04 de Abril, 2014 - 10:25 ( Brasília )

Geopolítica

Forças de segurança do Peru estão derrotando Sendero Luminoso


Malcolm Alvarez-James

A intensificação das ações de erradicação de plantações e contra o tráfico de drogas realizadas pelas forças de segurança do Peru levou a uma série de ataques desesperados, mas ineficazes, dos insurgentes do Sendero Luminoso contra postos avançados militares e trabalhadores civis.

Em 16 de fevereiro de 2014, terroristas do Sendero Luminoso na região de Cusco atacaram um posto avançado do Exército que guarnecia um acampamento de trabalhadores de um gasoduto. Os agressores atiraram e feriram um funcionário civil. Nos dias seguintes, rebeldes fizeram ofensivas contra várias bases de contrainsurgência do Exército na região vizinha, Ayacucho, abrindo fogo com metralhadoras, mas sem conseguir matar ou ferir soldados ou civis.

Os ataques ocorreram na remota e inóspita área conhecida como VRAEM, região composta pelos Vales dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro, no sudeste do Peru. O VRAEM é a principal região produtora de coca no Peru. Estima-se que os remanescentes dos antes poderosos insurgentes do Sendero Luminoso atualmente não passem de poucas centenas de guerrilheiros, que controlam o cultivo da planta da coca e o tráfico de drogas na região.

O VRAEM é uma rota vital para o transporte de cocaína através da Bolívia em direção ao crescente mercado brasileiro, assim como uma importante fonte de cocaína para os cartéis de drogas mexicanos, especialmente o Cartel de Sinaloa liderado por Joaquín “El Chapo” Guzmán. As forças de segurança mexicanas capturaram El Chapo em fevereiro de 2014.

Reação violenta contra ação antidrogas

O aumento dos ataques desesperados do Sendero Luminoso é uma reação dos insurgentes à intensificação das ações antidrogas do governo na região, diz Erubiel Tirado, diretor do Programa de Estudos de Segurança Nacional da Universidad Iberoamericana (UIA) na Cidade do México.

As forças de segurança peruanas marcaram diversas vitórias significativas contra o Sendero Luminoso na região do VRAEM nos últimos meses. Em agosto de 2013, mataram Orlando Alejandro Borda Casafranca, também conhecido como “Camarada Alipio”, o segundo no comando do Sendero Lumnoso no VRAEM, e Marco Antonio Quispe Palomino, o “Camarada Gabriel”, o quarto no comando, durante uma operação que teve a cooperação de um ex-traficante de drogas que se voltou contra o grupo insurgente.

Em dezembro de 2013, soldados das Forças Especiais utilizaram explosivos de alta potência para explodir 20 pistas de pouso secretas no VRAEM, que eram utilizadas para transportar drogas por via aérea para a Bolívia e depois para o Brasil.

Forças de segurança capturam e matam líderes do Sendero Luminoso

O êxito que o governo tem obtido na região do VRAEM é resultado de bem-sucedidas ações anteriores contra o Sendero Luminoso em outras regiões do país. Por exemplo, uma ofensiva governamental de dois anos no Vale do Alto Huallaga, na região central do Peru, resultou em 2012 na captura de Florindo Eleuterio Flores Hala, também conhecido como “Camarada Artemio”, líder da facção norte do Sendero Luminoso. Um juiz sentenciou Camarada Artemio à prisão perpétua por terrorismo, narcotráfico e lavagem de dinheiro.

O governo enfraqueceu a facção norte do Sendero Luminoso em dezembro de 2013, quando agentes da Brigada Especial de Inteligência – composta por membros das Forças Armadas e da Polícia Nacional do Peru (PNP) – prenderam Alexander Dimas Fabián Huamán, conhecido como “Camarada Héctor” e sucessor de Camarada Artemio.

Em 13 de março de 2014, as forças militares e da Polícia Nacional peruanas capturaram Santiago Jairo Díaz Vega, o “Camarada Percy”, que estava tentando reconstruir as forças do Sendero Luminoso no Vale do Huallaga, segundo reportagens da imprensa.

