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CARRO DE COMBATE RENAULT FT-17
NO EXÉRCITO BRASILEIRO
1921 – 1942
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Expedito Carlos Stephani Bastos, é Pesquisador de Assuntos Militares do Núcleo de Estudos Estratégicos do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora. |
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Artigo dividido em seis partes - data julho 2001 |
Origens:
O carro de combate surgiu com a Primeira Guerra Mundial na Inglaterra e acabou sendo desenvolvido em diversos países ao longo daquele conflito. A França, em particular, desenvolveu um carro de combate leve, moderno para os padrões da época.
Seu projeto foi desenvolvido por Louis Renault e sua equipe, surgindo uma extraordinária máquina pequena que foi estudada, fabricada em série e posta em serviço com uma incrível rapidez. Os ensaios de testes com os protótipos começaram em abril de 1917, cinco meses após seus desenhos terem sidos elaborados. Seu batismo de fogo se deu em 31 de maio de 1918 e seu emprego em massa ocorreu em 18 de julho, quando o General Mangin lançou uma grande ofensiva em Villers-Cotterêts, com 300 carros de combate Renault FT-17 apoiados por 600 aviões, sem preparação de fogo de artilharia, sendo uma das primeiras ofensivas vitoriosas que culminaram com a derrocada alemã em 11 de novembro de 1918, confirmando desta forma a importância que os carros de combate teriam nos combates futuros. Um general alemão chegou a afirmar que a derrota das tropas alemãs na frente ocidental se deveu ao "general tanque".
O Renault FT-17 foi um carro de combate revolucionário por:
A produção atingiu a cifra de 4.000 exemplares, sendo 3.200 até o fim da 1ª guerra mundial e ela foi repartida entre diversos construtores como: Berliet, Delaunay-Belleville, Renault, Somua e Fichet (esta última uma fabricante de cofres).
Sobre o mesmo chassi surgiu toda uma família variada como: carro TSF (Telegrafia sem fio), carro projetor, tracionador de Balão (para observação), carro transportador de ponte, carro fumígeno, carro lança-chamas.
Além disso, o Renault FT-17 foi exportado para diversos países (Espanha, Japão, Tchecoslováquia, Polônia, Bélgica, China, Afeganistão, Estônia, Finlândia, Grécia, Lituânia, Suíça, Iugoslávia e Brasil), em razão de seu sucesso alcançado, chegando a ser produzido em série no Canadá, Estados Unidos, Itália (onde originou o Fiat 3000), originando inclusive um modelo russo (Tankov Tip M ou "KS"- Krasny Sormovosky).
O Renault FT-17 participou da Segunda Guerra Mundial (1939/45), tanto do lado francês quanto do alemão. Partes suas foram empregadas em bunkers construídos junto a chamada muralha do atlântico na costa francesa e, por incrível que pareça, sua última utilização num conflito se deu em 1988, onde alguns poucos veículos sobreviventes foram empregados por forças afegãs contra tropas rebeldes em plena guerra quando a URSS invadiu o Afeganistão em dezembro de 1979. Sem dúvida foi o carro de combate que mais tempo ficou operacional no mundo.

Renault FT-17 em 1988 próximo a Kabul (foto Elizabeth T.Ashe)
Chegada ao Brasil:
Na Primeira Guerra Mundial o Exército Brasileiro enviou para a França o Capitão José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, que iniciou seus estudos de motorização e mecanização na Escola de Carros de Combate de Versalhes, e posteriormente servindo no 503º Regimento de Artilharia de Carros de Assalto, em 1919, onde teve a oportunidade de conhecer os carros de combate Renault FT-17.
Quando de sua volta ao Brasil, influenciou o exército para a aquisição de carros de combate, tendo sido escolhido o modelo Renault FT-17, muito embora ele próprio achasse que não era o modelo ideal de carro de combate para equipar nossa força blindada. Publicou um verdadeiro tratado sobre o desenvolvimento e emprego da arma blindada no teatro de operações europeu durante a Primeira Guerra Mundial, intitulado "OS TANKS NA GUERRA EUROPÉIA", publicado em 1921 no Rio de Janeiro – DF, sendo esta a primeira obra publicada na América Latina.
Posteriormente foi o idealizador da AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras em Resende – RJ) e também o fundador do Centro de Instrução de Artilharia de Costa, transformado em escola em 1942.
