos presidentes reeleitos dão adeus aos seu pessoal de campanha eleitoral, e passaram a se concentrar em governar. Obama está fazendo o contrário, trazendo seu time mais para perto e criando um algo mais como um cobertor de segurança do que uma equipe de segurança nacional. Susan Rice, sua conselheira para a área, era a passageira número um no time de Obama para o setor de segurança durante a campanha eleitoral – ela liderou esforços e trabalhou durante todo o processo junto com Denis McDonough, atual chefe do Estado Maior.
 
Essa equipe vem alimentando uma dinâmina de “nós contra eles” em relação aos prórpios colegas, começando mas não se limitando apenas aos remanescentes do time da campanha eleitoral de Hillary Clinton. Esse grupo permaneceu tático como equipes de campanha costumam ser, e enxergaram muitas das opções internacionais sob um prisma predominantemente doméstico, criando o cerne dos erros que assombram o gabinete do presidente Obama – desde as divisões entre a Casa Branca e os departamentos de Defesa e Estado, passando pelo blefe de atacar a Síria no ano passado, o tratamento inadequado do escândalo de espionagem da NSA, até a resposta à invasão da Crimeia pela Rússia e à atual situação do Iraque.
 
Obama tem várias opções excelentes que provavelmente vai considerer para chefiar o Pentágono. Michèle Flournoy, antiga subsecretária, teria sido uma escolha melhor lá atrás, quando Hagel foi nomeado, e continua sendo uma ótima alternativa. Outros nomes significativos seriam o ex- vice secretário de Defesa, o brilhante Ash Carter, ou outro que ocupou o mesmo cargo, John Hamre.

Trazer um deles para o Pentágono não vai consertar os problemas mais prfundos dentro do governo. E, sinceramente, qualquer um que receba o convite deve pensar e muito antes de aceitar sem garantias de que a Casa Branca dará a ele ou a ela (e aos comandantes das Forças Armadas) a latitude necessária para cumprir as missões. E francamente, o candidato ao cargo deve perguntar quais mudanças serão feitas no modus operandi do Conselho de Segurança Nacional para assegurar que a concentração de poder naquela instituição inchada seja revertida, e se o atual gabinete que fala tanto de “soluções que envolvam todo o governo” começará a buscar mesmo essas soluções.
 
Novamente, um desafio e uma preocupação maiores pairam sobre todo esse quadro.
 
A questão é que o NSC e a equipe de segurança nacional são sempre um reflexo do que o presidente quer. Se Obama não está disposto a se perguntar como ele precisa mudar para evitar ou mesmo consertar erros como os dos últimos dois anos, não importa quantos secretários venham ou vão.

Se a jogada de afastar Hagel (aparentemente após um cabo-de-guerra sobre se ele deveria sair ou não) for o que parece – um gesto projetado para evitar lidar com os problemas reais da equipe presidencial – então é pior do que uma manobra vazia. É um sinal a mais de um presidente que resiste ao aprendizado ou a encontrar um caminho que faça avaçar realmente os interesses dos Estados Unidos em termos de segurança.