28 de Junho, 2011 - 11:48 ( Brasília )

Geopolítica

Antichavistas de mãos atadas

Governo ignora rumores sobre doença e ausência de presidente e deixa oposição atônita

Janaína Figueiredo

Em meio a versões extraoficiais cada vez mais preocupantes sobre os reais problemas de saúde que Hugo Chávez está tratando desde 10 de junho em uma clínica cubana, a oposição venezuelana intensificou ontem suas críticas à falta de informações oficiais e, sobretudo, à decisão do líder bolivariano de continuar governando por ligações telefônicas e mensagens no Twitter. Apesar da pressão opositora, o governo informou apenas que Chávez está se recuperando e ontem conversou com membros do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) para dar novas instruções. De mãos atadas, membros da bancada de 67 deputados antichavistas na Assembleia Nacional admitiram ao GLOBO que "apesar de estar vivendo uma situação inédita e inconstitucional, a única alternativa é denunciar este absurdo nos meios de comunicação".

Após um fim de semana de declarações de membros do governo e familiares do presidente, que só aumentaram o clima de nervosismo, o jornalista Nelson Bocaranda, articulista do "El Universal" e editor do site Runrun.es, voltou a assegurar que Chávez fez duas cirurgias em Havana - a primeira para tratar um abscesso pélvico (informação confirmada pelo governo) e, a segunda, por um câncer de próstata. Segundo ele, o presidente está fazendo radioterapia e também deverá passar por sessões de quimioterapia.

- Chávez já emagreceu 12 quilos e está muito deprimido - afirmou ao GLOBO o jornalista venezuelano, o único que se atreveu a informar com detalhes a saúde de Chávez.

Nos últimos dias, duas pessoas próximas ao líder bolivariano provocaram polêmica com suas afirmações. Adán Chávez, irmão do presidente e governador do estado de Barinas, disse que o partido governante deseja manter o poder por meio de eleições, mas alertou que seus partidários devem estar prontos para a luta armada. Já o ministro das Relações Exteriores, Nicolás Maduro, admitiu que Chávez está encarando "uma batalha por sua vida". Com o mesmo drama, a mãe dele, Elena Chávez, pediu pela saúde de seu filho num ato do PSUV em Barinas, terra natal da família, precedido por uma missa.

Adversários cogitam até hipótese de farsa

A versão que circulou ontem em Caracas é a de que Chávez voltará ao país até o dia 5 de julho e será levado para o Hospital Militar Carlos Arvelo de San Martin, onde nos últimos dias foi registrado um movimento frenético para acondicionar os andares reservados ao chefe de Estado. Depois de ter se ausentado das celebrações pelos 190 anos da Batalha de Carabobo, na semana passada, e de ter confirmado que a Venezuela será representada por Maduro na Cúpula de Presidentes do Mercosul que começa hoje, em Assunção, Chávez tentará prestigiar a cerimônia do próximo dia 5, quando serão comemorados os 200 anos de independência do país.

Para a oposição, a atitude do governo é inadmissível. O prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, acusou o presidente de governar pelo Twitter.

- Exigimos uma resposta, queremos saber o que tem o presidente, porque o país está mergulhado no caos- afirmou a deputada Maria Corina Machado, uma das principais vozes da oposição no Congresso.

Ela lembrou que, além da crise no sistema carcerário, o país está à beira de uma greve de médicos, e os problemas energéticos são cada vez mais graves.

- Se tudo isso é um teatro do presidente, estamos diante de seu pior ato de irresponsabilidade - enfatizou Maria Corina, admitindo as limitações da oposição. - Só nos resta denunciar tudo isso na imprensa.

A tese da farsa também foi levantada ontem pelo governador do estado Miranda, Henrique Capriles Radonski, um dos favoritos para vencer as eleições primárias do próximo mês de fevereiro e disputar a Presidência em 2012. Ele acusou o governo de ter montado uma estratégia para aumentar a popularidade do presidente que, segundo o governador, retornará em grande estilo e será recebido como um herói. A tese opositora, porém, foi descartada por Bocaranda.

- Chávez está doente, o que não quer dizer que o governo não possa usar sua doença com fins eleitorais - opinou o jornalista.