02 de Maio, 2013 - 09:58 ( Brasília )

Geopolítica

Indústria da animação prospera no isolamento da Coreia do Norte


Eles são meigos, divertidos e coloridos - apesar de virem de um país isolado, com ambições beligerantes e um ameaçador projeto nuclear.

Os filmes de animação norte-coreanos poderiam ter sido feitos em qualquer país aberto e com uma cena cultural vibrante - e de fato, hoje já atendem a um público internacional e diversificado, que mal desconfia da origem desses curta ou longa-metragens.

Aproveitando-se dos baixos custos de produção e do apoio do governo, a indústria de animação da Coreia do Norte tem se desenvolvido a passos largos, apesar do isolamento econômico do país.

O estúdio de animação estatal norte-coreano SEK, por exemplo, ocupa a 85ª posição no ranking dos 100 estúdios mais influentes de todos os tempos, segundo o site especializado Animation Career Review.

"É difícil entender o que faz a rígida sociedade norte-coreana ter um lado extremamente dócil em relação às artes, em todas as suas formas", escreveu o site.

"Com animações como Light Years (Anos Luz, uma ficção científica) e Empress Chung (Imperatriz Chung), um filme de fantasia simples e bonito, esse estúdio de Pyongyang poderia competir com os melhores filmes para famílias dos Estados Unidos se tivesse oportunidade."

Segundo Paul Tjia, fundador da consultoria holandesa de tecnologia GPI Consultancy, que visitou a Coreia do Norte recentemente, desde 1986 os estúdios de animação norte-coreanos vêm recebendo do exterior pedidos para a produção de desenhos animados em 2D e 3D.

"A estatal SEK, criada em 1957, tem mais de 1,6 mil funcionários e trabalha para vários estúdios europeus", Tjia escreveu em 2012, em um relatório sobre o desenvolvimento dessa indústria na Coreia do Norte.

Hoje, mais de 70 empresas estrangeiras têm acordos com estúdios norte-coreanos. Mas não há estatísticas sobre a contribuição do país para o mercado mundial.

"A qualidade da indústria de animação norte-coreana é uma das mais altas do mundo. Isso, combinado com os baixos custos do trabalho na Ásia, torna o país um destino atraente (para quem quer terceirizar serviços nessa área)", explica Tjia.

Terceirização

Calcula-se que 10 mil profissionais trabalhem na Coreia do Norte na área de tecnologia da informação e, a cada ano, milhares de jovens se formam em carreiras relacionadas a essa área, segundo Tjia.

Ele diz que, além dos filmes de animação, empresas em Pyongyang também estariam desenvolvendo aplicativos para smartphones, softwares e sistemas de informática para clientes estrangeiros.

"Lá é possível contratar engenheiros de software experientes por apenas alguns dólares por mês", conta Tjia. "E nas organizações que visitei encontrei até profissionais que estudaram no exterior, em geral em lugares como China e Índia, mas também na Europa."

Na maioria dos casos, segundo o consultor, o cliente final não sabe sobre o envolvimento norte-coreano no processo de produção, porque a terceirização é feita com a ajuda de um intermediário.

Muitos parceiros de estúdios Pyongyang também preferem não falar sobre o tema - principalmente em função do embargo imposto ao país pelos EUA.

"O usuário final desses estúdios são principalmente os Estados Unidos. É por isso que as empresas tendem a manter ligações com a Coreia do Norte em segredo", diz Tim Beal, professor da Victoria University of Wellington, na Nova Zelândia.

Clientes

Segundo informações publicadas em 2011 pela revista britânica The Economist até empresas americanas teriam chegado a contratar os serviços da indústria de animação da Coreia do Norte.

"Jing Kim, um homem de negócios de Pequim, diz que ajudou uma série de empresas a terceirizarem atividades para 500 artistas do estúdio de animação SEK, em Pyongyang", escreveu a revista.

De acordo com Beal e Tjia, França e Itália estariam entre na lista dos principais clientes dos norte-coreanos - que também inclui sul-coreanos, apesar das rivalidades políticas.

"Trabalhamos com um estúdio em Pyongyang como parte de um intercâmbio artístico e cultural, não por uma questão política. Para mim, foi uma experiência valiosa", disse à BBC Nelson Shin, fundador e presidente do estúdio sul-coreano AKOM que produziu séries como Tinytoons, The Simpsons, Taz Mania, Animaniacs, X-Men e Pinky e Cérebro.

Shin dirigiu Empress Chung, cuja produção e a trilha sonora foram feitos em Pyongyang e que, em 2005, tornou-se o primeiro filme a ser exibido ao mesmo tempo nos cinemas da Coreia do Norte e Coreia do Sul.

Segundo ele, representantes da indústria de animação norte-coreana frequentam festivais e eventos internacionais para fazer contatos e receber encomendas.

Para a Coreia do Norte, além de ajudarem a atrair recursos para o país, que sofre com apagões e escassez de alimentos, os desenhos também são uma ferramenta para ensinar às crianças valores revolucionários.

Como definiu em 1987 o ex-líder norte-coreano Kim Jong-il, pai do atual líder Kim Jong-un: "O cinema é uma poderosa arma ideológica para a revolução."