COBERTURA ESPECIAL - Fronteiras - Pensamento

26 de Agosto, 2018 - 20:30 ( Brasília )

Carlos Wagner - A “paraguaização” da fronteira gaúcha

Carlos Wagner é o mais experiente jornalista cobrindo assuntos de fronteira e grupos criminais


Carlos Wagner

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Carlos Wagner é o mais experiente jornalista
brasileiro cobrindo assuntos de fronteira e grupos criminais

 
As evidências não deixam dúvidas. O aperfeiçoamento, a organização e o alastramento para o interior gaúcho das facções criminosas nascidas no Presídio Central de Porto Alegre. A crescente demanda por armas, munições e explosivos, por conta do crescimento dos bandos especializados em ataques a caixas eletrônicos e carros-fortes.

A expansão das quadrilhas de roubo e furto de veículos, devido ao aumento da demanda por peças usadas e da exuberância da indústria de clonagem de carros. E os altos preços dos defensivos agrícolas e peças de maquinários nas lavouras de soja e arroz irrigado, que incentivam o contrabando entre os agricultores.

A soma de todos esses fatos causou uma explosão no número de fornecedores de mercadorias para o crime estabelecidos nos países vizinhos dos gaúchos, Uruguai e Argentina. É a “paraguaização” da fronteira gaúcha, um termo cunhado pelos serviços de inteligência brasileiros. Mas o que significa isso?

Isso significa um pesadelo para a Polícia Federal (PF), a Brigada Militar e a Polícia Civil. Processo semelhante se estabeleceu na fronteira do Brasil com o Paraguai, nos anos 60. Na época, o Paraguai era governado pelo ditador Alfredo Stroessner (1954 a 1989). No início do processo, os brasileiros contrabandeavam para o Paraguai café e traziam de lá produtos americanos: uísque, cigarros e calças jeans.

Com a urbanização do Brasil nos anos 60, militares paraguaios montaram comércio na fronteira, abastecendo os centros urbanos brasileiros de produtos contrabandeados – toda a história é contada em “Dossier Paraguay: Los Dueños de Grandes Fortunas”, de Anibal Miranda, um livro de leitura obrigatória para os repórteres que investigam o crime organizado.

Eu escrevi o livro “País-Bandido: Crime Tipo Exportação”, que fale sobre o que são os 1290 quilômetros de fronteira entre os dois países, uma das fronteiras que figuram entre as mais violentas e complicadas do mundo. Por ali, entram as armas, as drogas, os cigarros pirateados, as mercadorias (eletrônicos, remédios e pneus) que abastecem os centros urbanos brasileiros. Também serve de esconderijo para foragidos brasileiros e de base para o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro.

A fronteira do Brasil com o Paraguai levou quatro décadas para se tornar um dos pedaços mais temidos da América do Sul. A fronteira gaúcha com o Uruguai e a Argentina soma 1,2 mil quilômetros e está caminhando na mesma estrada que a com o Paraguai. Quanto tempo levará para chegar ao mesmo status de perigo é desconhecido. Mas ruma para isso.

 O contrabando na fronteira gaúcha faz parte da história e do folclore. Mas a sua profissionalização vem acontecendo, em parte devido à presença de montadoras de produtos eletrônicos asiáticos em Montevidéu e ao fato de a compra de armas e munições ser liberada nos lados uruguaio e argentino.

A primeira evidência dessa profissionalização aconteceu na madrugada do dia sete de dezembro de 2002, no pátio da aduana de Jaguarão, cidade gaúcha dividida por uma ponte do município uruguaio de Rio Branco. Ali estava depositada uma carga de produtos eletrônicos no valor de R$ 5,7 milhões, apreendida pela Receita Federal dias antes e que foi roubada naquela data.

Uma reportagem feita pelo repórter Humberto Trezzi, da Zero Hora, revelou que o delegado federal Gabriel Figueiredo Carvalho concluiu uma investigação que durou seis anos sobre o roubo e, entre os culpados apontados, está o ex-policial paulista Ricardo José Guimarães, conhecido como Ricardo Matador. Na época, ele vivia no interior do Uruguai, foragido da Justiça de São Paulo.

Três anos depois do roubo na aduana, que virou manchete nos principais noticiários da América do Sul, Ricardo Matador foi apontado como o executor dos policiais gaúchos Ronaldo Almeida, 43 anos, e Leonel da Silva Ilha, 38, de Santana do Livramento, separada por uma avenida do município uruguaio de Rivera.

Pelas investigações da Corregedoria da Polícia Civil, os dois agentes estariam envolvidos com contrabandistas de bebidas e foram atraídos para uma cilada, porque o dono da mercadoria, um comerciante uruguaio, ficou com medo que eles fizessem uma delação para a PF. Ricardo Matador foi preso, julgado e condenado a mais de 100 anos de prisão em São Paulo.



A posção do Rio Grande do Sul é única. Faz fronteira com o Uruguai, sendo que na sua totalidade é seca. Com a Argentina embora o rio Uruguai não há maiores obstáculos.


Os campos das cidades argentinas da fronteira se transformaram em locais de lançamento de drogas por aviões que evitam entrar no território brasileiro depois que a Força Aérea Brasileira (FAB) foi autorizada a abatê-los. Essa droga entra no Brasil pelo Rio Grande do Sul e segue para Rio e São Paulo.

Na última década, tem sido comum a venda de equipamentos, principalmente fuzis e pistolas, usadas pelas Forças Armadas da Argentina na Guerra das Malvinas, um conflito militar ocorrido em 1982 entre os argentinos e o Reino Unido. Os argentinos perderam a guerra. Na época, centenas de equipamentos militares desapareceram.

Anos depois, parte dos equipamentos reapareceu nas mãos de bandidos brasileiros. Ainda há o fato de as cidades argentinas que fazem fronteira com municípios gaúchos, no Noroeste do Estado, terem depósitos de produtos contrabandeados do Paraguai, principalmente cigarros pirateados, que são vendidos nos centros urbanos do Brasil.

Se existe uma coisa que aprendi sendo repórter há 40 anos é que a lei que regulamenta o mercado legal é a mesma do ilegal: a demanda é a procura. O progresso das organizações criminosas gaúchas é um fato.  Os comerciantes do outro lado da fronteira se organizaram para atender a essa demanda. É tudo simples assim.

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