28 de Outubro, 2014 - 16:00 ( Brasília )

Geopolítica

Após triunfo europeísta em Kiev, rebeldes preparam as próprias eleições

Rússia reconhecerá eleições organizadas por separatistas na Ucrânia

Enquanto os resultados oficiais das eleições legislativas realizadas no domingo na Ucrânia confirmam o triunfo dos partidos europeístas, os separatistas pró-Rússia do sudeste do país se preparam para fazer o próprio pleito no dia 2 de novembro, medida não reconhecida por Kiev.

Com mais de 90% dos votos apurados, as eleições apontam uma vitória da Frente Popular, partido do primeiro-ministro ucraniano, Arseni Yatseniuk, e do bloco do presidente Petro Poroshenko, com 22,16% e o 21,77%, respectivamente.

Segundo dados divulgados pela Comissão Eleitoral, no terceiro lugar aparece o também europeísta Autoajuda, de Andrei Sadovi, prefeito de Lviv, a principal cidade do oeste da Ucrânia, com 10,96% dos votos.

Com a apuração quase finalizada, também ganha destaque o inesperado bom resultado do Bloco Opositor, criado por antigos membros do desmantelado Partido das Regiões, do presidente derrubado Viktor Yanukovich, com 9,36% dos votos, muito mais que o previsto pelas enquetes.

Os principais políticos ucranianos no poder após a revolta no país, Yatseniuk e Poroshenko, começaram a negociar na segunda-feira a criação uma coalizão parlamentar e de governo que permita antecipar um ambicioso programa de reformas.

A essa coalizão poderiam se juntar Sadovi e a ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko, cujo partido Batkivschina conseguiu 5,7% dos votos. No entanto, uma fonte afirmou nesta terça-feira que ainda eles não foram convidados às consultas.

Enquanto são divulgados os resultados finais e as negociações de coalizão avançam, os líderes das autoproclamadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk preparam as eleições locais do dia 2 de novembro, o que já representa um novo motivo de tensão entre Kiev e Moscou, acusada pelas autoridades ucranianas e pelo Ocidente de ajudar os rebeldes com armas e recursos.

O presidente Poroshenko advertiu nesta terça-feira que essas eleições, ilegais para Kiev, prejudicarão o processo de paz aberto com as regiões rebeldes.

"A posição do presidente a respeito das 'pseudoeleições' que os terroristas vão realizar e que nunca serão reconhecidas pelo mundo civilizado, anunciadas pelas autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk, é que colocam todo o processo de paz em risco", declarou o porta-voz de Poroshenko, Sviatoslav Tsegolko, em seu perfil no Facebook.

Tsegolko acrescentou que essas eleições "não só não têm nada a ver com o protocolo de Minsk, de 5 de setembro (quando foi assinado um cessar-fogo entre os rebeldes pró-Rússia e Kiev), mas contradizem totalmente sua letra e seu espírito".

Segundo o acordo assinado na capital de Belarus, no qual foi estabelecida uma trégua nos combates que causaram cerca de quatro mil mortes desde abril, seriam convocadas eleições locais para o dia 7 de dezembro nas duas regiões rebeldes, a fim de escolher seus órgãos de poder.

Os insurgentes responderam rejeitando essa alternativa e convocaram seu próprio pleito para o dia 2 de novembro, além de não participarem das eleições legislativas ucranianas, que foram realizadas no domingo em todo o país.

A Rússia, no entanto, já anunciou que reconhecerá os resultados das eleições de Donetsk e Lugansk.

"Esperamos que as eleições sejam realizadas como foi combinado e certamente reconheceremos seus resultados", declarou nesta terça-feira o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov. Ele também disse que espera que "a manifestação da vontade seja livre e não haja tentativas de frustrá-la".

A Rússia e os autoproclamados dirigentes separatistas entendem que as eleições para escolher os Parlamentos regionais e seus líderes fazem parte dos acordos de Minsk para a regulação do conflito no leste.

