13 de Outubro, 2014 - 12:00 ( Brasília )

Geopolítica

Por que as eleições na Bolívia interessam ao Brasil?

Poucos dias antes da eleição presidencial que reelegeu Evo Morales para um terceiro mandato, o presidente disse que a relação com o Brasil é hoje "distante" mas "de confiança"

Marcia Carmo

 

A presidente Dilma Rousseff não visitou a Bolívia em seu primeiro mandato, diferentemente do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil, as declarações de Evo ao canal nacional de televisão Unitel sinalizaram que a tensão vivida entre os dois países na época da nacionalização do setor de hidrocarbonetos, há cerca de oito anos, não está mais no foco da relação bilateral.

"Cada presidente, homem ou mulher, tem suas próprias particularidades, mas não existe nenhum problema. Ela (Dilma) não visitou (a Bolívia), mas existe muita confiança", afirmou o presidente.

As pesquisas de boca-de-urna divulgadas após a votação de domingo indicam que Morales permanecerá mais seis anos à frente do governo, após obter cerca de 60% dos votos na votação de domingo.

As sondagens indicaram que o segundo candidato mais votado, o opositor Samuel Doria Medina, da Unidade Democrática (UD), obteve cerca de 25%.

Missão da Organização dos Estados Americanos (OEA), encabeçada pelo ex-presidente guatemalteco Álvaro Colom, indicou que o processo se levou a cabo dentro da normalidade.

Mesmo antes da divulgação de resultados oficiais, o presidente dedicou sua vitória ao povo boliviano e a líderes da esquerda latino-americana.

"Este triunfo é dedicado a Fidel Castro, dedicado a Hugo Chávez - que em paz descanse -, e a todos os presidentes e governos antiimperialistas e anticapitalistas", discursou, na praça Murillo, em frente ao palácio presidencial.

Se confirmada a vitória, Morales chegará ao fim do seu mandato, em 2020, como o presidente que mais tempo ocupou o poder no país.

Troca no Planalto?

Se a permanência dele à frente da Bolívia é tida como certa, alguns analistas consideraram que uma eventual troca no comando em Brasília poderia ter impacto na relação entre os dois países.

O presidenciável Aécio Neves, do PSDB, disse que pode rever as relações com a Bolívia devido à entrada de drogas produzidas na Bolívia no Brasil.

"Sabemos que esse é um assunto que preocupa o governo da presidente Dilma, mas a ação contra esse fato seria mais ostensiva do que é hoje se Aécio fosse o próximo presidente", disse por telefone o analista de política e de economia Javier Gomez, do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Trabalhista e Agrário (CEDLA), de La Paz.

Outro tema da campanha boliviana que tem relação com o Brasil é o comércio bilateral, já que o Brasil é o principal sócio comercial da Bolívia.

A economia boliviana deve crescer 5,2% este ano, uma das maiores taxas da América Latina, segundo o FMI.

Os recursos da Bolívia aumentaram, segundo economistas, graças ao aumento nos preços dos minerais e do gás e devido à nacionalização dos hidrocarbonetos em 2006, que incrementou o caixa boliviano.

Mesmo os economistas mais críticos afirmam que o governo de Evo tem realizado uma administração econômica "responsável" gastando dentro dos limites da receita que possui.

Mas especialistas bolivianos fazem ressalvas. "A situação econômica melhorou e a pobreza caiu, mas os empregos continuam sendo muito precários", afirmou Gomez.

Leia aqui como a eleição deste domingo pode mexer com os principais itens da agenda bilateral entre Brasil e Bolívia.

Gás

O gás boliviano é enviado principalmente para termoelétricas brasileiras que alimentam o setor industrial do Brasil.

De acordo com cálculos realizados pelo analista energético boliviano Carlos Alberto López, o gás natural que o Brasil importa da Bolívia representa hoje cerca de 27,8% deste consumo interno brasileiro.

Em 2007, segundo ele, esse percentual era maior -representava 44,1%. Cabem as empresas YPFB, estatal boliviana, e Petrobras, a responsabilidade pelo contrato em vigor, que termina em 2019.

Durante a campanha, o vice-presidente do país, Alvaro García Linera, disse que a Bolívia sempre estará "atenta" ao capital estrangeiro, incluindo a Petrobras. Mas não fez qualquer referência a mudanças no contrato.

