07 de Agosto, 2014 - 23:00 ( Brasília )

Geopolítica

A iminente (?) renovação militar japonesa

Os desdobramentos da nova política militar do Japão poderá levar as empresas japonesas disputarem mercados com equipamentos brasileiros como o KC-390 da EMBRAER


A iminente (?) renovação militar japonesa
E como o Brasil pode ser afetado

 

Stratfor
Tradução e edição: Nicholle Murmel

O Japão do século 21 ainda precisa experimentar um “terremoto” político e social igual ao que definiu a história moderna do país - da Restauração Meiji de 1868 até a derrota na Segunda Guerra, em 1945. Mas as placas tectônicas da política japonesa estão se movendo, e rápido.

O atual primeiro-ministro, Shinzo Abe, anunciou  (30JUN14) uma resolução, que permitirá ao governo reinterpretar a Constituição em vigor nos últimos 60 anos, que baniu a formação de Forças Armadas e as declarações de guerra por parte do país. Assim, há embasamento legal para o retorno do poderio militar nipônico que, na prática, já está em andamento.

Há um mês, Abe traçou uma série de reformas estruturais na economia, na esperança de prover uma fundação sólida a longo prazo para essa renovação. Além desses desdobramentos internos, a diplomacia também renovada e voltada ao Sudeste Asiático, Coreia do Norte, Índia, Rússia e Orente Médio sugere que desde 2012, quando o Partido Liberal Democrata de Abe assumiu o governo, Tóquio começa a assumir uma atitude diferente, tanto em casa quanto no exterior.

Após décadas de relativa timidez política, o Japão agora parece entrar em uma fase mais extrovertida. A impressão é de que o país se prepara para ser novamente relevante através do rejuvenescimento econômico, militar e do poder político. A questão central é se essa renovação pode ser alcançada dentro da ordem atual, pós Segunda Guerra. A estrutura estabelecida na época se baseava em equilibrar as forças do Partido Liberal Democrata, do Keiretsu - conglomerados industriais e financeiros que mantêm laços formais e informais com o governo - e a postura nacional pacifista adotada sob o guarda-chuva da segurança provida pelos Estados Unidos. Porém,  mudar a rota geopolítica japonesa pode exigir uma ruptura com a ordem antiga.

É impossível afirmar o que exatamente causaria essa ruptura. Também não se sabe se a quebra se manifestaria, como antes, com a erupção repentina da sociedade e da política japonesas - o tal “terremoto” da Restauração Meiji e outros períodos históricos. No entanto, todas as esferas da geopolítica nipônica - política interna e externa, economia e assuntos militares - mostram sinais de tensão que deve ser tratados com atenção antes que o Japão consiga se renovar como planejado.

No cenário político, a rara coesão e dinâmica ao redor da volta de Abe e seu partido ao poder em 2012 contraria a realidade incerta e fraturada da vida partidáia doméstica. Os partidos regionalistas de direita que ganharam evidência em 2011 e 2012 perderam visibilidade, mas provavelmente retornarão, buscando revanche e assumindo outra face, à medida em que o apoio ao Partido Liberal Democrata aumenta.

Economicamente, o Japão enfrenta desafios de curto e longo prazo ao mesmo tempo. O mais evidente  é o declínio demográfico, que representa talvez a única grande restrição estrutural ao movimento de revitalização do país.

Em termos militares, o Japão ainda está relativamente seguro e em vantagem do ponto de vista estratégico. A expansão das Forças Armadas chinesas foi desencadeada por motivos enraizados e necessidades inexoráveis semelhantes às que levaram ao imperialismo japonês no século 20, e e representa sim riscos de longo prazo à segurança e aos interesses territoriais de Tóquio. Porém, num futuro próximo as agressões por parte de Pequim no Mar do Sul e no Mar do Leste da China significam não tanto uma ameaça direta aos interesses nipônicos, mas uma oportunidade. Já buscando acabar com décadas de mal-estar econômico e sair do ponto-morto político, o Japão tem a chance de reinventar seu papel no Leste da Ásia não apenas como subordinado aos Estados Unidos, mas um parceiro cada vez mais autônomo de Washington. O movimento atual de “reinterpretar” a Constituição nacional tem como objetivo permitir ao país mais flexibilidade para mobilizar e enviar forças em situações nas quais seu território não está diretamente ameaçado. Esse é apenas o começo da reinvenção japonesa. Mais do que qualquer coisa, trata-se de um esforço para habituar o mundo e o público interno a essa mudança de postura no cenário global.