Na nova Rada Suprema (Legislativo) ucraniana entrará também, como quinta força política, o Partido Radical, do populista Oleg Liashko, a favor de uma postura mais rígida com os insurgentes pró-Rússia em Donbass, a bacia mineira de Donetsk e Lugansk, com 7,46% dos votos.

Rússia reconhecerá eleições organizadas por separatistas na Ucrânia

(AFP) A Rússia anunciou nesta terça-feira que vai reconhecer os resultados das eleições legislativas e presidenciais de 2 de novembro nas regiões do leste ucraniano controladas pelos insurgentes pró-Rússia, uma decisão criticada por Kiev.

"Esperamos que as eleições sejam realizadas como estão previstas e certamente reconheceremos os resultados", declarou o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, ao jornal Izvestia.

Enquanto os partidos pró-Ocidente que venceram as eleições de domingo na Ucrânia negociam a formação de um novo governo na capital, Moscou lembrou que uma parte do território não está sob controle do Executivo.

Moscou, que segundo Kiev e os países ocidentais, fornece apoio militar aos insurgentes, não havia reconhecido formalmente em maio os referendos de independência realizados pelos separatistas.

Mas, de acordo com Lavrov, trata-se desta vez de "legitimar as autoridades rebeldes", como parte dos acordos de Minsk que estabeleceram um cessar-fogo, em 5 de setembro, para tentar acabar com os combates que deixaram 3.700 mortos no leste ucraniano, segundo a ONU.

Os acordos de paz preveem uma ampla autonomia para as zonas separatistas com um "governo autônomo provisório" e eleições locais, parte de uma descentralização e não de uma independência.

Os separatistas, que não votaram nas legislativas de domingo, não atenderam Kiev, que apresentou a proposta de eleições em 7 de dezembro, e acabaram organizando seus próprios processos eleitorais nas duas "repúblicas" autoproclamadas de Donetsk e Lugansk.

Dimytro Kuleba, membro do Ministério de Relações Exteriores ucraniano, disse à AFP que Moscou está violando o acordo de paz promovido em Minsk.

"A postura da Rússia mina o processo de paz, fragilizando a confiança no país enquanto sócio internacional seguro", declarou Kuleba à AFP.

- Rublo em queda e preços em alta -

A crise ucraniana começou com a destituição do ex-presidente pró-Rússia Viktor Yanukovytch em fevereiro e se agravou com o envolvimento da Rússia, que anexou a península da Crimeia em março e é acusada de estar diretamente envolvida no conflito armado no leste. A situação na Ucrânia provocou a maior divisão entre Moscou e as potências ocidentais desde o fim da Guerra Fria.

A economia russa, abalada por sanções que afetam os grandes bancos e o setor petroleiro, está à beira da recessão. O rublo voltou a registrar um recorde negativo nesta terça em comparação ao euro e ao dólar.

Segundo o ministro da economia Alexei Uliukaev, o fenômeno tem incidência direta sobre os preços, com uma inflação que já supera 8%.

Os embaixadores da União Europeia (UE) se reúnem nesta terça-feira para fazer um balanço da política de sanções em relação à Rússia.

A situação no leste da Ucrânia permanece tensa e os combates foram retomados na segunda-feira, após um fim de semana de relativa calma.

Em Donetsk, combates continuavam sendo travados na área próxima do aeroporto.

- Formação de premiê lidera -

Com 86% dos votos apurados, a vitória eleitoral das forças pró-Ocidente foi confirmada.

A Frente Popular, do primeiro-ministro Arseni Yatseniuk, lidera com 22% dos votos, seguida de perto pelo bloco do presidente Petro Poroshenko (21,7%).

Ambos terão que trabalhar para formar uma coalizão que deve incluir integrantes do Samopomitch (10,9%), um movimento que reúne jovens que participaram dos protestos pró-Europa na Praça Maidan de Kiev, e talvez o partido da ex-primeira-ministra Yulia Timoshenko (5,7%).