10 de Março, 2014 - 10:00 ( Brasília )

Geopolítica

O PROSUB do Irã

O programa de desenvolvimento de submarinos iraniano produz seu primeiro submarino costeiro, mas automação e recursos técnicos do navio permanecem uma incógnita

O PROSUB do Irã

 
 

Roberto Lopes
Jornalista especializado em assuntos militares.
Em 2000 graduou-se em Gestão e Planejamento de Defesa
no Colégio de Estudos de Defesa Hemisférica
da Universidade de Defesa Nacional dos Estados Unidos, em Washington.
Em abril de 2012 lançou o livro “O Código das Profundezas,
Coragem, Patriotismo e Fracasso a bordo dos Submarinos
Argentinos nas Malvinas” (Ed. Civilização Brasileira).
 

 

A 16 de fevereiro passado a tevê estatal de Teerã apresentou a seu público imagens inéditas da mais nova maravilha da indústria militar iraniana: o submarino de ataque classe Fateh (Conquistador).

Como é comum nos eventos propagandísticos desse tipo, organizados pelo Ministério da Defesa do Irã, as informações técnicas são poucas e imprecisas. O novo barco parece medir uns 40 metros de comprimento, e deslocar entre 500 e 600 toneladas.

O “Fateh” é o irmão mais novo e poderoso de uma família de mini-submarinos desenvolvida no Irã a partir do famoso modelo italiano Cosmos SX-756, de 100 toneladas, que o governo de Roma vendeu à Marinha do Paquistão.

Mas se todas as conclusões a que chegaram analistas ocidentais – a partir do estudo de imagens de televisão, fotografias e declarações de autoridades iranianas – estiverem corretas, esse navio já não pode mais ser classificado como um mini-submarino, e sim como um submarino costeiro – embarcação militar de uso em águas restritas, largamente apreciada entre algumas marinhas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), como a alemã.

O programa iraniano de desenvolvimento de submarinos ganhou força em 1996, quando Moscou anunciou a suspensão do fornecimento de submersíveis a países aliados, em função do grave enfraquecimento de sua própria frota. Nesse momento, ficou claro para Teerã: o Irã precisava desenvolver a capacidade de produzir os seus próprios desenhos de submersíveis.

O primeiro resultado positivo dessa opção estratégica foi o mini-submarino classe Ghadir (Qadir, no idioma farsi), de 120 toneladas e 18 tripulantes, que começou a ser transferido para o setor operacional da esquadra do Irã em 2005, e continuou a ser entregue até o ano de 2012 – época em que um lote de 21 unidades foi completado.

Inspirado na classe Cosmos, o “Ghadir” – a julgar pelas informações oficiais liberadas por Teerã – representava um inegável passo adiante. O projeto original italiano prevê que um mini-submarino transporte apenas minas navais e mergulhadores de elite; o “Ghadir” teria sido equipado com dois tubos lançadores de torpedos.

É possível que as últimas unidades da classe Ghadir tenham se beneficiado de um acordo entre os governos de Teerã e Pyongyang. Em 2007, a República Democrática Popular da Coréia do Norte transferiu para a Marinha iraniana quatro de seus submarinos classe Yugo, de 21 metros de comprimento e 90 toneladas. Apesar do pequeno valor militar dessas embarcações – e de algumas delas só conseguirem transportar torpedos presos, de forma um tanto improvisada, ao casco externo (!) –, elas foram recebidas de bom grado pelos engenheiros navais iranianos, que as testaram, desmontaram e estudaram meticulosamente.

Vinte anos atrás, especialistas navais americanos e da Aliança Atlântica interpretaram a opção do Irã pelos mini-submarinos como um sinal evidente da limitada qualificação da indústria naval da nação persa para se aventurar em projetos de maior valor militar.

Porém, com o decorrer do tempo – e do agravamento da tensão Ocidente versus Teerã – ficou claro que a formação de uma flotilha de submersíveis de tamanho (e potencial ofensivo) diminuto podia corresponder a uma restrição de ordem tática: a identificada por hidrógrafos iranianos, de que a cavidade submarina representada, na superfície, pelo Golfo Pérsico, é estreita demais para aceitar a navegação de submarinos acima das 1.000 toneladas.

