17 de Maio, 2011 - 10:55 ( Brasília )

Geopolítica

Sem Bin Laden, é hora de pressionar o Paquistão


FAREED ZAKARIA

Até aqui, as forças armadas do Paquistão abordaram essa crise do mesmo jeito que fizeram com todas as outras no passado, usando seus velhos truques e esperando escapar da tempestade. Estão vazando histórias para jornalistas privilegiados, liberando ativistas e políticos, tudo com o objetivo de incitar o antiamericanismo.

Tendo sido apanhados numa situação que sugere ou cumplicidade com a Al-Qaeda ou incompetência completa – a verdade é, provavelmente, um pouco dos dois –, estão furiosamente tentando mudar de assunto. Generais importantes acusam irritadamente os Estados Unidos por terem invadido o país. “É como uma pessoa apanhada na cama com a mulher de outro homem ficar indignada porque sua casa foi invadida”, disse-me um acadêmico paquistanês. Essa estratégia deu certo no passado. Em 2009, o governo Obama juntou forças com os senadores Richard Lugar e John Kerry para triplicar a ajuda americana ao governo e à sociedade paquistanesa – para mais de US$ 7,5 bilhões em cinco anos –, mas com medidas voltadas a fortalecer a democracia e o controle civil sobre as Forças Armadas.

Os militares reagiram com uma campanha antiamericana, usando testas de ferro na mídia e no parlamento para denunciar “violações à soberania paquistanesa” – a mesma frase gritada agora. Os Estados Unidos recuaram e concederam, na prática, que nenhuma das exigências da lei Lugar-Kerry fosse implementada.

Os militares também conseguiram, mais uma vez, amedrontar o governo civil. Segundo fontes paquistanesas, o discurso que o primeiro-ministro Yousaf Raza Gillani fez numa entrevista coletiva recente foi escrito pelos militares. O presidente Asif Ali Zardari continua a adular os militares. Tendo chegado ao poder esperando cortar as asas das Forças Armadas, o governo democraticamente eleito foi reduzido a ler em voz alta pontos escritos pelos serviços de inteligência.

Quase não houve passeatas contra a morte de Osama bin Laden ou contra a operação americana, embora um protesto de 500 pessoas em Lahore tenha sido repetido infinitas vezes na TV. A questão fundamental para o Paquistão não é como os Estados Unidos entraram no país. Os americanos estão envolvidos em operações antiterroristas no Paquistão há anos.

A questão fundamental é como o principal terrorista do mundo estava vivendo no Paquistão, com algum tipo de apoio que deve ter incluído membros do governo? Como todos os membros importantes da Al-Qaeda capturados desde 2002 estavam confortavelmente escondidos numa cidade do Paquistão? E como essas questões são afogadas por uma campanha de antiamericanismo e fanatismo religioso?

Washington cedeu várias vezes às Forças Armadas paquistanesas, com base na teoria de que precisa muito dos generais e que eles poderiam buscar apoio em outra parte – dos chineses, por exemplo. Na verdade, os Estados Unidos têm uma alavancagem considerável em Islamabad. Os paquistaneses precisam da ajuda, das armas e do treinamento americano para manter seu Exército.

Se eles vão receber esses benefícios, têm de se tornar parte da solução do Paquistão, não do problema. Com alguma urgência, Washington deveria: exigir uma comissão nacional de alto nível no Paquistão – chefiada por um juiz da Suprema Corte – para investigar se Bin Laden e outros líderes da Al-Qaeda foram apoiados por elementos do Estado paquistanês. Exigir que as decisões da lei Lugar-Kerry sobre controle civil das Forças Armadas sejam seguidas, ou então reter a ajuda. Desenvolver um plano para ir atrás das redes terroristas paquistanesas que não foram tocadas, como Haqqani, Quetta Shura e Lashkar-i-Taiba.

Conforme os Estados Unidos reduzirem sua presença militar no Afeganistão, precisarão cada vez menos das forças paquistanesas para abastecer suas tropas. O governo civil do Paquistão, os empresários e os intelectuais têm um papel maior ainda nessa luta. Deveriam não se deixar distrair por slogans antiamericanos vazios ou hipernacionalismo. Esta é a hora da verdade para o Paquistão, sua chance de acabar com suas disfuncionalidades e se tornar um país moderno normal. A oportunidade pode não se apresentar de novo.