07 de Outubro, 2013 - 09:04 ( Brasília )

Geopolítica

Síria: o desafio da destruição de armas químicas em plena guerra

Uma organização internacional até agora pouco conhecida será responsável, nos próximos meses, pela difícil tarefa de destruir o arsenal de armas químicas da Síria.

A Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW, em sua sigla em inglês), com sede na Holanda, recebeu um mandato do Conselho de Segurança das Nações Unidas para estabelecer um comitê especial e realizar o que tem sido descrito como uma "missão incrivelmente difícil".

No domingo, a equipe de cerca de 20 especialistas em desarmamento da OPCW relatou que o trabalho havia começado.

A tarefa inclui a destruição de mais de 1.000 toneladas de gás sarin, gás mostarda e o agente nervoso mais potente que se conhece, o gás VX, que acredita-se também ser produzido pela Síria.

Não foi revelado em qual dos 19 locais nos quais o governo sírio armazena armas químicas foi iniciada a operação.

O que se sabe é que a destruição das armas não vai ser fácil, porque vários desses lugares estão no meio de zonas de combate devastados pela guerra civil.

Força e química

O primeiro passo, que deverá ser completado nas próximas semanas, é a remoção de máquinas e equipamentos utilizados para a produção de armas e para abastecer mísseis e bombas com gases tóxicos.

"Nesta primeira fase, talvez a única coisa necessária seja força bruta", explica o especialista em assuntos diplomáticos da BBC, Jonathan Marcus.

"Os principais componentes das instalações de produção podem ser destruídos ou inutilizados com força. E o mesmo é feito com os lugares onde o enchimento das bombas era feito", acrescenta o correspondente.

Bombas ou projéteis vazios podem ser esmagados com um veículo pesado ou marretas.

O segundo passo é a neutralização das enormes reservas de compostos químicos que são a base para a criação de gases.

Essa tarefa pode ser cumprida através de vários métodos.

Os componentes podem ser incinerados a temperaturas elevadas para destruir a toxicidade dos agentes. Ou, então, neutralizados pela adição de água ou de algum outro produto, como soda cáustica.

Quando às armas químicas já carregados com explosivos, devem ser tomadas precauções adicionais.

Uma solução é efetuar a destruição em unidades móveis, que podem ser levadas para o local onde as armas estão armazenados, evitando assim o risco de se transportar munição carregada por uma zona de guerra.

Nessas unidades móveis, produtos químicos podem ser eliminados com o uso de explosivos dentro de uma câmara blindada.

A explosão destrói tanto as munições como os agentes químicos.

Outro método é a chamada tecnologia de detonação quente, através da qual as munições são colocadas em uma câmara com temperaturas de cerca de 550° C, o suficiente para destruir tanto a arma como seu conteúdo químico.

Sem precedente

De acordo com a OPCW, os peritos estão trabalhando em três frentes no momento: a verificação das informações dadas pelo governo sírio, a segurança das equipes de inspeção e os acordos práticos para a implementação do plano de destruição.

E, como dizem os analistas, o maior desafio não será a destruição em si, mas sim ter acesso aos armamentos com garantia de integridade física para as equipes da organização.
 

Esta é a primeira vez que a OPCW tenta destruir um arsenal químico no meio de uma guerra civil, e o mandato da ONU prevê que a remoção esteja concluída até meados de 2014.

Jonathan Marcus sublinha: "Tudo isso é território inexplorado. É um programa sem precedentes e planejado às pressas para remover o arsenal químico de um país em meio a uma sangrenta guerra civil."

"Não é de admirar que muitos especialistas se mostrem tão céticos. O verdadeiro teste sobre a vontade das autoridades sírias de implementar este acordo está apenas começando", acrescenta .

Outros métodos

No passado, a tarefa de eliminar as armas químicas era mais simples: os armamentos eram jogados no mar.

De acordo com um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos, publicado em 2007, foi assim que, da Primeira Guerra Mundial até a década de 1970, os Estados Unidos se livraram de milhares de munições químicas.

Em 1964, por exemplo, o Exército americano derramou no Atlântico 1.700 projéteis de 75mm carregados com gás mostarda, até então armazenados no Arsenal de Edgewood, em Maryland.

Em 1970, o Exército se livrou de 12.508 foguetes M55 com gás sarin também descartando-os no mar, a 400 quilômetros do Cabo Kennedy, na Flórida.

Há também o método usado no Iraque, em 1990: explosões controladas em poços profundos, o que também foi descartado no caso da Síria, por conta do risco envolvido para cidades próximas ao local de detonação.

Hoje, a destruição de gás venenoso é muito mais complicada: a Convenção sobre Armas Químicas proíbe que armamentos sejam queimados em valas abertas, enterrados ou descartados no mar.

E no meio de uma guerra civil, muitos acreditam que a tarefa na Síria poderia ser quase impossível.

Como disse à BBC Ake Sellstrom, inspetor-chefe de armas da ONU, "a tarefa é viável , mas vai ser muito estressante".