Segundo essas avaliações, apenas um terço das águas do Golfo podem ser percorridas pelos submersíveis tipo U-209, desenhados, na virada dos anos de 1960 para a década de 1970, pelo escritório alemão IKL – barcos com tonelagem acima das 1.100 ou 1.200 toneladas.  

O “Fateh” seria comparável ao modelo U-205 (e sua variante eletronicamente mais bem dotada, o U-206) incorporado logo no início da década de 1960 pela Força Naval da então Alemanha Ocidental.

O desenho-base do U-250, de 44 metros de comprimento, 22 tripulantes e oito tubos lança-torpedos – cada um equipado com um único torpedo (não havia espaço para torpedos reserva) –, aproveitava aquilo que de inovador e tecnicamente avançado os projetistas navais alemães haviam concebido para os últimos modelos de submarinos construídos pelo 3º Reich, entre 1943 e 1945. Mas seu casco muito menos anguloso, representava um extraordinário avanço sob os aspectos de navegabilidade e manobra – ou seja, facilidade para adotar procedimentos de evasão contra torpedos inimigos, além de agilidade para mergulhar e subir à superfície. Além disso, seus paióis de alimentos e tanques de combustível lhe asseguravam uma disponibilidade para patrulha entre três e quatro semanas.

Estará o desempenho do classe Fateh, efetivamente, próximo disso?   

Antes do “Fateh” os iranianos tentaram alcançar o sucesso com o projeto do “Nahang”, um barco de 400 toneladas e planos derivados do “Ghadir”. Mas apesar de ter sido declarado pronto em 2006, o “Nahang” nunca pôde ser considerado plenamente operacional.

Esse submersível não foi seguido por nenhum outro barco do mesmo projeto, e em 2012 ainda passava a maior parte de seu tempo no dique seco, parcialmente desmontado e freqüentado apenas por técnicos da indústria naval iraniana.

Apesar dessas dificuldades, os almirantes do Irã pediram aos seus engenheiros que lhes preparassem uma classe de submarinos de maior tonelagem, para operar nas águas de acesso ao Golfo Pérsico.

A resposta que obtiveram foi o programa Qaaem, de um submarino de 1.200 toneladas, cuja execução já completou o seu sétimo ano, sem que haja uma data conhecida para o seu término.

Nesse meio tempo surgiu o “Fateh”, um barco cinco vezes maior que o “Ghadir”, 50% mais pesado que o fracassado “Nahang” e, aparentemente, bem menos ambicioso que a classe Qaaem.

É evidente que o programa de submarinos do Irã luta para contornar os problemas impostos pelo embargo ocidental ao fornecimento de equipamentos militares a Teerã.

A indústria naval local se socorre, frequentemente, da cooperação de especialistas estrangeiros. Os mais presentes são os experts russos e paquistaneses, mas o Irã já recebeu contribuições de consultores chineses, e até de engenheiros norte-coreanos. O submarino classe Ghadir, por exemplo, guardaria certa similitude com o modelo Sang-O, construído na Coréia do Norte.

A esquadra iraniana dispõe de três submarinos de 2.300 toneladas da classe Kilo 877 – projeto 636 russo – mas essas embarcações concebidas para navegações de longo alcance são tão grandes e complexas, que a simples redução de sua parafernália para um modelo com a metade do tamanho do Kilo, como o Qaaem, torna-se tarefa bastante complicada. E que oferece riscos imensos de erro técnico.

Diante desse esforço um tanto fragmentado, analistas americanos e europeus estimam que o “Fateh” apresente limitações importantes nos campos da automação, da integração de sensores, dos recursos para o sistema de combate e do nível de ruído quando em operação.

Não obstante isso, a Marinha dos Estados Unidos e a Otan têm estudado técnicas e procedimentos de detecção e defesa contra o potencial de ataque dos novos modelos de submersíveis de baixa tonelagem. Especialmente em águas costeiras – a área de conforto do misterioso “Fateh”.