Brasil - França
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Defesa@Net 14 Novembro 2009
Presidência 14 Novembro 2009
Palácio Planalto

Declaração conjunta concedida pelos Presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy
Paris-França, 14 de novembro de 2009.


Bem, eu penso que os companheiros da imprensa brasileira e francesa não vão precisar que o presidente Sarkozy e eu leiamos aqui alguns dos parágrafos do nosso acordo porque vocês ou já receberam ou vão receber.

Há um dado muito concreto que eu gostaria de dizer a vocês. Eu penso que os números que a ministra Dilma anunciou demonstram uma coisa, presidente Sarkozy, muito séria. Somente a diminuição de gás efeito estufa por conta do desmatamento da Amazônia, que assumimos até 2020, equivale à proposta que o presidente Obama está mandando ao Congresso Nacional. É importante ver que o Brasil não está brincando nessa questão do clima. Nós estamos assumindo compromissos factíveis, verdadeiros, e achamos que, pelas características do Brasil, a gente pode ajudar a que o mundo reflita com mais seriedade e com mais serenidade os riscos que nós mesmos estamos causando à humanidade.

Segundo, dizer ao meu amigo Sarkozy que, finalmente, França e Brasil acordaram. Nós sempre fomos muito amigos. Os brasileiros sempre gostaram muito dos franceses, menos no futebol, sabe. Mas sempre gostamos muito dos franceses. Não, é porque vocês inventaram um tal de Platini, depois inventaram um tal de Zidane, que tiraram a gente de três Copas. Mas, de qualquer forma, a amizade política contínua e a amizade de Estado para Estado está cada vez mais forte.

Mas a verdade é essa, é que Brasil e França sempre foram muito parceiros, sempre se gostaram muito, muitos franceses vão ao Brasil, muitos brasileiros vem a Paris, ou seja... Mas nós nunca levamos muito a sério a relação entre o Estado francês e o Estado brasileiro. E o presidente Sarkozy, ao tomar posse, deu um passo gigantesco para consolidar essa que era uma boa amizade política, cultural, sabe, em uma relação profissional entre o Estado francês e o Estado brasileiro. Ou seja, além de sermos amigos, nós precisamos ter um pensamento estratégico para os próximos 50, 100, ou quem sabe, para o século XXI inteiro.

E começamos a estabelecer nessa ideia da estratégia entre França e Brasil os acordos do submarino, os acordos dos helicópteros, os acordos dos aviões caça, que mantém os mesmos princípios que nós acordamos em Brasília. Todo mundo sabe que essa não é uma coisa simplista, é uma coisa complicada e que nós temos concorrentes e que, portanto, nós temos que conversar com muito jeito. Mas mais importante, e esse, presidente Sarkozy, me permite lhe dizer uma coisa aqui: a França é o único país da Europa que pode orgulhosamente dizer que tem 700 quilômetros de fronteira na Amazônia com o Brasil. É um privilégio extraordinário ao mesmo tempo ser um país europeu e um país amazônico.

Da mesma forma, a França tem um pé cultural muito forte no continente africano. Ora, se nós - e o Brasil também tem um pé muito forte no continente africano - se nós não transformarmos essas características naturais em uma força política que permita que nas negociações não sejamos apenas França ou apenas Brasil ou apenas França e Brasil, mas que seja um conjunto de forças políticas, que tenham coisas de bens comuns, de interesses comuns, a gente terá muito mais dificuldade de fazer o mundo contemporâneo fazer as mudanças que precisam ser feitas, desde a questão climática à questão da governança global.

Lamentavelmente, na política, é mais fácil ser conservador, porque ser conservador é você não querer mudar nada, é ficar tudo como está. Eu não sei se os franceses sabem disso, os brasileiros sabem. Mas, quando eu digo conservador, não é no sentido ideológico, é no sentido prático da vivência humana.

Quando, no Brasil, você tem uma pessoa pobre morando em uma área de risco e começa a chover, e a gente vai tentar convencer aquela pessoa a sair daquele local porque ela vai morrer, ela não quer sair, ela quer ficar lá, porque ali ela conhece e, ali, ela pensa que nada vai lhe acontecer. E o novo é um novidade que nem todo mundo tem coragem de enfrentar.

