08 de Novembro, 2014 - 11:40 ( Brasília )

Geopolítica

Putin elogia em público pacto entre Hitler e Stalin

Presidente russo relativiza em Moscou o tratado de não agressão de 1939 entre os dois ditadores europeus. Eximindo a URSS de culpa pela invasão da Polônia, ele responsabilizou os britânicos pelas atrocidades de Hitler.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, defendeu publicamente uma opinião polêmica sobre o Pacto Molotov-Ribbentrop, de 1939, também conhecido como Pacto Hitler-Stalin.

Segundo o site alemão Spiegel Online – citando o jornal The New York Times e o diário britânico The Telegraph –, durante um encontro com jovens historiadores em Moscou, na quarta-feira (05/11), Putin declarou que toda pesquisa digna de crédito deveria chegar à conclusão de que o acordo entre os dois ditadores era parte dos métodos de política externa da época.

"A União Soviética assinou um tratado de não agressão com a Alemanha. As pessoas dizem: 'Ah, isso é ruim.' Mas o que há de ruim em a URSS não querer lutar?" A potência russa é acusada de ter dividido a Polônia, mas o chefe do Kremlin argumentou que, na verdade, os poloneses tomaram parte da Tchecoslováquia quando a Alemanha atacou o país.

História revisitada

O acordo em questão, cuja existência Moscou negou até 1989, continua sendo um ponto sensível nas relações entre a Rússia e seus vizinhos, sobretudo a Polônia. Assinado pelo ministro do Exterior do "Terceiro Reich", Joachim von Ribbentrop, e seu colega de pasta soviético, Viatcheslav Molotov, ele garantia à Alemanha que a URSS permaneceria neutra em caso de uma ofensiva contra a Polônia.

Em 2009, na cerimônia pelos 70 anos do início da Segunda Guerra Mundial, em Gdansk, o então primeiro-ministro Putin já havia se manifestado a respeito do Pacto Hitler-Stalin. Ele alegou que na época todos os envolvidos haviam cometido erros, e que o acordo com a Alemanha nazista não fora o único estopim da invasão da Polônia. Por outro lado, classificou todos os acordos fechados entre 1934 e 1939 com o regime nazista como "moralmente inaceitáveis" e "politicamente sem sentido".

As declarações recentes de Putin são bem mais radicais. Ele responsabilizou o então premiê britânico Neville Chamberlain pelas atrocidades de Adolf Hitler. Em 1938, Chamberlain assinou, juntamente com os chefes de governo da Itália e da França, o Acordo de Munique, que permitiu a anexação da Região dos Sudetos pela Alemanha. Segundo declarou Putin no encontro de historiadores em Moscou, ao saber do acordo, o futuro premiê Winston Churchill comentou: "Agora a guerra é inevitável".

Em maio deste ano, Putin lançou uma lei que prevê até cinco anos de prisão para quem tente reabilitar o nazismo na Rússia.
 

Putin propôs dividir Ucrânia com Polônia, diz ex-ministro polonês*

(Reuters) O presidente russo, Vladimir Putin, propôs ao então líder da Polônia que dividissem a Ucrânia entre eles ainda em 2008, afirmou o presidente do Parlamento polonês, Radoslaw Sikorski, em uma entrevista publicada no site norte-americano Politico.

De acordo com Sikorski, que até setembro serviu como ministro das Relações Exteriores da Polônia, Putin fez a proposta durante a visita do primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, a Moscou em 2008.

“Ele queria que participássemos dessa partição da Ucrânia... essa foi uma das primeiras coisas que Putin disse ao meu primeiro-ministro, Donald Tusk, quando ele visitou Moscou."

“Ele (Putin), em seguida, disse que a Ucrânia é um país artificial e que Lwow é uma cidade polonesa, e perguntou por que simplesmente não a repartimos”, teria declarado Sikorski na entrevista de 19 de outubro.

Antes da Segunda Guerra Mundial, o território polonês incluía partes do atual oeste ucraniano, inclusive algumas grandes cidades como Lwow, conhecida como Lviv na Ucrânia.

Segundo Sikorski, que acompanhou o premiê em sua estadia na capital russa, Tusk não respondeu à sugestão de Putin por saber que estava sendo gravado, mas a Polônia jamais expressou qualquer interesse em se unir à operação russa.

"Nós deixamos isso muito, muito claro para eles, não queríamos nos envolver com isso", disse Sikorski na entrevista.

Após a publicação da entrevista, Sikorski disse que não estava inteiramente correta.

"Algumas das palavras foram mal interpretadas", escreveu Sikorski em sua conta no Twitter, acrescentando que a Polônia não participa de anexações.

Nem o Ministério das Relações Exteriores da Polônia, nem oficiais russos estavam imediatamente disponíveis para comentar o assunto.

"Se tal proposta foi feita por Putin, então isso é escandaloso", disse Ewa Kopacz, que substituiu Tusk como premiê, na noite desta segunda-feira em uma entrevista à emissora pública TVP.

Tusk deixou o cargo para assumir uma posição em Bruxelas, na Bélgica.

"Nenhum primeiro-ministro polonês vai participar de uma atividade tão vergonhosa como particionar outro país", disse ela, acrescentando que não tinha ouvido falar sobre essa proposta antes.

O relato de Sikorski não é a primeira sugestão de que a Rússia estava em busca de apoio da Polônia para dividir a Ucrânia.

Após a anexação da península ucraniana da Crimeia pela Rússia, o presidente do Parlamento russo, Vladimir Zhirinovsky, enviou uma carta aos governos de Polônia, Romênia e Hungria propondo uma divisão conjunta do país.

*(Reportagem de Wiktor Szary/Reuters - 20OUT2014)