07 de Outubro, 2014 - 13:00 ( Brasília )

Geopolítica

China e a unificação das Coreias – a importância do “para-choque”

Sob a ótica da política externa de Pequim, a Coreia do Norte é uma barreira contra as democracias fortes da Ásia, e também uma distração eficiente para desviar a atenção dos reais objetivos geopolíticos chineses


Robert E. Kelly – Texto do The Interpreter

Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel

Na semana passada, fui convidado pela Korean National Defense University para me apresentar em uma conferência sobre a resposta das potências regionas acerca da unificação das Coreias. É um assunto importante porque, creio eu, é cada vez mais claro para os sul-coreanos, ou ao menos para o governo do país, que a unificação será mais influenciada pelos atores regionais, especialmente a China, do que eles gostariam de admitir. Isso significa que uma absorção total da Coreia do Norte – no estilo da Alemanha pós-muro de Berlim – sem interferência das nações vizinhas é pouco provável. 
 
Em 1990, a União Soviética estava em colapso. Mikhail Gorbachev estava desesperado para aliviar o fardo do aparato militar soviético e cortar os custos no Leste Europeu – Enquanto a região era uma bênção em termos de segurança nos anos 1940 e 1950, já nos anos 1970 havia se tornado um peso econômico grave, assim como muitos dos aliados da URSS, já que quase todos exigiam subsídios, incluíndo a Coreia do Norte. Nesse ambiente, Gorbachev literalmente “vendeu” a República Democrática Alemã por cerca de 75 bilhões de marcos, além da cobiçada garantia por parte do então secretário de Estado americano, Jim Baker, de que a OTAN não avançaria para o leste.

No entanto, a China, atual patrocinadora da Coreia do Norte, não enfrenta esse tipo de restrição. Pequim está em ascensão, não colapso. O país não precisa de dinheiro, e sua capacidade de apoiar um parceiro debilitado só cresce. Sendo assim, argumentei repetidamente durante a conferência que a unificação das Coreias será mais penosa do que foi a da Alemanha. E mais um agravante é que a Coreia do Norte está em condição muito pior do que a RDA estava, e a Coreia do Sul é menos capaz de absorver a outra parte de uma vez do que a República Federal da Alemanha (RFA) era na época em que incorporou a RDA. Além disso, os Estados Unidos hoje não têm no Extremo Oriente nem de longe a mesma influência que tinham na Europa nos anos 1990.

Com isso em mente, expus que manter a Creia do Norte suspensa representa um profundo interesse da China em termos de segurança, e isso vai atrasar a unificação da península ao máximo. Como na maioria dos csaos em se tratando da política externa de Pequim em relação a Pyongyang, acho essa abordagem cínica e manipuladora. A China manipula o suposto pior país do mundo com pouca preocupação acerca da opressão terrível dentro do território. Por um lado enfatiza a importância de sua própria reunificação com Taiwan, e por outro age tacitamente para negar o mesmo processo aos coreanos.

Pequim não deveria se surpeender com a falta de confiança que enfrenta atualmente – é merecida. Mas sob uma perspectiva estritamente realpolitik, a Coreia do Norte serve a pelo menos três propósitos para a China:

1 - A Coreia do Norte é, como os próprios analistas chineses reconhecem abertamente, um “para-choque” entre a China e as democracias robustas da Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos. Estudos na área de Relações Internacionais sobre essas nações-escudo apontam que elas costumam facilitar o equilíbrio entre grandes potências por reduzirem a impressão de uma disputa territorial de soma-zero. O recente conflto na Ucrânia pode ser entendido como a tentativa da Rússia de manter seu para-choque contra a OTAN. Da mesma forma, a China enxerga o valor de Pyongyang como “repelente” contra as práticas democráticas e poder militar da Coreia do Sul, Japão e EUA.

Washington e seus aliados na Ásia não são apenas ameaças militares ao território chinês, esses países representam, enquanto democracias, um desafio para o regime pós oligarquia comunista em Pequim. A presistência da Coreia do Norte mantém viva a ficção útil de que, de alguma forma, nações “comunistas” continuam existindo, e que a democracia não é cada vez mais a norma global, ao menos não na Ásia.

2  - A divisão entre as Coreias desvia a atenção estadunidense do maior problema de polítca externa para a China – o futuro de Taiwan. Em seu longo esforço para encerrar o “separatismo” taiwanês, o primeiro objetivo de Pequim é inibir a intervenção de Washington, seja ela diplomática ou de outra forma.

