09 de Junho, 2011 - 10:12 ( Brasília )

Geopolítica

Retirada de tropas pode mergulhar Afeganistão em recessão, diz relatório

Desde início da ofensiva militar dos EUA, país do sul da Ásia foi destino de ajuda equivalente a R$ 29,7 bilhões

A retirada das tropas estrangeiras no Afeganistão, prevista para terminar em 2014, com a transferência de responsabilidades para as forças de segurança afegãs, poderá mergulhar a economia do país em uma recessão, diz um relatório divulgado nesta quarta-feira pelo Senado americano.

Segundo o documento Evaluating US Foreign Assistance to Afghanistan (Avaliando a Assistência Externa dos EUA ao Afeganistão, em tradução livre), elaborado pela Comissão de Relações Exteriores do Senado ao longo de dois anos, ainda há lacunas no planejamento para garantir uma transição bem-sucedida, que devem ser abordadas imediatamente.

“De acordo com o Banco Mundial, estimados 97% do Produto Interno Bruto (PIB) do Afeganistão são derivados de gastos relacionados à presença militar internacional e à comunidade de doadores”, diz o documento, ao ressaltar como o país é dependente da ajuda externa. “Uma retirada brusca do apoio internacional, na ausência de receitas domésticas sólidas e de uma economia de mercado em funcionamento, pode desencadear uma grande recessão econômica.”

Desde que os Estados Unidos iniciaram a ação militar no Afeganistão, há dez anos, o país foi destino de US$ 18,8 bilhões (cerca de R$ 29,7 bilhões) em ajuda, volume maior do que o recebido por qualquer outro país.

Apesar de destacar alguns sucessos, como um aumento de sete vezes no número de crianças que frequentam a escola e avanços no setor de saúde, o relatório afirma que ainda restam grandes desafios.

De acordo com o documento, o governo americano deve ser mais eficaz nos gastos em ajuda no Afeganistão e adotar uma fiscalização mais eficiente sobre como o dinheiro é escoado dentro do governo afegão, além de reduzir a dependência de empresas terceirizadas.

Ajuda financeira

Segundo o relatório, o Departamento de Estado e a agência americana para desenvolvimento internacional (Usaid) gastam aproximadamente US$ 320 milhões (cerca de R$ 506 milhões) por mês no Afeganistão. “Em parte, o governo (americano) está usando a ajuda para conquistar corações e mentes”, diz o documento.

No entanto, o relatório afirma que as evidências de que os programas de estabilização realmente promovem a estabilidade no Afeganistão são “limitadas”. “Algumas pesquisas sugerem o oposto, e as boas práticas de desenvolvimento questionam a eficácia de usar ajuda como uma ferramenta de estabilização no longo prazo”, diz o texto.

Segundo o relatório, não se deve subestimar as consequências “não intencionais” de jogar grandes quantias de dinheiro em uma zona de guerra. “Ajuda externa, quando mal gasta, pode alimentar a corrupção, distorcer os mercados de bens e de trabalho, minar a capacidade do governo (afegão) de exercer controle sobre recursos e contribuir para a insegurança”, afirma o documento.

O documento diz que, no momento em que os Estados Unidos começam a retirada de suas tropas do Afeganistão – a partir do próximo mês –, os civis terão de assumir missões atualmente a cargo dos militares. “O Departamento de Estado e a Usaid vão precisar dos recursos adequados para garantir uma transição tranquila e evitar repetir os erros que nós cometemos no Iraque”, diz o documento.

Questionamentos

O relatório foi elaborado pelos democratas que integram a comissão, mas parlamentares dos dois partidos questionam os custos do envolvimento americano no Afeganistão, em um momento em que o país enfrenta grande déficit no orçamento e pouco mais de um mês depois da morte do líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, em 2 de maio.

Nesta quarta-feira, o escolhido do presidente americano, Barack Obama, para assumir a embaixada em Cabul, Ryan Crocker, disse ao Congresso que os Estados Unidos não podem abandonar o Afeganistão no momento e devem continuar seu investimento no país. Segundo Crocker, o objetivo é conseguir no Afeganistão um governo que seja bom o suficiente para garantir que o país não volte a ser um refúgio da Al-Qaeda.