E eu queria dizer que o presidente Sarkozy teve coragem de enfrentar o novo. E qual é o novo? É não repetir a mesmice do século XX, é pensar no século XXI adentrando ao século XXII, é pensar no amanhã em vez de ficar discutindo o ontem, o anteontem, é discutir o futuro em vez de discutir o passado.

Então, esse documento que nós assinamos é um documento histórico, que eu espero que possa servir de paradigma para balizar as discussões que os chefes de Estado deverão ter em Copenhague em 16 de dezembro e 17 de dezembro.

Queria dizer mais uma coisa, presidente Sarkozy: a França e o Brasil precisam ficar muito atentos, porque essas coisas todas são muito fáceis de falar, a discussão ambiental, na universidade, é fácil de ser feita, muitas vezes, dentro dos congressos, ela é fácil de ser feita. Mas, na hora em que chega na vida prática, que você tem que transformar a teoria em números práticos e concretos, e objetivos definidos, as coisas começam a ficar mais difíceis.

Pois bem, desde o Protocolo de Quioto, pouca coisa avançou. Eu, de vez em quando, penso, Sarkozy, que a desgraça, por maior que ela seja, ela, às vezes, acontece para chamar o homem, na sua pequenez diante do universo, a pensar um pouco grande.

O gás de efeito estufa, na hora em que ele é lançado na atmosfera, não tem privilégio de país rico e país pobre. Esta foi uma sabedoria de Deus, ao fazer a Terra redonda, e ao fazer ela girar, porque todos nós estaremos passando, em algum momento, por todos os lugares. E isso, obviamente que aumenta... se o mundo fosse retangular ou quadrado, em que tivesse mais gás em cima do território americano, ou em cima do território chinês, ou em cima do território brasileiro, a gente construiria até um muro no alto, para não permitir que o gás de efeito estufa adentrasse. Mas não, o mundo é redondo. Ele está girando, e todos nós estamos sendo vítimas da mesma irresponsabilidade nossa.

Então, veja, o que nós temos que ter cuidado? Nós não temos o direito de permitir que o presidente Obama e o presidente Hu Jintao façam um acordo com base, apenas, nas duas realidades políticas e econômicas dos seus países. Ou seja, no fundo, no fundo, de um lado, o que a gente está percebendo é a tentativa da criação de um G-2, com interesses específicos para resolver o problema político e climático dos dois países, sem se importar com as responsabilidades que nós temos que ter com o conjunto da humanidade, envolvendo pobres e ricos, Norte e Sul.

Eu fiquei com a responsabilidade de ligar para o presidente Obama, vou ver se na segunda-feira eu falo com ele, porque é preciso que os Estados Unidos, como a maior economia do mundo, seja o mais ousado do mundo, para melhor, e não para trás. Que a China, que não tem a mesma responsabilidade que os países desenvolvidos mas que, como cresce de forma extraordinária, tem que ter um pouco mais de ousadia na sua proposta.

Ninguém está exigindo que qualquer pessoa faça o impossível. O que nós queremos é que todos nós façamos apenas o razoável, e que tenhamos a coragem de deixar para os futuros seres humanos, que ainda vão vir, um mundo pelo menos igual àquele que nós herdamos dos nossos pais.

Por isso, eu queria dizer, presidente Sarkozy, da minha alegria profunda de o Brasil e França terem chegado a esse acordo. Isso aqui é um marco histórico na relação entre os dois países e é um sinal histórico de que França e Brasil não estão brincando quando discutem a questão. Muito obrigado.

Jornalista: Senhores presidentes, a União Europeia e o Brasil estão na liderança da luta contra o aquecimento global, vemos bem. Mas, infelizmente, ainda estamos esperando as propostas dos Estados Unidos, da China e da Índia. Pois bem, se as coisas não correrem como nós esperamos e queremos, vão ficar satisfeitos com um acordo de princípio, apenas, em Copenhague, ou seja, sem nenhum elemento que crie obrigações?
Presidente: Eu penso que esse documento assinado pelo presidente Sarkozy e por mim, ele é mais do que uma carta de princípio. Eu acho que ele passa a ser a nossa a ser a nossa bíblia climática. Ou seja, e nós, obviamente, que vamos para Copenhague e vamos nas reuniões subsequentes que fizermos com os outros países, balizá-los para um paradigma próximo disso aqui ou igual isso aqui. E nós sabemos que vai precisar de muita disputa.

