COBERTURA ESPECIAL - F-X2 - Defesa

06 de Agosto, 2006 - 12:00 ( Brasília )

Aviões de caça? Não, Obrigado

Artigo originalmente publicado pela Gazeta Mercantil como Editorial em 07 Agosto 1997

Artigo originalmente publicado pela Gazeta Mercantil como Editorial em 07 Agosto 1997


Aviões de caça? Não, Obrigado
(artigo original 07 Agosto 1997)

Desde que o governo americano informou que autorizaria o fornecimento de armas sofisticadas para os países da América Latina, embargado durante quase vinte anos, passamos a acompanhar o assunto com atenção, pois não nos parece que a carência de armamentos, sofisticados ou não, seja hoje um problema com qualquer dose de relevância nessa parte do mundo. Na verdade, o que pensamos é que recursos aplicados na solução desse pseudoproblema certamente irão faltar no atendimento a premências muito mais gritantes, que qualquer contribuinte de impostos da América Latina conhece e gostaria de ver superadas.

Já sabemos que muitos militares não vão gostar do que estamos dizendo e argumentarão que é demagogia pregar a contenção de tais gastos em benefício de dispêndios sociais. Nossa resposta, porém, é que, no Brasil, a "guerra" contra o atraso social, a miséria, o analfabetismo, a criminalidade e a insegurança internas é muito mais relevante do que quaisquer preparativos defensivos ou ofensivos contra supostos inimigosexternos, que, aliás, não temos, .e os poucosquetivemos no passado longínquo não chegaram a representar nenhuma ameaça séria à nossa integridade.

Agora mesmo estamos vendo governos estaduais e governo federal a braços com o simples problema salarial das forças policiais, malequipadas, mal-adestradas e mal preparadas para combater o crime org anizado e a marginalidade das ruas, essas, sim, verdadeiras ameaças à segurança nacional.

A decisão do governo americano não representou nenhuma liberalidade nem qualquer favor aos países latino-americanos. Atendeu, na verdade, aos pleitos da própria indústria bélica norte-americana, que, com a diminuição da ameaça comunista, viu seus mercados habituais se retraírem e precisa manter a qualquer custo sua capacidade de produção.

Assim, não tivemos nenhuma surpresa ao ler ontem em reportagem da nossa correspondente em Washlngton, que a Lockheed Martm Corporation comemorou a decisão e uma equipe sua, que já esteve rodando por aqui, regressou entusiasmada com as possibilidades de negócios, da ordem de US$ 5 bilhões nos próximos dez anos, principalmente com a venda de aviões militares.

O presidente da Associação das Indústrias Aeroespaciais dos EUA, Joel Johnson, informa que O Ministério da Aeronáutica brasileiro pretende ·adquirir 100 a 120 aviões de caça modernos e alimenta a esperança de que o F-16 da Lockheed ou o F/A 18 da Boeing sejam contemplados, mesmo não sabendo "se o pedido ainda está em vigor". Segundo ele, o Gripen, sueco, e o Mirage 2000, estariam também se candidatando

Cada aparelho desse pode custar entre US$ 25 milhões, no mínimo, e US$ 40 milhões, apenas como investimento inicial, pois o fornecimento de peças e componentes, armamento especial, aviônica avançada, treinamento de pilotos, simuladores de vôo etc., constituem-se em outras tantas faturas que se prolongam por toda a vida útil da máquina.

Não sabemos qual é realmente a disposição do governo brasileiro, mas os vendedores americanos já se puseram em campo e divulgam que o Chile está interessado nas maravilhosas (e mortíferas) máquinas voadoras. Por conseguinte, se Zé comprar, a Argentina não poderá ficar atrás, e se a Argentina aderir, naturalmente o Brasil preci- sará igualar-se, e aí a Venezuela também etc. Sem falar que Peru e Equador, que já tiveram suas refregas, ampliarão o mercado.

Nenhum desses países necessita realmente de caças de combate desse nível. O que de fato necessitamos são melhores orçamentos para combater o analfabetismo nas ruas e o tráfico de drogas, por exemplo. Além disso, como dizem os porta-vozes da Fundación Arías, criada por Óscar Arías, Prêmio Nobel da Paz de 1987 e ex-presidente da Costa Rica, o esforço de marketing e de venda da indústria bélica americana só pode resultar no renascimento de uma indesejável corrida armamentista na América Latina. O que os governos latino-americanos, ou pelo menos os do Mercosul, deveriam fazer é assumir, entre si, o compromisso de não comprar nada do que esteja sendo oferecido

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Em 1997 a Administração Clinton(1993-2000) alterou a postura americana ao levantar o embargo de venda de armas avançadas à América Latina. Em especial após a entrada dos Mirage 2000 e MiG 29, no Peru, e as modernizações dos F-5 do Chile, com tecnologia israelense. A perspectiva de perder as vendas nas negociações com o o Brasil e Chile (que adquiriu o americano F-16) e possivelmente Argentina, levou os americanos a alterarem sua política.

O artigo reflete bem a posição predominante do área econômica localizada na Avenida Paulista (Wall Street brasileira), na época, década de noventa, e em boa parte prevalente até os dias de hoje.



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