21 de Outubro, 2013 - 11:35 ( Brasília )

Geopolítica

“Não acredito em conflito étnico no Congo", diz general brasileiro


Adriana Carranca

"Eu não acredito em conflito étnico! Os grupos (que atuam no leste do Congo) agem como criminosos por interesses econômicos e temos de neutralizá-los", discursava o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, em uma manhã abafada e empoeirada, no alto de um morro em Kibati, no leste conturbado da República Democrática do Congo. Atentos, os 15 embaixadores do Conselho de Segurança (CS) da ONU suavam sob o sol escaldante - entre eles, Samantha Power, dos EUA, que anotava tudo a lápis em seu bloquinho.

A visita do CS foi uma primeira avaliação sobre o andamento do novo mandato, que deu às tropas de paz da ONU, comandadas desde junho pelo militar brasileiro, maior poder de força contra grupos armados. A guerra no Congo dura quase 2 décadas e já deixou mais de 6 milhões de civis mortos - o que a ONU não conseguiu evitar.

O novo mandato tenta corrigir isso. "Santos Cruz é visto como a pessoa mais competente para a função, porque traz na bagagem a experiência no comando de uma força de paz agressiva no Haiti, que teve resultados", diz Jason Stearns, especialista em Congo, que liderou para a ONU um estudo sobre a violência no país.

O novo mandato foi aprovado no rastro de uma ação do grupo rebelde M23, que em dezembro tomou de assalto Goma, o centro das operações da ONU no país. Eles bombardearam a cidade e chegaram a ocupar ruas e o aeroporto. Mais do que uma demonstração de força, o ataque foi um golpe contra a organização e alimentou a hostilidade da população, que se sente desprotegida e critica a inoperância das tropas de paz.

Após novas ofensivas, os capacetes azuis da ONU, já sob o comando de Santos Cruz, empurraram o grupo para zokm fora dos limites da cidade, em uma batalha que durou nove dias. "Estamos impressionados com a rapidez com que o mandato foi implementado. Ele começou no meio de uma crise, mas já conseguiu dar à missão o caráter mais robusto que esperávamos e mandou um recado muito claro aos grupos armados ao expulsar o M23 de Goma", disse ao Estado o embaixador da Grã-Bretanha no CS, Mark Grant.

Aos 61 anos, com 1m75 e 75 quilos mantidos desde a juventude com uma rotina pesada de exercícios, o engenheiro formado em política no Army College dos EUA e ex-adido militar na Rússia é visto pelos subordinados como um "combatente". "Ele é maluco. Bombas caindo e ele caminhava no campo, liderando as tropas do solo. É um combatente de verdade", disse um soldado indiano sobre a batalha de Kibati.

Nessa entrevista, em duas datas - em Kinshasa, capital do Gongo, e em Goma, durante a visita do CS, o general brasileiro mostra a sua visão do conflito e revela a estratégia para proteger civis e recuperar a credibilidade da ONU.

Críticas. A maneira de fazer a população voltar a ter confiança nas tropas de paz é com ação. No Congo não há outra opção, se não agiu Só quando eliminarmos, neutralizarmos os grupos armados teremos o reconhecimento da população. É por isso que temos de mudar a atuação das tropas. Diante das violações contra civis, você tem de acelerar o combate.

Estratégia. Temos hoje tropas em 83 partes do Gongo. Essa configuração se deu porque havia uma concepção de que era preciso estar perto da população para que se sentisse protegida. Mas num país de proporções continentais isso é impossível. Com a experiência que temos agora, percebemos que devemos mudar esse caráter de polícia das tropas. Precisamos nos antecipar às ameaças, ir atrás (dos grupos rebeldes), neutralizá-los e não apenas estar com a população de forma estática. Essa atitude tem de ser substituída por outra, mais dinâmica e pró-ativa. Mas, para isso, é preciso ter uma unidade no entendimento sobre o novo mandato. Foi o que eu disse ao CS.

Uso da força. Uma missão de paz não quer dizer que as tropas tenham de ser pacíficas todo o tempo. Você tem de usar força porque, muitas vezes, é a linguagem que o outro lado entende. É muito simples. Basta você expandir o conceito de legítima defesa. Se você agir apenas depois que um ataque ocorreu, já foi. A chacina já ocorreu, mulheres foram estupradas e crianças sequestradas. A única forma de evitar isso é se antecipar às ações dos grupos, desarmá-los, desmobilizá-los, impedir que possam atuar.

Negociações políticas. A ação militar sozinha não pode acabar com um conflito de 20 anos. Tem de haver a parte política. Mas as tropas também têm um papel nisso. Se o outro lado não estiver suficientemente pressionado, por que vai querer negociar? Você tem de agir de uma forma com que não reste nenhuma opção aos grupos armados, se não negociar.

Acordo de Estive em Kampala (onde ocorrem negociações entre o M23 e o governo, mediadas por . Uganda) e meu recado foi: se eles decidirem se desarmar, vamos protegê-los com a mesma força com que os combatemos meses atrás? Mas o acordo em Kampala está demorando muito para sair. A desvantagem é que durante essas negociações, os grupos rebeldes têm a chance de se reorganizar, de se armar novamente.

A luta contra o M23. A batalha (de agosto) contra o M23 foi de uma intensidade indescritível. Eles tinham armamento e se comportavam como um Exército regular. E isso precisa ser melhor investigado. Eles estão numa área não muito rica (em minérios). Como conseguem uniformes, armas, munição?

Desafios. Em primeiro lugar, há uma centena de grupos armados no leste do Congo. É impossível ter o mesmo nível de dinamismo contra todos eles simultaneamente. Outro problema é que nem todos os grupos armados são um alvo definido, pois eles se misturam com os civis, nem sempre usam uniformes, nem sempre têm armas à vista. Em terceiro lugar, nossa ação deve ser conjunta com o governo congolês. Se afastamos os rebeldes de uma área, o Exército tem de ocupar o lugar e, assim, as tropas de paz têm mobilidade para se deslocar a outro lugar. Do contrário, você vai ficar imobilizado. E se desloca tropas de um lado para o outro, sem deixar ninguém em seu lugar, esse vácuo será rapidamente ocupado por outro grupo armado.