A compra de carros de combate se dará antes da contratação de uma Missão Militar de Instrução pois, após a Primeira Guerra Mundial, o Exército Brasileiro irá contratar uma Missão Militar Francesa para auxiliar na modernização e reestruturação de nosso exército.

A foto acima mostra o desfile militar de 07 de setembro de 1921, nela só falta o carro T.S.F. que naquela época sempre abria o desfile da Companhia de Carros de Assalto, daí a razão dele não aparecer. (foto via Paulo Fellows).
Em 1921 chegam ao Brasil 12 carros de combate Renault FT-17, novos, oriundos da fábrica DELAUNAY-BELLEVILLE, na França, sendo 6 com torre fundida (Berliet) e armados com canhão Puteaux de 37mm, 5 com torre octogonal rebitada (Renault), armados com metralhadoras Hotchkiss de calibre 7mm (este era o calibre usado Brasil, enquanto que na França o calibre era 8mm) e 1 modelo TSF (telegrafia sem fio) desprovido de torre giratória como os demais para comunicação com os escalões superiores.
Eles irão formar a COMPANHIA DE CARROS DE ASSALTO criada pelo Decreto l5.235, de 31 de dezembro de 1921, na Vila Militar, no Rio de Janeiro – DF, tornando-se, desta forma, o Brasil pioneiro da arma blindada na América do Sul, muito embora ela já se encontrasse operacional mesmo antes da formalização, apresentando algumas deficiências, conforme descrito no Boletim n.º 55 de 7 de dezembro de 1921, mencionando ofício enviado pelo Comandante da mesma, Capitão José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, ao Ministro da Guerra informando as condições da Companhia que possuía 07 oficiais, 123 praças (52 em véspera de licenciamento) e mostrando o que ela realmente precisava: "Ao meu ver, os nossos carros só darão rendimento igual aos que tem dado nos paizes do velho mundo, onde lhes é dispensado o apreço que lhes é devido, em face da experiência da última guerra, quando pudermos contar com homens em seu serviço por 2 ou mais annos, quando não lhes forem destinados, no momento da incorporação, homens manifestadamente fracos, mas tão sómente individuos fortes e, finalmente, quando a escolha destes recahir, de regra, em electricistas, chauffeurs, mecanicos, etc., e não em commerciantes, lavradores, estudantes, etc., como aconteceu desta feita".
É curioso ressaltar que estes carros de combate foram entregues ao Chefe da Missão Militar Brasileira em Paris em maio de 1919, e chegaram ao Brasil no início de 1920, sendo depositados no 1º Regimento de Infantaria, no Rio de Janeiro, DF, e lá ficaram até 28 de setembro de 1921, quando foram entregues ao então Capitão José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, encarregado de organizar a Companhia de Carros de Assalto, conforme Boletim nº 223 de 1º-10-921, só que mesmo sendo novidades, não tiveram um boa aceitação entre os militares mais antigos, valendo ainda comentar o que o próprio José Pessoa em "Atestado de Nascimento da arma blindada brasileira", e que se encontra arquivado junto a outros documentos pessoais no CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, diz o seguinte: "... Parece inacreditavel – e eu mesmo não o creria si o não tivesse verificado pessoalmente, - que o material cuja acquisição nos custou uma soma vultosa – e isso precisamente num momento de aperturas financeiras – como o que atravessamos, estivesse nas condições em que com bastante pesar meu e de todos que me acompanharam, o fui encontrar.
De facto nem um só dos carros apresentava indicios de ter sido convenientemente lubrificado depois da sua chegada ao Brasil.
Encontrei mesmo, em muitos delles, orgãos essenciaes, peças de importancia vital para o seu funcionamento, completamente seccas, ameaçadas de inutilisação pela ferrugem, resultado do tempo e da incompetencia ou descuido das mãos a que foram confiados. Outro tanto observei no armamento. Era tal o estado, por exemplo, em que se encontrava uma das metralhadoras, que, máo grado os cuidados que lhe temos dispensados, ainda não a podemos libertar completamente da acção da ferrugem.
