13 de Agosto, 2013 - 11:47 ( Brasília )

Geopolítica

No Brasil, Kerry tenta amenizar mal-estar diplomático


Secretário de Estado americano visita Brasil pela primeira vez em momento delicado da relação entre os dois países e tenta aliviar tensão antes da viagem que Dilma fará aos EUA para se reunir com Obama.

O chanceler Antonio Patriota recebe nesta terça-feira (13/08) em Brasília o secretário de Estado americano, John Kerry, que faz sua primeira viagem à América do Sul no cargo. A visita acontece num momento delicado da relação entre os dois países, arranhada nas últimas semanas pela controvérsia em torno do caso Edward Snowden e do megaesquema de espionagem dos EUA.

Temas comerciais também estarão em pauta, assim como outras questões bilaterais sensíveis. Mas, de acordo com fontes oficiais, os dois ministros devem centrar as conversas no tema espionagem a brasileiros, que poderia gerar mal-estar durante a visita da presidente Dilma Rousseff a Washington em 23 de outubro. Ela será recebida pelo presidente Barack Obama com honrarias militares e um jantar de gala.

“Não há somente este ponto crítico. Existem outros pontos que estão há muito tempo na pauta dos dois países e que não tiveram o devido encaminhamento até agora. Como exemplo, existe a liberalização da exigência de vistos”, diz Virgílio Arraes, professor de História Contemporânea da UnB. “A questão do monitoramento de dados no Brasil é mais um conflito que se soma, mas não é o único ponto de tensão entre os dois países.”
 

As denúncias de que Agência de Segurança Nacional americana (NSA, em inglês) teria espionado em larga escala e-mails e telefonemas de cidadãos e instituições brasileiros geraram uma forte reação do governo Dilma, que pediu explicações à Casa Branca e, junto com seus parceiros do Mercosul, levou o caso às Nações Unidas.

Em 20 de julho, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, ligou para Dilma, a quem prometeu dar “informações complementares” sobre o incidente e lamentou a “repercussão negativa” da revelação de espionagem.

Por causa das acusações feitas pelo ex-técnico da CIA, o Congresso brasileiro iniciou uma investigação e ouviu na semana passada o jornalista Glenn Greenwald, colunista do jornal britânico The Guardian e a quem Snowden entregou vários documentos com informações sigilosas sobre as ações da NSA.

Greenwald disse que os EUA usam os dados eletrônicos e telefônicos interceptados não só para combater o terrorismo, mas também para obter vantagens comerciais e industriais, como na área de energia e petróleo e, desta forma, ganhar mais poder através da obtenção de dados sobre negociações econômicas, estratégicas políticas e competitividade de empresas.

Vistos também em pauta

As denúncias de espionagem abalaram a agenda positiva entre os dois países e alguns assuntos são considerados travados, como o fim da obrigação de visto dos EUA para viajantes brasileiros, que poderia ser anunciado durante a visita de Dilma a Obama em outubro.

O Chile, por exemplo, já foi incluído no programa de isenção de vistos ao aceitar compartilhar base de dados de segurança com os americanos. “No caso do Brasil, isso também não afetaria a soberania do país, já que outros países seguem esse protocolo, que inclusive contempla a reciprocidade”, afirma Arraes.
 

Antes de chegar a Brasília, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, passou nesta segunda-feira pela Colômbia. Entre os assuntos em pauta com o presidente Juan Manuel Santos e a chanceler María Ángela Holguín, temas de interesse bilateral, as negociações de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e a Aliança do Pacífico.

Os EUA têm o interesse de participar como observador do bloco econômico, que foi lançado em junho de 2012 por Chile, Peru, Colômbia e México – países que somam 206 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) de mais de 2 trilhões de dólares, o que representa cerca de 35% de toda a riqueza da América Latina e mais de 55% das exportações da região.

Brasil e Colômbia são os mesmos países que receberam a visita do vice-presidente americano, Joe Biden, em sua viagem à América do Sul no final de maio deste ano. Em seu segundo mandato, Obama pretende se reaproximar de países da América Latina para reforçar os laços políticos e econômicos.