Posição
Comum do Governo da República Federativa do
Brasil e do Governo da República da França
sobre Mudança do Clima
O
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Presidente
da França, Nicholas Sarkozy, divulgaram hoje,
durante encontro mantido em Paris, o seguinte documento
sobre a posição comum dos Governos brasileiro
e francês acerca de Mudança do Clima:
Brasil
e França reiteram sua convicção
de que a mudança do clima é um dos desafios
mais prementes que enfrentamos hoje e requer uma resposta
global imediata guiada pela justiça e equidade.
Os dois países destacam que o combate à
mudança do clima é um imperativo que
deve ser plenamente compatível com o crescimento
econômico sustentável e a luta contra
a pobreza. Endossam as conclusões científicas
do Quarto Relatório de Avaliação
do Painel Intergovernamental sobre Mudança
do Clima (IPCC) e apoiam o objetivo de que o aumento
da temperatura média global não deva
ultrapassar 2 graus centígrados acima dos níveis
pré-industriais, o que implica um pico nas
emissões globais o mais cedo possível
e a redução das emissões globais
em pelo menos 50% até 2050, com relação
a 1990.
Brasil
e França estão engajados a trabalhar
juntos antes da 15a Conferência das Partes na
Convenção-Quadro das Nações
Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a ser
realizada em Copenhague, em dezembro de 2009. Ressaltam
a importância de estabelecer pontes entre os
países e estão dispostos a continuar
promovendo entendimentos entre o G-77/China e os países
industrializados. Felicitam-se pelo fato de que dois
países com circunstâncias nacionais e
regionais distintas possam expressar pontos de vista
comuns sobre questões importantes da agenda
internacional de negociação sobre mudança
do clima. Estão determinados a acelerar o andamento
das negociações a fim de que se alcance,
em Copenhague, no final do ano, um resultado positivo
e ambicioso, com base no Mapa do Caminho de Bali.
Brasil
e França se comprometem a cooperar para fortalecer
o regime internacional de mudança do clima,
aprofundando a implementação da UNFCCC
e do Protocolo de Quioto. A esse respeito, recordam
que todas as Partes devem formular, implementar, publicar
e atualizar periodicamente programas nacionais contendo
medidas para mitigar a mudança do clima e facilitar
a adaptação à mudança
do clima. Tais planos devem servir de veículo
para o crescimento de baixo carbono. Brasil e França
enfatizam que todos os países do Anexo I devem
adotar novas e ambiciosas metas de redução
de emissões no médio prazo, de acordo
com suas capacidades e responsabilidades históricas
e atuais, em conformidade com o objetivo de 2º
C e as recomendações do IPCC. Os países
do Anexo I devem delinear trajetórias de emissões
condizentes com a meta de redução das
suas emissões em pelo menos 80% até
2050, em relação a 1990 .
Nesse contexto, Brasil e França concordam sobre
a importância central da comparabilidade das
metas de redução para o conjunto da
economia de todos os países do Anexo I. Ao
mesmo tempo, os países não-Anexo I devem
visar ao crescimento de baixo carbono por meio da
implementação de ações
de mitigação nacionalmente adequadas
(NAMAs), no contexto do desenvolvimento sustentável,
facilitadas e apoiadas pelos países desenvolvidos
mediante recursos financeiros novos e adicionais,
cooperação tecnológica e capacitação.
Os países em desenvolvimento também
devem contribuir para o esforço global de combate
à mudança do clima, reduzindo substantivamente
o crescimento de suas emissões com respeito
a um cenário de crescimento normal de emissões,
de forma condizente com as recomendações
do IPCC, a fim de reduzir a intensidade de carbono
das suas economias e atingir um pico de emissões
o mais cedo possível, levando em consideração
que o desenvolvimento social e econômico e a
erradicação da pobreza são as
prioridades primordiais e absolutas dos países
em desenvolvimento.
Nossos
dois países apoiarão o estabelecimento
de um registro como parte da moldura geral para mensurar,
informar e verificar (MRV) tanto as NAMAs promovidas
pelos países em desenvolvimento quanto o apoio
recebido dos países desenvolvidos. O registro
canalizaria os meios de implementação
das ações de mitigação
de países em desenvolvimento, representando
importante contribuição para o aprofundamento
do esforço global de mitigação.
