15 de Agosto, 2013 - 10:35 ( Brasília )

Geopolítica

Dominó Árabe - 'Polarização põe em xeque futuro do Egito'

Governo admite que já passa de 500 o número de mortos no Egito

Jeremy Bowen

Ambos os lados do conflito no Egito acreditam que o futuro do país esteja em jogo. Provavelmente, eles estão certos.

Os recentes eventos nas ruas do Cairo e em todo o país estão moldando a maneira como ele será tratado pelas próximas gerações. A euforia que seguiu-se à queda do presidente Hosni Mubarak em fevereiro de 2011 já parece muito distante.

A sensação que prevalece agora é a de que "o vencedor leva tudo". Antes que o presidente Mohammed Morsi, da Irmandade Muçulmana, fosse deposto e aprisionado pelas Forças Armadas, ele governava, não para todos os egípcios, ? como tinha prometido ? mas para seus partidários.

A Irmandade Muçulmana tentava chegar ao poder desde 1928. Ao invés de construir um consenso nacional, o presidente Morsi e a Irmandade estavam determinados a aproveitar suas chances de mudar o Egito à sua maneira.

Agora o chefe do Exército, general Abdul Fattah Al-Sisi e seus seguidores fazem o mesmo. Eles dizem querer estabelecer uma política democrática, mas a brutalidade da ação contra a Irmandade Muçulmana parece mostrar que eles querem eliminá-la como força política.

Como sempre, os eventos no Egito estão sendo monitorados de perto por todo o mundo árabe. Cerca de 18 meses atrás, a Irmandade e seus aliados em outros países pareciam ser os grandes vencedores das revoltas árabes, chegando em primeiro lugar nas eleições.

Mas agora a resposta negativa a eles pode se espalhar. A ação contra os acampamentos da Irmandade Muçulmana no Cairo não resolve a crise egípcia. Pode aprofundá-la.

Pelo menos 525 pessoas foram mortas durante as operações das forças de segurança do Egito para desmantelar dois acampamentos de apoiadores de Mohammed Morsi nesta quarta-feira.

Mas segundo a Irmandade Mulçumana, grupo político que apoia Morsi, esse número já passa de 2 mil. Um toque de recolher foi imposto pelo governo depois do dia mais sangrento no Egito desde o movimento pró-democracia, há dois anos.

Segundo a repórter da BBC no Cairo, Bethany Bell, o sentimento entre os egípcios é de um futuro incerto.

Khaled Ezzelarab, também da BBC, disse ter visto pelo menos 140 corpos na mesquita de Eman, próxima ao local de um dos acampamentos.

Números diferentes

Segundo o governo interino, que é apoiado pelos militares, 137 pessoas foram mortas no entorno da mesquita, 57 na Praça Nahda e 29 em Helwan, no sul do Cairo. As outras 198 mortes ocorreram em outras províncias.

Pelo menos 43 policiais estão entre os mortos, e o número de feridos chega a 3.572.

Lixeiros foram vistos limpando os restos dos acampamentos, enquanto os soldados desmontavam andaimes.

Os manifestantes vinham exigindo a volta de Morsi ao poder - ele foi deposto pelos militares no dia 3 de julho, um ano após ter sido eleito democraticamente.

Segundo o editor da BBC Jeremy Bowen, a Irmandade Muçulmana deve continuar com seus protestos.

"Eles esperaram 80 anos para tomar o poder no Egito, e agora sentem que o poder foi retirado deles de forma injusta", avalia Bowen.

Em um discurso transmitido pela televisão, o primeiro-ministro interino do Egito, Hazem Beblawi, defendeu a operação, e afirmou que as autoridades precisaram restabelecer a segurança.

Expressando pesar pelas mortes, ele disse que o estado de emergência nacional seria levantado assim que possível.

Irmandade Muçulmana

A Irmandade Muçulmana é uma orçanização islâmica que se opõe a tendências seculares e pretende retomar os ensinamentos do Corão, rejeitando qualquer influência ocidental. Em vários países, tem braços políticos. A organização foi fundada por Hasan al-Banna no porto de Ismailia em 1928 – depois se transferiu para o Cairo.

A preocupação inicial era oferecer serviços sociais, construir mesquitas, escolas e hospitais. Ao longo das últimas décadas, a Irmandade Muçulmana tornou-se a mais importante força política fundamentalista do mundo sunita, coim representações em dezenas de países.

Foi também o maior partido dissidente do Egito, passando da clandestinidade ao governo, para o qual foi eleito após a queda do regime liderado por Hosni Mubarak, que durou 40 anos. A Irmandade Muçulmana ficou apenas um ano no poder.