COBERTURA ESPECIAL - F-X2 - Aviação

10 de Março, 2012 - 12:00 ( Brasília )

F-X2 - Conexão Diplomática


Silvio Queiroz


Será decididamente no marco de uma opção estratégica que a presidente Dilma fará sua escolha na já arrastada novela da compra de 36 caças para a FAB. A movimentação dos concorrentes, nas últimas semanas, acompanha o andamento imprimido à trama pelo ministro da Defesa, Celso Amorim, quando indicou que o anúncio do vencedor sai até a metade do ano. Os americanos, que têm no páreo o Super Hornet, da Boeing, fizeram seu lance com a suspensão da compra de um lote de Super Tucanos da Embraer. Na semana que está terminando, foi a vez de os suecos desembarcarem em Brasília, em comitiva chefiada pelo presidente do Parlamento, mas reforçada pelos mais altos executivos da SAAB, que disputa a licitação com o Gripen NG, da Saab.

Começando pelo terceiro finalista, o francês Rafale, da Dassault, são três modelos de modernização da defesa que se oferecem com cada uma das opções. E o da França é algo como uma aliança preferencial no campo militar, embora não ao ponto de configurar uma relação exclusiva. O Brasil vem de fechar, no governo Lula, negócios de vulto com o copain (algo como "chapa") Nicolas Sarkozy. Entre eles, o acordo para construção do ansiado submarino nuclear. Pelos montantes envolvidos, pelo alcance dos projetos e pelo conjunto das relações, a escolha do Rafale implica naturalmente fazer da França nosso par constante, e por um prazo longo.

A cartada dos suecos, enfatizada nos últimos dias pela missão parlamentar-empresarial, é a posição despretensiosa do país na geopolítica global e mesmo europeia. "Se o Brasil está se equipando para se capacitar como uma potência de atuação mundial, não pode ficar dependente de ninguém", definiu, em conversa reservada, um integrante da comitiva. "Nós somos um país neutro, não temos nenhum problema com a ascensão do Brasil", arrematou, numa remissão discreta à condição dos EUA e da França, sócios do quinteto que domina o Conselho de Segurança.

Em resumo, como já enfatizaram em distintas ocasiões alguns dos sócios de primeira grandeza, essa é mais uma ocasião em que a diplomacia brasileira está sendo chamada a fazer uma escolha. No caso, dar sentido prático ao adjetivo "estratégico", presente no nome de um bom número de parcerias.

A bordo

Ocasiões não faltaram para a cúpula da SAAB expor sem concorrência o que considera como as vantagens da oferta do Gripen NG. Afora a agenda oficial da visita, os executivos tiveram uma noite agradável, na residência da embaixada, durante jantar que teve entre os convidados o comandante da FAB, brigadeiro Juniti Saito. Não que os suecos acreditem ter ainda alguma carta na manga: na visão transmitida pela comitiva, a proposta já é conhecida e já foi devidamente contemplada no aspecto técnico. "Sabemos que a decisão é política", resignam-se.

Uns e outros

A recente venda de um lote de Rafale para a Índia — foi o primeiro negócio fechado para o modelo fora da França — ajudou a embolar um pouco mais uma disputa paralela na licitação. Isso porque a Saab já emplacou o Gripen na África do Sul. Os dois países formam com o Brasil o fórum Ibas, uma articulação diplomática que o Itamaraty considera até mais "íntima" que a dos Brics, na qual Rússia e China se somam aos três "mosqueteiros do sul". Antes de esse quinteto emergente tomar forma, o Ibas já se firmava como ponta de lança para uma intervenção global concatenada de três países que se veem como democracias populosas e líderes regionais.

Um termômetro da evolução dos laços nesse complexo "três em cinco" será a cúpula do Brics, no fim do mês. Dilma aproveitará para fazer uma visita de Estado à Índia, onde o ministro Amorim esteve um mês atrás (foto).

Pessoal e intransferível?

Até o semestre passado, quando Lula decidiu que a decisão sobre os caças ficaria para quem o sucedesse, o Rafale era considerado barbada — desde que Nicolas Sarkozy foi convidado para o Sete de Setembro, em 2009, e chegou a ser anunciada a abertura de negociações finais com a Dassault. Mas a indisfarçável química pessoal entre os dois presidentes, um fator que sempre ajuda a desatar nós e decorar embrulhos, pode acabar jogando contra os franceses. O Planalto agora é endereço de Dilma, e o Palácio do Eliseu corre risco considerável de assistir a uma mudança justamente no período em que a concorrência para a FAB poderá ter seu desfecho.

A se manter a tendência constante até agora nas pesquisas de opinião, Sarkozy fará as malas em maio, depois do segundo turno da eleição presidencial, para entregar as chaves ao desafiante socialista François Hollande.



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