Brasil
e França também ressaltam a importância
da adaptação aos efeitos adversos da
mudança do clima e concordam que mitigação
e adaptação devem receber igual atenção
no âmbito da Convenção. Apesar
da reduzida responsabilidade pela mudança do
clima, os países em desenvolvimento já
estão enfrentando seus efeitos adversos. O
Brasil e a França enfatizam a necessidade de
se estabelecer moldura justa, abrangente e robusta
para ações de adaptação.
Tal moldura deve incluir apoio financeiro novo e significativo
para os países em desenvolvimento, em especial
os países pobres e vulneráveis da África,
os Países de Menor Desenvolvimento Relativo
(LDC) e os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento
(SIDs), de forma que tais países possam enfrentar
o ônus adicional que a mudança do clima
impõe com relação ao desafio
existente de desenvolvimento social e econômico
e erradicação da pobreza.
Brasil
e França recordam que o fornecimento de recursos
financeiros é um dos pilares para a implementação
abrangente, efetiva e sustentada da Convenção.
Nesse contexto, ressaltam que o aumento do financiamento
público internacional será fundamental
para o resultado exitoso da COP-15. Destacam o papel
dos instrumentos financeiros e de financiamento inovador,
bem como o papel do setor privado, para o apoio a
ações de mitigação e adaptação
e o desenvolvimento e transferência de tecnologias.
Os investimentos devem apoiar o crescimento de baixo
carbono e padrões sustentáveis de produção
e consumo.
Brasil
e França ressaltam a necessidade de aumentar
a cooperação entre países desenvolvidos
e países em desenvolvimento na área
de pesquisa, desenvolvimento, aplicação,
difusão e transferência de tecnologias
ambientalmente adequadas. A cooperação
tecnológica também pode ser ampliada
por meio do estabelecimento de centros internacionais
para capacitação e troca de conhecimentos
e informações, bem como por meio de
centros nacionais e regionais para tecnologias ambientalmente
adequadas. Soluções inovadoras são
necessárias para aumentar de forma significativa
o acesso a tecnologias.
Os
dois países enfatizam a importância de
estimular ações voltadas para a redução
das emissões por desmatamento e degradação
florestal (REDD) em países em desenvolvimento.
Reconhecem que esse objetivo é parte importante
dos esforços de mitigação de
vários países em desenvolvimento e pode
desempenhar um papel significativo no esforço
global para enfrentar a mudança do clima. A
redução das emissões por desmatamento
e degradação florestal, por meio da
conservação das florestas, manejo sustentável
e aumento dos estoques de carbono nas florestas, pode
e deve promover cobenefícios sociais e ambientais.
Nesse
sentido, concordam que tais atividades devem receber
apoio financeiro e tecnológico adequado, como
parte das ações de mitigação
nacionalmente adequadas (NAMAs) a serem implementadas
pelos países em desenvolvimento. Ressaltam
a necessidade de fortalecer a capacitação
e a cooperação tecnológica -
tanto Norte-Norte quanto Sul-Sul - no setor florestal,
inclusive no uso de ferramentas de sensoriamento remoto.
Comprometem-se a assegurar a inclusão das REDD
no resultado a ser acordado em Copenhague, com vistas
ao estabelecimento de meios efetivos e confiáveis
de apoio a tal objetivo no âmbito da Convenção.
Brasil
e França destacam a necessidade de resultados
ambiciosos na redução de emissões
de gases de efeito estufa em escala global. Nesse
sentido, salientam o papel da promoção
da eficiência energética e de fontes
renováveis de energia, inclusive de bioenergia
sustentável do ponto de vista social e ambiental,
como parte do esforço global para enfrentar
a mudança do clima.
Brasil
e França concordam com a necessidade de estabelecer
uma organização internacional dedicada
ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável,
que daria coerência aos esforços da comunidade
internacional em tais áreas. Estão convencidos
de que o impulso a essa iniciativa deve ser dado em
Copenhague, em dezembro, de modo que a referida organização
possa ser estabelecida durante a Conferência
Rio+20, no Rio de Janeiro, em 2012.
Paris, 14 de Novembro de 2009