04 de Julho, 2011 - 09:27 ( Brasília )

Geopolítica

Novo cenário na Venezuela


O anúncio de que Hugo Chávez sofre de câncer desenha cenário novo na Venezuela. Há pouco menos de um mês, o presidente foi a Cuba retirar abscesso pélvico até então desconhecido do público. Cercada de mistério e especulações, a ausência se prolongou sob a alegação de que ele estaria em tratamento "sumamente estrito". Mas o calendário e talvez a evolução da enfermidade obrigaram à quebra do silêncio.

Prevista para ocorrer em Caracas amanhã, a cúpula da Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe (Celac) precisou ser adiada em razão das incertezas que desabaram sobre Caracas. O evento reuniria cerca de 30 chefes de Estado e, presidido pelo anfitrião, seria oportunidade ímpar de simbolizar a associação de Chávez com a imagem do libertador Simon Bolívar. O momento era crucial. Em 2012, haverá eleições no país.

Ao contrário do que vem ocorrendo desde 1999, quando o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) assumiu o poder, fato político novo acende sinal amarelo na pretensão continuísta. Pela primeira vez, a oposição conseguiu se organizar e se unificar. Anunciou candidato único, que será escolhido de acordo com o modelo americano. O vitorioso nas primárias disputará o assento no Palácio Miraflores com chance de vitória.

Pesquisas revelam virada na preferência popular. Se a tendência se mantiver e as urnas confirmarem a mudança que parecia distante em decorrência da oposição desunida e de constantes reformas constitucionais destinadas a eternizar o chavismo na condução dos destinos venezuelanos, o caudilho será derrotado — fato inédito na trajetória do coronel que delira construir um confuso socialismo do século 21.

O futuro de Caracas é, na verdade, uma grande incógnita. Não se sabe ao certo o real estado de saúde de Hugo Chávez. O vice-presidente afirmou que o presidente, embora esteja em Havana, continua no exercício pleno do poder. O Exército afastou a possibilidade de golpe. A oposição promete tomar medidas judiciais se o caudilho ultrapassar 180 dias de afastamento do país.

Chávez é um grande ator. Ninguém pode assegurar o comportamento que apresentará daqui para a frente. Diante da perspectiva de ser derrotado, há a possibilidade de não se candidatar. O chavismo sem Chávez perde a coluna vertebral. Abrir-se-á, então, novo capítulo para a Venezuela, mergulhada na inflação, na violência e no desabastecimento. Em suma: o tumor maligno fez incisão profunda na política.