O dado concreto é que eu tenho clareza absoluta que hoje a humanidade, as pessoas que estão discutindo a questão ambiental no mundo e as pessoas sérias estão de acordo com os princípios que estão colocados neste documento e querendo torná-los realidade. Hoje, é Brasil e França, amanhã pode ser o mundo inteiro assinando um documento desse.

Jornalista: O senhor pensa em dar alguma garantia de que o Brasil, efetivamente, vai cumprir essas metas?
Presidente: Olhe, a garantia que um chefe de Estado pode dar é o documento que nós fizemos ser consenso na sociedade brasileira e, sobretudo, nas instituições que cuidam da questão climática, no Brasil, e, ao mesmo tempo, esse documento ser tornado público.

Ou seja, eu tenho apenas mais um ano de mandato. O que está colocado não é para o presidente Lula fazer, é para o Brasil fazer, são para os agricultores fazerem, para os prefeitos, para os governadores de estado, para o Congresso Nacional, para os agricultores pequenos e grandes. É um compromisso patriótico do nosso país.

E eu vou dizer para você como é possível atingir isso: o desmatamento que a ministra Dilma disse aqui, que foi reduzido, na Amazônia, de 12.900 para 7 mil quilômetros, é o que estava previsto para 2014. Portanto, nós antecipamos em praticamente 4 anos o desmatamento. Da mesma forma que nós antecipamos em 3 anos o biodiesel, que estava previsto 5% de biodiesel no óleo diesel brasileiro, em 2013, e nós agora, a partir de 1º de dezembro de 2010, vamos começar a utilizar o B5. E, mais ainda, nós vamos antecipar em muitos anos uma outra meta, que é o cumprimento das Metas do Milênio na maioria dos itens que as Nações Unidas avocou. Portanto, nós estamos convencidos que se os brasileiros tomarem isso como uma bandeira, nós iremos surpreender o mundo fazendo mais rápido e, quem sabe, fazendo até mais.

Esse desmatamento, é importante a imprensa brasileira compreender: quando nós tomamos a decisão de que não adiantava nós ficarmos punindo prefeito, brigando com governador, e chamamos os governadores, e chamamos os prefeitos, e construímos uma parceria com eles, dando benefícios e condições materiais para que os prefeitos pudessem ser os fiscais... Ontem, eu participei de uma reunião com 43 prefeitos das áreas que mais desmatavam no Brasil. E os prefeitos estão em festa, porque eles passaram a compreender que o não desmatamento é uma vantagem comparativa para o desenvolvimento dos seus municípios. Então, em vez de tapas, chamego, e a gente resolve o problema.

Jornalista: Lula, vai a Roma, agora? Vai fazer a extradição de Cesare Battisti, que começou uma greve de fome e que disse estar pronto de ir até a morte?
Presidente: Olha, eu, se fosse o Batistti não começaria greve de fome, porque eu fiz greve de fome, é ruim. Eu fiz seis dias de greve de fome e não aconselho ninguém a fazer greve de fome.
Veja, eu acho que o presidente da República do Brasil pouco pode fazer quando o processo está na mão da instância superior da Justiça brasileira. O processo do Batistti está no Supremo Tribunal Federal e eu tenho que esperar a decisão da Suprema Corte para saber se sobra alguma coisa para a Presidência da República fazer.

Defesa@Net

Posição Comum do Governo da República Federativa do Brasil e do Governo da República da França sobre Mudança do Clima
http://www.defesanet.com.br/france/clima.htm
Declaração do Presidente Luiz Inácio à imprensa - Paris 14 Novembro 2009
http://www.defesanet.com.br/france/clima_1.htm

     
 
 
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