02 de Maio, 2014 - 10:25 ( Brasília )

Geopolítica

Moscou celebra o 1º Maio à soviética e faz pairar uma sombra sobre ajuda do FMI à Ucrânia

Na Praça Vermelha houve uma manifestação com 100 mil pessoas, de tom nacionalista. No Leste da Ucrânia, os pró-russos continuaram a conquista do poder, enquanto Putin disse a Merkel que Kiev tem de retirar todas as suas tropas da região.

Cerca de 100 mil pessoas participaram na manifestação do 1º de Maio na Praça Vermelha, com cartazes de Vladimir Putin e slogans patrióticos. Como nos velhos tempos da União soviética, e pela primeira vez desde 1991, quando se desmembrou o império comunista, a manifestação foi organizada pela câmara de Moscou. Na Ucrânia, a alegria pela aprovação do empréstimo de 17 mil milhões do FMI foi temperada pelo ameaça de que será "reformulado" se o Leste do país for dado como perdido.

“Esta manifestação recorda-me o país em que nasci, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas”, disse um homem corpulento a um repórter do jornal Guardian, que se identificou apenas como Boris.

O ambiente era de saudosismo e de intenso orgulho nacionalista, exacerbado pela anexação da Crimeia e pelo que se está a passar no Leste da Ucrânia – em que homens armados, pró-russos, estão a assumir o controlo dos edifícios governamentais, exigindo um referendo sobre a independência. O Governo provisório ucraniano reconheceu na quarta-feira ter perdido o controlo sobre a situação e anunciou o regresso ao serviço militar obrigatório, prevendo o pior.

O empréstimo de 17 mil milhões de dólares do Fundo Monetário Internacional à Ucrânia recebeu finalmente luz verde em Washington na noite de quarta-feira – um sinal positivo quando tudo parecia estar correr mal. Mas quinta-feira o FMI avisou que este pode vir a ser “reformulado” se Governo provisório – ou o que sair das eleições de 25 de Maio, que podem não se realizar em todo o território ucraniano – não provar que controla todo o território da Ucrânia.

“O conflito poderá enfraquecer as receitas orçamentais e pôr fortemente em risco das perspectivas de investimento”, avançou o FMI, no comunicado em que anuncia o seu passo atrás. As províncias do Leste (Donetsk, Lugansk e Karkhovrepresentam mais de 21% do Produto Interno Bruto da Ucrânia e 30% da sua produção industrial

A estratégia russa de desestabilização da Ucrânia parece correr sobre rodas.

No Leste da Ucrânia prosseguia o avanço das forças pró-russas. Em Donetsk, onde controlam praticamente toda a cidade, assaltaram o edifício onde funciona o Ministério Público. Segundo Bojan Pancevski, correspondente do jornal britânico Sunday Times, os homens armados que invadiram as instalações roubaram de tudo, desde computadores e processos até gelado que estava num frigorífico no gabinete do procurador.

O poder naquela região caiu de vez nas mãos de homens armados e líderes locais como Denis Pushilin – o autoproclamado líder da república popular de Donetsk, de 33 anos, cuja maior notoriedade, até ao início de Abril, era ser o rosto na Ucrânia do maior esquema de fraude em pirâmide jamais criado no espaço soviético, descrevia o jornalista do Le Monde Piotr Smolar. Há inúmeros vídeos na Internet feitos pelo próprio Pushilin que o provam.

Na Crimeia, onde está sediada a Frota do Mar Negro russa, cerca de 60 mil pessoas desfilaram com bandeiras russas e inúmeros cartazes com o retrato de Putin, celebrado como um herói em Sinferopol, capital administrativa da península que foi anexada pela Federação Russa, após o referendo de 16 de Março – que não foi reconhecido internacionalmente. Nos cartazes liam-se coisas como “Nós somos a Rússia” e “Putin é o nosso Presidente”, relata a AFP.

Ao mesmo tempo que na Rússia Putin organizava a celebração do orgulho nacional, respondia à chanceler alemã Angela Merkel, que o contactou telefonicamente, que Kiev tem de retirar todos os seus militares do sudoeste do Ucrânia. Só isso poderá fazer com que se resolva a situação de facto de haver homens fortemente armados pró-Moscovo – apoiados, segundo os novos poderes ucranianos e observadores ocidentais, por militares russos – barricados nos órgãos de poder regionais.

Só que nada garante que a retirada dos militares ucranianos resolva alguma coisa. O acordo negociado em Genebra entre Kiev, Moscovo, os Estados Unidos e a União Europeia não foi respeitado no terreno por estas verdadeiras guerrilhas.

Enquanto isso, os manifestantes na Praça Vermelha traziam balões brancos, azuis e vermelhos, bandeiras russas e cartazes de exaltação nacional e a Putin: “Tenho orgulho no meu país” diziam uns, e “Putin tem razão”, diziam outros. Havia até os que apelavam ao desenvolvimento económico da mais nova aquisição da Russia: “Vamos passar férias à Crimeia.”

“Queremos fazer renascer as nossas antigas tradições. São boas e agradam a toda a gente. Estas festas sempre fizeram falta ao povo”, disse à AFP Ludmilla, uma funcionária pública que participou no desfile.