"O nome da Petrobras foi citado porque são dias eleitorais, mas não se percebe aqui nenhuma mudança do que está em vigor", disse o ex-vice-ministro López.

Segundo ele, a dependência atual das termoelétricas brasileiras do gás da Bolívia está diminuindo.

"O Brasil depende cada vez menos do gás boliviano e no futuro poderia até não precisar importá-lo, de acordo com os avanços e a produtividade das suas reservas do pré-sal [gás e petróleo]”, disse López.

Em 2006, Evo Morales nacionalizou o setor e ocorreu uma crise entre os dois países. Hoje, porém, a Petrobras continua explorando campos de gás na Bolívia e o fornecimento da energia para o mercado brasileiro foi mantido.

Aquela crise, no entanto, deixou autoridades e empresários mais atentos para a necessidade de o Brasil criar alternativas ao gás boliviano.

Drogas

Autoridades brasileiras estimam que entre 60% e 80% da droga produzida na Bolívia têm o Brasil como destino.

Durante a campanha do primeiro turno no Brasil, o candidato Aécio Neves (PSDB) disse que poderia rever as relações com a Bolívia se o país não mudar sua política de combate às drogas.

Respondendo à crítica em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o presidente boliviano afirmou que o país diminuiu as plantações de coca de 32 mil hectares, em 2005, para 23 mil - segundo ele, entre 18 e 20 mil são para consumo legal.

Evo admitiu, no entanto, que há uma debilidade no trânsito do Peru até o Brasil. Afirmou que é preciso trabalhar mais na questão das fronteiras, mas disse que isso já está sendo feito com a presidente Dilma.

Em 2008, Evo Morales expulsou a DEA (agência antidrogas dos Estados Unidos) do país e gerou preocupação entre autoridades americanas e brasileiras.

Críticos da gestão de Morales apontam que a produção da droga aumentou no país. Evo costuma responder que fortaleceu a polícia local e a estratégia nacional de combate à produção da cocaína.

Algumas regiões do país têm autorização para plantar a folha de coca por questões étnicas, defendidas por Evo, que foi líder dos plantadores da folha de coca, os ‘cocaleros’, do país.

Caso Roger Pinto

Após mais de 400 dias asilado na embaixada do Brasil em La Paz, o ex-senador boliviano Roger Pinto Molina, opositor de Evo Morales, chegou ao Brasil em 2013 de forma clandestina com a ajuda de um diplomata brasileiro.

O caso estremeceu a relação entre os dois países e levou à troca de ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, substituído pelo atual chanceler Luiz Alberto Figueiredo.

Para analistas bolivianos, o episódio explica em grande parte a relação “fria” entre os dois governos.

Roger Pinto é hoje "solicitante de refúgio político" no Brasil.

Evo Morales o acusou de envolvimento em um massacre de indígenas em 2008, no Estado de Pando, e de desvio de verbas.

Nesta semana, quando perguntado se o caso Roger Pinto afeta a relação da Bolívia com o Brasil, Evo respondeu que não. Mas fontes do governo boliviano disseram que ainda esperam o retorno do político “para ser julgado” na Bolívia.

Limite de terras

Fazendeiros brasileiros estão entre os principais investidores de soja e outros cultivos na Bolívia, especialmente em Santa Cruz de la Sierra, na fronteira com o Brasil -até recentemente conhecida como principal reduto opositor ao governo de Evo Morales.

A principal preocupação do setor rural, segundo o presidente da Associação de Produtores de Oleaginosas e de Trigo (Anapo), Demétrio Pérez, é com uma medida estabelecida pelo governo de Evo Morales, na nova Constituição do país, que limita o tamanho das propriedades a cinco mil hectares.

Os produtores, incluindo brasileiros, pedem que a medida não seja retroativa. Quem possui fazendas maiores que o limite teme ter que entregar ao governo o excedente de terras.

Segundo Pérez, o governo de Evo ainda não respondeu à demanda do setor.

“O clima de diálogo de Evo com os produtores e o empresariado melhorou. Temos a esperança de que ele atenda nosso pedido depois das eleições. Mas hoje ainda temos incerteza", disse Pérez, de Santa Cruz de la Sierra.

Segundo ele, a Anapo reúne produtores brasileiros, argentinos, japoneses e outros, que acreditam que o limite para o tamanho das propriedades pode afetar seus investimentos no país.