O que ainda não está claro é quão longe o governo japonês está disposto a ir nessa empreitada de reiniciar e reconstituir suas Forças Armadas. Até certo ponto, a resposta dependerá do que acontecer na vida política e econômica do país nos próximos anos e décadas, especialmente quando o declínio demográfico se consolidar, por volta dos anos 2020 e 2030. É importante considerar também fatores externos como a trajetória da modernização bélica da China, que, por sua vez, depende da capacidade de Pequim  para manter a estabilidade política e econômica, por meios ainda desconhecidos.

A expansão marítima chinesa veio como uma bênção velada às aspirações japonesas ao se tornar o motivo da recente militarização do país. Por enquanto, é exatamente isso que desejam Japão e Estados Unidos, patrocinador de Tóquio na região. Mas à medida que a reformulação das forças nipônicas prosseguir, e especialmente se a atenção da China se voltar para dentro enquanto Pequim luta contra a desaceleração da economia nos últimos anos, a renovação militar e nacional do Japão pode adquirir uma natureza totalmente diferente.

Nota DefesaNet

Alguns itens práticos já começaram a acontecer, mesmo antes do anúncio de 30 de Junho. Anteriormente naquele mês empresas japonesas de material de Defesa expuseram na EUROSATORY, maior feira de armamentos terrestres do mundo.

Alí participou um grupo de 14 empresas japonesas, entre outras: Fujitsu Ltd, Kawasaki Heavy Industries, Mitsubishi Heavy Industries e Toshiba Corporation. Esta presença foi possível após o governo ter liberado a exportação de equipamentos de defesa produzidos no Japão.

Porém, o Wall Street Journal,  edição de 20JUL14, apresenta um movimento na área de defesa muito mais abrangente.

Aeronave de Patrulha Marítima Kawasaki P-1 está sendo oferecida à RAF como substituto do Nimrod retirado de serviço há quatro anos


Toru Hotchi, membro do Ministério da Defesa do Japão, responsável pela vendas internacionais de material de defesa declarou:  "que a Inglaterra está procurando um novo avião de patrulha marítima e está considerando o  P-1, feito pela Kawasaki Heavy Industries Ltd. Ele também afirmou que o Japão está procurando ter uma fatia maior no caça F-35.

A Royal Air Force procura um novo avião de patrulha marítima após a retirada de serviçio do Nimrod, há quatro anos. Competem com o japonês P-1, o americano Boeing P-8 Poseidon  e o europeu  Airbus C295.

Poderia o Japão no esforço de competição confrontar as empresas americanas e a Boeing a principal parceira na área aeronáutica nos Estado Unidos?

O Japão, junto com a Inglaterra e a Austrália já estão em trabalho de parceria no caça F-35. A empresa japonesa Mitsubishi Heavy IndustriesLtd, que produziu o famoso caça Zero na Segunda Guerra Mundial, realizará a montagem final dos 42 caças F-35 para a Forças de Auto Defesa do Japão

Mas o Japão busca uma maior participação industrial no projeto que é liderado pela americana Lockheed Martin Corp. Se alcançado um acordo as empresas japonesas poderão fornecer peças e serviços aos caças  F-35 destinados a outros países.

Lembrar que os japoneses queriam comprar o F-22 Raptor o que foi negado pelos americanos devido aos segredos industriais do projeto da aeronave Stealth (Discreta)

Uma extrapolação pode levar a que a Lockheed Martin ajude os japoneses a completar o projeto da aeronave de transporte Kawasaki C-2,  e assim enfrentar o projeto da da EMBRAER Defesa & Segurança KC-390, que terá o apoio da americana Boeing no marketing internacional.