Enquanto as traquinagens da Coreia do Norte mantiverem o foco americano no nordeste asiático, atenção estratégica e recursos militares não estarão disponíveis para as contingências em Taiwan.
Isso provavelmente explica a resposta frustrantemente morna por parte da China diante dos comportamentos mais ultrajantes por parte de Pyongyang, como o afundamento da corveta ROKS Cheonanda Marinha sul-coreana em 2010, ou a artilharia disparada conta a ilha de Yeonpyeong. Contanto que as ações absurdas da Coreia do Norte não se tornem perigosas demais, elas servem ao corrente interesse chinês de distrair os Estados Unidos.

3  - A divisão entre Norte e Sul dificulta uma aproximação entre Coreia e Japão, o que impede Tóquio e firmar alguma forma de influência na península coreana. A tensão entre Japão e Coreia é obviamente enraizada em questões históricas e territoriais, mas a antipatia em relação ao arquipélago também serve ao interesse interno de construção de identidade nacional da Coreia do Sul. Seul está presa em uma debilitante disputa de legitimidade nacional, em que os nacionalistas agressivos de Pyongyang não hesitam em usar cartas poderosas – o Sul é “Hanguk”, enquanto o Norte e “Joseon”*. Seul é a “colônia ianque” bastarda que vende o legado, folcore e integridade racial coreanos para estrangeiros, já Pyongyang, apesar da pobreza, defende a minjeok** contra seus muitos predadores, inclíndo o Japão e os EUA.

Para contrapor essa narrativa e a confusão que ela gera, a Coreia do Sul se volta contra o Japão em vez do Norte como alvo para a construção de seu próprio nacionalismo. Se Seul não pode ser anti-Pyongyang, então será anti-Tóquio. E a China, especialmente no governo de XI Jiping, claramente manipula o desdém da Coreia pelo Japão. Mas quando Sul e Norte se unirem, o ânimo anti-nipônico não será mais necessário. A subsequente reconciliação com o Japão seria um atraso geopolítico grave para a China.

Se os pontos de 1 a 3 são a parte negativa da unificação, e motivos fortes para que a China ampare a Coreia do Norte, também é preciso notar que Pyongyang aprendeu muito bem a desempenhar seu papel de para-choque:

O país (quase) aliado de Pequim tem uma certa tendência à “condução perigosa”. Isso significa que a Coreia do Norte não segue as diretrizes chinesas de forma confiável – tende a rebater ou mesmo contrariar Pequim para lembrar que é uma nação soberana, ainda que economicamente dependente. Tanto os testes nucleares, apesar das advertências chinesas, quanto a eliminação brutal de Jang Sung Thaek*** pareceram movimentos calculados para, entre outras coisas, lembrar a China de que a Coreia do Norte não é colônia nem satélite. O custo óbvio para a Pequim em termos de segurança nesse caso é que Pyongyang um dia pode ir longe demais em suas provocações e incitar contrataque da Coreia do Sul ou dos Estados Unidos. Isso por sua vez pode escalar em um conflito que pode levar a China de arrasto. A Coreia do Norte pode ser um bom para-choque, mas é também um aliado altamente volátil.

Resumindo, o para-choque é o grande motivo, conforme os participantes da conferência sobre a unificação das Coreias na semana passada colocaram. Havia quatro ao todo – eu, além de dois coreanos e um chinês. Os dois conferencistas coreanos enfatizaram exatamente essa questão, enquanto o colega da China foi notoriamente silecioso quanto questionado a respeito. Eu já havia presenciado esse tipo de postura antes. Comecei a ouvir conferencistas chineses falando sobre o “para-choque” em 2009, mas parece que o termo vem perdendo força, dado o tom obviamente manipulativo que ele carrega.
 
* Hanguk e Joseon são os termos usados no Sul e no Norte, respectivamente, para se referir aos próprios países e à Coreia como um todo.

**“Etnia coreana”, em tradução livre. Termo-base do nacionalismo racial presente no discurso político das duas Coreias. Prevê que todos os coreanos compõe uma nação, raça e grupo étnico com uma cultura comum. O ideal de unidade étnica e cultural foi prticularmente fote como retórica anticomunista durante o governo do presidente sul-coreano Park Chung-hee, pai da atual presidente, Park Geun-hye.

***Figura proeminente do governo de Kim Jong-il. Acusado de ser contrarrevolucionário, foi expulso do Partido dos Trabalhadores da Coreia em 2013. O governo norte-coreano anunciou sua execução no mesmo ano. Era casado com Kim Kyong-hui, irmã de Kim Jong-il e tia do atual líder norte-coreano Kim Jong-un.