Aliás, não foi sómente a falta de lubrificação o mal que encontrei nos nossos carros. Além de maltratados, a maior parte delles apresentava avarias graves. Passo a enumeral-as: O carro nº 68304, para telegraphia sem fio, tinha as pilhas saturadas, os accumuladores sulphatados e estragados pela ferrugem, o regulador quebrado, enfim toda a sua installação avariada, necessitando ser completamente substituida. O carro nº 4370 tinha a maneta da regulação do gaz quebrada, as engrenagen da caixa de velocidade destemperadas, não obedecendo nas 1ª e 2ª velocidades nem na da ré, - tanque de gazolina e ventiladores eferrujados; motor com avarias. No carro nº 4263 notava-se a marcha de ré arrebentada, e as peças de ferro e motor nas mesmas condições do anterior. O carro 4374 estava igualmente com a maneta de regulação de gaz quebrada, os cones das embreiagens lateriais collados, o tanque de gazolina e ventilador enferrujados. O carro nº 4376 tinha o tanque de gazolina e o ventilador enferrujados, as juntas do siphão do irradiador inutilisadas, as velas avariadas, faltando-lhe a tampa do carter de oleo do motor. O carro 4377 apresentava o reservatório geral furado pela ferrugem, polias e ventilador tambem enferrujados. O carro nº 68216 apresentava o ventilador e o reservatório geral enferrujados, a corrente do ventilador com os calços deteriorados, não existia a tampa do carter de distribuição, estando o motor e velas com avarias. O carro 68306 não se encontrava em melhores condições: tinha o eixo secundário empenado, as sapatas quebradas, consequencia de choque violento recebido pelos chassis; tanque e ventilador enferrujados. O carro nº 70369 tem um dos eixos da caixa de velocidade quebrado. Os demais carros apresentavam avarias leves.
...Das listas enviadas pela comissão de compras na Europa, consta a vinda de 119 caixas, sendo que somente 77, além dos 12 tanks, me foram entregue pelo 1º Regimento de Infantaria. Das caixas que ficaram faltando, encontrei duas no barracão da Escola de Aviação, contendo trenós e material de embarque e 41 de munições foram recebidas pelo Material Bellico faltando ainda a caixa de nº 74 pesando 650 kilos, com um grupo electrogenio e seus pertences, que acaba de ser encontrada num dos armazens da Alfandega, até agora não entregue á esta Companhia.
Enfim, uma caixa fóra das listas, contendo capacetes de aço pertencentes á carga destinada á Companhia, foi encontrada na Estação de Deodoro.
Do inventário que me foi entregue pelo 1º Regimento de Infantaria, referente ás 77 caixas citadas, organisado pela comissão de recepção deste Regimento e revisto por outra de tres officiais desta Companhia, constatou esta, a falta de ferramentas assim como haver artigos estragados, avariados, etc., fazendo menção de tudo isto no termo que me apresentou."
Ao que tudo indica o nascimento da arma blindada no Brasil começou de uma forma pouco convencional em relação aos demais países.
Vale ressaltar que esta Companhia era considerada tropa independente, adida a 1ª Divisão de Infantaria, e o ingresso nela era aberto aos oficiais de todas as armas.
No ofício mencionado anteriormente é dado a conhecer o que a Companhia necessitava no tocante a materiais a saber:
" Que possuimos 12 carros de combate ( 3 aliás sem armamento e 1 em mao estado).
Que necessitamos de mais 5 carros de combate, 5 auto-caminhões de 7 toneladas para o transporte de carros, 1 auto-caminhão de 5 toneladas com um reboque-officina de 5 toneladas, 1 auto-caminhão de 3 ½ toneladas com um reboque de 3 toneladas, 1 motocycletta side-car, 1 bycicletta e 1 carro-cosinha, isso além de armamento individual e do equipamento, aquelle, aliás, já pedido e não remetido pela Directoria do Material Béllico, por não possuir, conforme declarou. Deve possuir ainda 1 animal de cella e 6 de tracção, isto em tempo de paz.
No caso de mobilização, a companhia necessita mais o seguinte: 8 carros de combate (5 de substituição e 3 de abastecimento e depannage), 10 auto-caminhões para o transporte de carros, 2 auto-caminhões de 3 ½ toneladas, com 2 plataformas de 3 toneladas, 1 auto de 12 H.P. (viatura de reconhecimento), 1 auto bi-place (comandante do escalão), 2 byciclettas (serviço de ligação e reconhecimento), 2 pranchas móveis para embarque e 1 ambulância".
Ao que tudo indica estas deficiências nunca foram sanadas, dificultando desta forma o emprego da Companhia de Carros de Assalto nas crises que viriam ocorrer no Brasil durante os conturbados anos 20 e 30.

