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24 de Novembro, 2011 - 14:59 ( Brasília )

Um racha histórico no MST

Dissidentes criticam organização que é o berço dos sem-terra por atrelamento ao governo e por compactuar com agronegócio

CARLOS WAGNER E HUMBERTO TREZZI


Uma carta com mais de 200 linhas de críticas ferrenhas pontua o maior racha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em suas quase três décadas de existência. O documento, endossado por 51 líderes nacionais dos sem-terra, foi elaborado terça-feira e divulgado ontem. Os dissidentes – 28 oriundos do Estado – anunciam a saída do MST e de organizações derivadas, como o Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD, de cunho urbano) e a Via Campesina.

Os dissidentes sem-terra citam o Partido dos Trabalhadores (PT) e o MST, criticando esses antigos aliados por abandonar a luta pelo socialismo, que marcou o nascimento de ambas organizações. A carta critica o governo Dilma Rousseff de se aliar “à classe dominante” e até de legalizar terras griladas. São listadas como exemplos de abandono de compromissos por parte do governo a desigualdade de investimentos no agronegócio e na reforma agrária, a aprovação das sementes transgênicas, a expansão da fronteira agrícola “com legalização da grilagem nas terras de até 1,5 mil hectares”, a permanência dos atuais índices de produtividade exigidos aos plantadores e as alterações no novo código florestal.

O documento também acusa o MST de deixar de lado algumas tradições bélicas, como as invasões de terra:

– Nossas lutas passaram a servir para movimentar a massa dentro dos limites da ordem e para ampliar projetos assistencialistas dos governos, legitimando-os e fortalecendo-os. Agora o que as organizações necessitam é de administradores, técnicos e burocratas; e não de militantes que exponham as contradições e impulsionem a luta.

Os dissidentes se dizem vítimas de boicote “político e financeiro” por parte das direções do MST e da Via Campesina. Especialmente após ações agressivas contra empresas e cooperativas.

Documento assinado por fundadores do movimento

O racha fica evidenciado em expressões usadas pelo documento para definir a forma de atuação dos líderes do MST: “burocratização, institucionalização, abandono das lutas de enfrentamento, política de alianças”. Numa autocrítica, os dissidentes ressaltam que propunham o socialismo como objetivo, mas o projeto estratégico que traçaram não os levou a este caminho. Eles prometem retomar esse viés marxista de luta. O documento termina com uma frase pinçada de líderes da Comuna de Paris, fracassado levante socialista na França do Século 19: “As revoluções são impossíveis... até que se tornem inevitáveis.” O manifesto é assinados pelos que ajudaram a consolidar o MST, nos anos 80.

O cientista social e especialista em sociologia rural Ivaldo Gehlen analisa que a dissidência surge porque o MST, em crise de credibilidade, tem se obrigado a negociar – o que desagrada a alguns ideólogos da organização. O professor Gehlen afirma que os sem-terra têm diminuído os enfrentamentos e conflitos, para flexibilizar e recuperar terreno junto à sociedade.

– Não me atrevo a dizer para onde vão esses dissidentes, mas creio que dificilmente vão criar partidos de extrema esquerda, que já têm enorme dificuldade de sobrevivência. Talvez criem uma nova articulação de movimentos sociais, entre tantas que existem por aí – conclui Gehlen.

– Nosso destino será a autêntica luta contra o poder. Ainda não está decidido como isso acontecerá, mas acontecerá – afirmou a ZH Pincel, codinome de um dos líderes a favor do racha.

DefesaNet

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