08 de Janeiro, 2014 - 10:18 ( Brasília )

Geopolítica

Nova instabilidade no Oriente Médio é desafio para os EUA


Por Gerald F. Seib | The Wall Street Journal 
 
Está ficando claro que a Primavera Árabe foi além de abalar as estruturas de poder do Oriente Médio. Ela deflagrou uma transformação total na região, que reduziu a influência americana e acabou compelindo os Estados Unidos a repensar sua estratégia numa área que, por meio século, foi considerada essencial para os seus interesses. 
 
A guerra civil da Síria está se expandindo para o Líbano e o Iraque, enfraquecendo os governos de ambos e provocando conflitos paralelos entre grupos armados sunitas e xiitas. O governo militar do Egito está se tornando mais autoritário e se colocando fora do alcance da influência americana. A Líbia deixou de ser um país bizarro, mas no fundo estável, governado por um ditador e virou um lugar sem controle de ninguém. O Iêmen, por sua vez, é um playground de extremistas islâmicos. E as monarquias do Golfo Pérsico, embora ainda estáveis, estão assustadas. 
 
Tudo isso representa um virtual colapso das estruturas de poder do mundo árabe. Como observou Aaron David Miller, um assessor de longa data do Departamento de Estado dos EUA para o Oriente Médio e hoje vice-presidente do centro de estudos Wilson Center: "Os três países mais relevantes do Oriente Médio hoje - Turquia, Irã e Israel - não são árabes." 
 
Os acontecimentos equivalem a um terremoto numa região cuja estabilidade foi por décadas garantida pelo governo secular de ditadores de Egito, Iraque, Líbia, Iêmen, Síria e Tunísia. Alguns eram amigos dos EUA, alguns inimigos e outros vacilavam entre ambas as posições, mas todos proporcionavam a calma necessária para assegurar o fornecimento de petróleo. 
 
Em teoria, tudo isso deveria significar boas notícias para os EUA. As derrubadas de Saddam Hussein, no Iraque, e de Muamar Gadafi, na Líbia, e a ameaça ao regime de Bashar al-Assad, na Síria, representam o enfraquecimento do que por muitos anos vinha sendo uma espécie de eixo do antiamericanismo árabe. Mas nada é simples no Oriente Médio e três fatores estão tornando essas mudanças problemáticas para o governo americano: 
 
1. O colapso da estrutura de poder árabe abriu a porta para o aumento da influência iraniana - um legado da Guerra do Iraque. Ela livrou o mundo de Saddam Hussein, mas deixou o caminho livre para o vizinho Irã. 
 
2. A queda dos ditadores árabes não abriu caminho, pelo menos até agora, para a ascensão de uma democracia secular. Ao contrário, abriu caminho para extremistas islâmicos que os ditadores há muito reprimiam. 
 
3. Como está ficando cada vez mais claro na Síria, no Líbano e no Iraque, o terremoto liberou as tensões latentes entre os muçulmanos sunitas e xiitas. Saddam Hussein, no Iraque, e o regime da família Assad, na Síria, ajudaram a manter essas tensões sob controle para todo mundo. Isso acabou. A Arábia  Saudita está cada vez mais financiando as facções sunitas na região, e o Irã dando ajuda às xiitas. Isso vem criando um tipo nocivo de conflito sectário em grande escala. 
 
Essa mudança de dinâmica deveria suscitar um sério debate nacional sobre os interesses dos EUA no Oriente Médio numa nova era de menor dependência do petróleo do Oriente Médio, risco contínuo de terrorismo extremista islâmico e exaustão de intervenções militares na região. Os atuais debates sobre se seria sábio fechar um acordo nuclear com o Irã e sobre a intervenção na Síria se tornam complicados pela simples falta de consenso nacional em relação a interesses mais amplos dos EUA nos dias de hoje. 
 
No momento, os EUA parecem ter uma capacidade ou um interesse limitado em interferir no curso natural das coisas. Mas a percepção de que os EUA podem conduzir os eventos na região, uma percepção que sempre foi um pouco exagerada, está desaparecendo. 
 
Muito da influência americana resultou da crença de que os EUA poderiam, e iriam, intervir militarmente para realinhar o equilíbrio de poder na região. Mas, após a exaustão gerada por mais de dez anos de combate no Iraque e no Afeganistão e depois de uma decisão consciente de não intervir para ajudar os rebeldes na guerra civil da Síria, essa ideia simplesmente não é levada sério. 
 
Mais do que isso, não está claro se a sociedade americana se importa tanto assim. Os EUA estão produzindo mais energia dentro de casa, os amigos de Washington em Israel parecem estar seguros e a memória dos ataques terroristas está desaparecendo. 
 
Infelizmente, essa é uma visão míope. Os EUA têm um profundo interesse na saúde de uma economia global que ainda depende do petróleo do Oriente Médio. Os perigos do extremismo islâmico, na verdade, estão em ascensão, não em declínio. E agora existe o perigo real na região de uma corrida armamentista nuclear desestabilizadora nas próximas décadas, iniciada pelo Irã. 
 
Os americanos têm um papel nisso tudo, queiram ou não. "Vamos ser claros", diz Miller. "Estamos [os EUA] presos numa região que não podemos consertar nem abandonar." No passado, iniciar uma discussão nacional sobre tudo isso seria uma responsabilidade da Comissão de Relações Exteriores do Senado americano. Talvez possa ser novamente.