Em 03 de novembro de 1921 ocorreu o primeiro exercício de carros de combate em conjunto com a aviação militar no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, na colina boscosa, na Vila Militar. (vide foto abaixo – biblioteca do autor)
Sua primeira aparição pública se dará em 25 de agosto de 1922, quando toda a Companhia se apresentará no Campo de São Cristóvão, Rio de Janeiro, onde recebeu o Pavilhão Nacional e foi aberta à visitação pública esta novidade chamada carros de combate.
Devemos ressaltar que nesta data foi escolhido como patrono da Companhia de Carros de Assalto, o Duque de Caxias, um ano antes de o dia 25 de agosto ser declarado como dia do soldado (Aviso 443 de 25/agosto/1923) e quarenta anos antes dele se tornar o Patrono do Exército Brasileiro (Decreto 51429 de 13/março/1962).
A primeira aparição pública oficial se dará em desfile militar no qual o País homenageava o Rei Alberto da Bélgica em visita oficial. (setembro/1922).
Seu primeiro emprego operacional no país irá ocorrer durante a Revolução de 1924, quando esta Companhia é enviada a ocupar a cidade de São Paulo após a retirada das forças rebeldes daquela cidade e, em fotos da época, podemos assistir a uma parada dos seis (6)
Renault FT-17 operacionais naquele momento, pois o modelo T.S.F. ao que tudo indica nunca foi totalmente operacional, tendo sido desativado em 1925.
Vale ressaltar que no mesmo Boletim de n.º 55 prescrevia instruções para o uso dos carros de assalto bem interessantes a saber:
"Resoluções do commandante de secção:
1º - Nunca fracionarei a minha secção, porque 4 ou 5 carros que se franqueiam são inabordáveis e a concentração dos seus fogos torna-os temidos dos canhões de tiro directo.
2º - Se resistência alguma é manifestada no momento e se não recebi do comando da infantaria missão precisa de reconhecimento, o meu logar normal é atraz da linha avançada da infantaria.
3º - Se uma resistência vem a manifestar-se, lançar-me-hei decididamente, sem esperar ordens, na frente da minha infantaria. Quebrada a resistência, convencido de que não sou guia da marcha, aguardarei ordens e, na dellas, irei postar-me na minha posição normal. Não devo nunca aventurar-me a combater sosinho..
Resoluções ao chefe do carro:
1º - Vigiarei constantemente a região inimiga, lançarei a vista frequentemente sobre a minha infantaria, sobretudo se ella se acha na rectaguarda, e, de tempos a tempos, sobre os carros visinhos, e sobre o do meu commandante de secção em particular.
2º - Não me aventurarei nunca a combater sosinho; se as exigências do combate me levarem a afastar-me demasiadamente do meu posto normal tratarei de me reunir a elle o mais breve possível.
3º - Não atirarei em marcha, porque, parando alguns segundos, ganho 3 cousas:
1º - A precisão e a rapidez, isto é, a efficacia do tiro.
2º - A velocidade media de progressão.
3º - O sangue frio necessário para não atirar sobre os meus.
Resoluções do mecanico do carro:
1º - Quando o carro pára por "panne", não existe mais tactica; sem disso tirar motivo de gabar-me, compreenderei que a importância do meu papel me impõe o dever de trabalhar sem trégoas para estar á altura real de combate.
2º - Toda a minha vida de soldado será dominada pelo culto do meu carro; esmerarme-ei na ordem e no cuidado zeloso de todas as partes do aparelho, na mudança das peças e juro que nunca me deixarei levar por velleidades de uma desmontagem interdicta. Filtrarei a gazolina do meu carro, economisal-a-hei e não me esquecerei nunca de parar o motor.
3º - Não usarei de velocidade senão em linha recta, em bom terreno plano e consistente; nunca nas estradas; nas viragens, moderarei a marcha e evitarei os movimentos bruscos manejando as alavancas, sobretudo levando-as paulatinamente. Quando for necessário tentar uma proeza de governo, farei apello ao meu sangue frio e porei todo o amor proprio na obtenção do exito; mas nunca buscarei a difficuldade sem razão de ser, pois seria assim culpado de me expor a um desarranjo do meu motor por vaidade".

Foto de 1940 no CIMM – Centro de Instrução e Motorização, no Rio de Janeiro, RJ. Notar os quatro remanescentes Renault FT-17 da antiga Companhia de Carros de Assalto de 1921. Em primeiro plano um Renault FT-17 com canhão de 37mm, a seguir dois com metralhadoras 7mm Hotchkiss e torrre octogonal e ao fundo outro com canhão de 37mm e torre redonda. (foto via Cel Borges Fortes).