Sendero Luminoso está enfraquecido

Em consequência dessas e outras capturas, o Sendero Luminosa já não é considerado uma força viável no Vale do Alto Huallaga. O presidente do Peru, Ollanta Humala, disse que o Sendero Luminoso será “extinto” na região – deixando o VRAEM no sudeste do Peru como a única área significativa de operações do grupo insurgente.

A meta do governo para o ano de 2014 é erradicar 75% das plantações de coca e destruir pistas de pouso ilegais na região do VRAEM, de acordo com Carmen Masias Claux, presidente da Comissão Nacional para o Desenvolvimento e a Vida sem Drogas (DEVIDA). Ao destruir as plantações de coca e a infraestrutura do narcotráfico na região, o governo espera privar os guerrilheiros dos lucros obtidos com o narcotráfico que financiam suas atividades criminosas.

A ofensiva na região do VRAEM faz parte de uma ampla ação sem precedentes das autoridades peruanas, para erradicar um total de 30.000 hectares de plantações de coca em 2014. Em 2013, as forças de segurança peruanas destruíram um recorde de 22.000 hectares de cultivo de coca.

O grupo insurgente Sendero Luminoso surgiu em 1980 como uma organização inspirada no comunismo em oposição ao governo, que ficou conhecida por suas ações brutais contra as forças de segurança e as comunidades rurais. Os grupos sindicais recusaram-se a seguir sua liderança. A Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR) do Peru estimou que os rebeldes do Sendero Luminoso tenham matado mais de 30.000 pessoas entre 1980 e 2000, por meio de assassinatos, carros-bomba, massacres e outros atos violentos. Em 1992, as forças de segurança capturaram o fundador do Sendero Luminoso, Abimael Guzmán, também conhecido como “Presidente Gonzalo”.

As ações de contrainsurgência das forças de segurança fragilizaram significativamente o Sendero Luminoso nos últimos anos. O grupo sofreu uma divergência interna nos últimos anos e dividiu-se em duas facções, uma no norte e outra no sul.

As autoridades avaliam que poucas centenas de guerrilheiros do Sendero Luminoso continuem ativos. Eles abandonaram em grande parte seus objetivos políticos. O Sendero Luminoso atua em várias práticas criminosas, como extorsão, extração ilegal de madeira e, principalmente, o narcotráfico, segundo autoridades.

O Sendero Luminoso trabalha com traficantes de drogas locais, supervisionando o cultivo e a colheita de coca, protegendo laboratórios de processamento de drogas e pistas de pouso, além de fornecer serviços de transporte. Os narcotraficantes pagam aos membros do Sendero Luminoso US$ 5.000, além de garantir armas e equipamentos, para cada tonelada de cocaína que o grupo rebelde ajuda a transportar, de acordo com reportagens publicadas.

Forças de segurança permanecem vigilantes

Embora o Sendero Luminoso não seja mais tão forte, o governo peruano precisa permanecer vigilante no combate ao grupo insurgente, diz Tirado.

As forças de segurança devem permanecer vigilantes, destaca Tirado.

“O governo peruano precisa fortalecer mais suas capacidades de inteligência na luta contra todos os tipos de atividades criminosas”, avalia Tirado. “As forças de segurança têm enfrentado muitas complexidades na luta contra as organizações criminosas transnacionais. As autoridades devem focar sua estratégia e trabalhar conjuntamente para combater essas organizações criminosas.”

As forças de segurança não serão afetadas por ataques terroristas, diz Carmen, da DEVIDA.

“Nós entraremos na região do VRAEM esteja o Sendero Luminoso lá ou não”, afirmou Carmen, de acordo com informações divulgadas na imprensa. “O custo social sempre deve ser avaliado, mas nós não podemos esperar que o terrorismo acabe antes que nós tomemos uma atitude.”

Julieta Pelcastre contribuiu com esta reportagem.