COBERTURA ESPECIAL - Fronteiras - Geopolítica

07 de Setembro, 2013 - 19:33 ( Brasília )

Desemprego amplia crise na fronteira

Sem oferta de trabalho, aumenta o número de estrangeiros vivendo em abrigo improvisado na cidade de Brasileia, no Acre. Africanos e caribenhos pagam até US$ 4 mil para entrar no Brasil

EDSON LUIZ
RENATA MARIZ

 

Pelo menos entre 20 e 30 haitianos continuam a chegar ao Brasil diariamente, piorando a situação dos mais de 500 estrangeiros que estão hoje abrigados em um galpão no município de Brasileia, na fronteira do Acre com a Bolívia e o Peru. Além da precariedade para acomodar a grande quantidade de pessoas que entra no país, a região enfrenta um problema ainda mais grave, que é a falta de empregos no país para absorver a mão de obra imigrante. Quando o fluxo imigratório alcançou seu auge, no início deste ano, as empresas brasileiras chegavam a contratar até 150 pessoas de uma só vez. Entretanto, hoje, o número de haitianos que conseguem algum trabalho caiu bastante. Apenas de 15 a 25 estrangeiros conseguem colocação diariamente.

Como o volume de entrada de imigrantes tem sido maior do que os que deixam a região, o governo acriano teme que a situação saia do controle e se transforme em caos. "Se o processo não for revertido, vai aumentar o número de pessoas em Brasileia e poderemos chegar ao mesmo patamar de abril, quando tínhamos 1,3 mil imigrantes na cidade", adverte o secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre, Nilson Mourão. "As empresas estão contratando pouco", observa. Há cinco meses, o município viveu um drama com o grande volume de entrada de estrangeiros, que ficaram alojados precariamente em um clube abandonado, transformado em alojamento não só para os haitianos, mas para cidadãos de outros países.

Segundo Mourão, o processo de imigração dos haitianos, assim como o de outros estrangeiros, continua o mesmo. A porta de entrada é o Equador, considerado país de cidadania global, por não exigir visto de entrada de nenhuma nação. "De lá, as pessoas entram pelo Peru ou pela Bolívia, normalmente por meio de ‘coiotes', que cobram entre US$ 2 mil e US$ 4 mil para entrada no Brasil, por meio de estradas", explica o secretário. A maior dificuldade do governo brasileiro é, justamente, enfrentar os grupos de agenciadores, que não estão em território brasileiro, mas nos países vizinhos e no Caribe. "Nenhum dos países envolvidos nessa questão consegue combater os coiotes", lamenta Mourão.

Além das precárias condições do alojamento e da falta de vagas no mercado de trabalho, outro problema poderá surgir no futuro, que é a entrada de inúmeras mulheres haitianas, que quase não eram vistas no início da onda imigratória, há dois anos. No acampamento dos estrangeiros em Brasileia, das 600 pessoas abrigadas, 70 são mulheres. Se, para os homens, o mercado de trabalho está se tornando restrito, mesmo para quem tem alguma especialização, para as mulheres praticamente não há emprego, mesmo nas cidades da região de fronteira.

Surtos de diarreia

Não há separação entre homens e mulheres no galpão de abrigo, o que torna o cotidiano deles muito desconfortável. São apenas 10 banheiros com latrinas para as mais de 500 pessoas abrigadas, e 12 baias para banho. "Alguns haitianos preferem pagar R$ 1 na rodoviária que tem perto aqui do que usar o banheiro (do alojamento), que realmente não apresenta condições boas", conta Damião de Mello, funcionário da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre, que gerencia o local. A saúde tem sido considerada o maior problema do acampamento montado para abrigar os haitianos.

Surtos de diarreia entre os abrigados têm levado cada vez mais gente aos postos de saúde da região. "As condições do galpão, que só tem cobertura, mas é aberto nas laterais, é muito ruim, mas acho que o pior tem sido a saúde. O Hospital Geral de Brasileia não está preparado para atender os haitianos, não tem enfermeiros suficientes nem espaço", conta o haitiano Esdras Hector, de 29 anos, que está há quase dois anos no Brasil. Embora tenha arrumado emprego em Mato Grosso, ele costuma visitar periodicamente o acampamento para ajudar os conterrâneos.

Lucia Nader, diretora executiva da organização não governamental Conectas, reconhece os aspectos positivos da política de visto humanitário, mas teme que essa postura se limite "à visão dos imigrantes como parte de um problema de tráfico humano e outros reducionismos".