08 de Julho, 2014 - 09:30 ( Brasília )

Geopolítica

Separatistas se preparam para defender leste de novas incursões ucranianas


Separatistas pró-russos lançaram morteiros e tiros de armas leves contra forças de Kiev em diversos pontos do leste da Ucrânia, na madrugada de domingo (6) para segunda-feira. Os ataques esparsos contra postos militares são uma resposta à retomada, no domingo, de diversas cidades pelo governo - entre elas Slaviansk, que foi recuperada sem combate.

A operação militar ucraniana do fim de semana foi classificada pelo presidente Petro Porochenko como uma "virada no conflito", que prometeu intensificar os ataques no leste. Na manhã de segunda-feira, os rebeldes se preparavam para defender Donetsk, seu principal reduto, e capital da Bacia do Donets, depois do que vários dirigentes separatistas chamaram de recuo tático em Slaviansk.

Mas a cidade amanheceu calma, sem grandes preparativos militares nem a presença ostensiva de homens armados nas ruas do centro, onde pouca gente circulava. Os transportes coletivos funcionavam normalmente, mas diversos restaurantes e lojas estavam fechados, os caixas-eletrônicos estavam fora de serviços e, em alguns bairros, faltava água quente.

Confronto nos arredores de Donetsk

De acordo com os insurgentes, houve confrontos em Saur-Moguila, uma colina estratégica próxima à cidade, onde eles teriam impedido o avanço do batalhão de voluntários pró-Kiev "Azov". O incidente não foi confirmado pelas autoridades ucranianas.

O potencial militar dos rebeldes - que contariam com alguns milhares de combatentes apoiados por voluntários recrutados na Rússia - é difícil de calcular. Durante o fim de semana, testemunhas viram centenas de homens entrarem na cidade em veículos, entre eles blindados e caminhões equipados com baterias anti-aéreas.

Percalços militares

Apesar do controle relativamente fraco que os rebeldes exercem nas fronteiras, o exército ucraniano, a guarda nacional e os grupos de mercenários que os acompanham têm na retomada da cidade uma tarefa árdua.

Petro Porochenko se comprometeu solenemente a não colocar em risco os cerca de um milhão de habitantes da cidade, o que significa evitar a todo custo uma guerrilha urbana. Entrar na cidade com tanques exporia as forças de Kiev à artilharia anti-blindagem do rebeldes. Em Laviansk, o exército apreendeu grandes volumes de armamentos deste tipo.

Sitiar a cidade seria uma alternativa perigosa dos pontos de vista militar e, principalmente, político, porque faria a população refém, aumentando o risco de ela se juntar à causa separatista. A julgar por uma manifestação a favor do chefe rebelde Igor Strelkov - que Kiev acusa de ser oficial da inteligência russa -, o apoio aos pró-russos não é maciço. Apenas 2 mil pessoas protestaram no centro da cidade neste domingo.

De acordo com o antigo ministro interino da Defesa, Mykhailo Koval, a estratégia desenvolvida por Porochenko é estabelecer um "embargo completo" a Donetsk e Lugansk, outra cidade rebelde, que forçaria os separatistas a abandonar as armas.

Diplomacia em segundo plano

Por enquanto, uma solução diplomática para o conflito que já deixou quase 500 mortos em três meses parece distante. No domingo, representantes da Ucrânia, da Rússia e da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa (OSCE) se encontraram em Kiev, mas as tratativas não levaram ao principal objetivo dos interlocutores: estabelecer um cessar-fogo durável entre as partes.

Nesta segunda-feira, o chefe da diplomacia alemã, Frank-Walter Steinmeier, voltou a pedir que o governo ucraniano dialogue com os separatistas: "Ainda que a situação no leste da Ucrânia tenha evoluído a favor dos serviços ucranianos de segurança, não haverá solução puramente militar, principalmente enquanto a maioria dos separatistas continuar refugiada em Donetsk", afirmou. "É essencial que se estabeleça um cessar-fogo bilateral e incondicional o mais rápido possível".

Extensão da prisão de Oleg Sentsov

Nesta segunda-feira, a Justiça russa decidiu prolongar até o dia 11 de outubro a prisão provisória do cineasta ucraniano Oleg Sentsov, figura emblemática do movimento de contestação que levou a deposição do presidente pró-russo Viktor Yanukovich.

O diretor de 38 anos está na prisão moscovita de Lefortovo desde maio, quando foi preso em sua casa em Simferopol, na Crimeia, que votou sua anexação à Rússia em um referendo contestado pela comunidade internacional.

De acordo com a porta-voz do tribunal Lefortovski, Iulia Skotnikova, "uma nova prorrogação da detenção de Oleg Sentsov não está descartada. Ao lado de outros três indivíduos, ele pode ser condenado a até 20 anos de prisão, sob as acusações de "terrorismo", "organização de grupo terrorista" e "tráfico de armas".

Vários cineastas russos, do liberal Andrei Prochkin ao conservador Nikita Mikhalkov, pediram a libertação do colega. Em 11 de junho, cerca de 20 diretores e produtores europeus, como o espanhol Pedro Almodovar, o finlandês Aki Kaurismäki, o francês Bertrand Tavernier, o alemão Wim Wenders e os britânicos Ken Loach, Stephen Daldry e Mike Leigh, expressaram sua preocupação com Sentsov em carta enviada ao presidente Vladimir Putin.